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Fé e cultura

Bíblia inspira música contemporânea

A influência dos textos bíblicos na composição musical e a procura da transcendência através da veneração a artistas foram algumas das questões refletidas esta quinta-feira (31 de março), em Lisboa, na abertura do ciclo de conversas "A Bíblia, coisa curiosa".

A iniciativa, organizada pela Casa Fernando Pessoa, que acolheu o encontro, e pelo diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, padre José Tolentino Mendonça, foi inaugurada com o tema ‘Bíblia & Música’.

O cantautor Tiago Cavaco recordou alguns dos trechos bíblicos pontuados pela música, como «os Salmos», o «Cântico dos Cânticos», as «lamentações proféticas do Antigo Testamento», a «subida de Jesus a Jerusalém» e as «erupções teológicas de São Paulo» intervaladas por cânticos litúrgicos.

Para Eurico Carrapatoso, o momento em que um anjo comunica a Maria que vai ser mãe de Jesus – a “Anunciação” – constitui um «momento fulminante e absolutamente marcante» da escritura.

O compositor transmontano destaca entre os seus trabalhos de inspiração bíblica a peça “Horto Sereníssimo”, que integra um «tríptico mariano» no qual se inclui o “Magnificat em Talha Dourada”, uma das suas obras mais conhecidas.

«Toda a minha música tem a ver com o facto histórico mais importante da história do mundo, que é a ressurreição de Cristo», afirmou por seu lado o padre ortodoxo Ivan Moody, de origem inglesa.

Depois de aludir aos livros do Génesis e do Apocalipse – primeiro e último da Bíblia – como inspiradores das suas composições, o presbítero do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla referiu que as suas obras são marcadas por «uma grande transparência, que não é só técnica mas também espiritual».

Perante as 80 pessoas que assistiram ao encontro, Ivan Moody expressou a sua perplexidade pelo facto de autores que não acreditam em Deus se inspirarem em textos considerados sagrados: «Não percebo como um ateu pode musicar textos litúrgicos».

Assumindo-se como um «compositor crente», João Madureira falou sobre o «momento de festa e linguagens diferentes» da “Missa de Pentecostes”, que a comunidade da Capela do Rato, em Lisboa, lhe encomendou em 2010.

«A Bíblia, como é muitas vezes revisitada musicalmente, convida-nos a ultrapassar esse enorme obstáculo que é a linguagem. Acho que há algo de pré e pós linguagem que podemos sentir como fundamental», assinalou.

Um dos «fascínios» sentidos por João Madureira ao abordar a música religiosa é a possibilidade de romper os cânones da «vanguarda» e da «tradição»: «Muitas vezes o que se sente no campo cultural é a criação de bastião intocáveis que se rejeitam mutuamente. E eu não quero fazer parte disso».

Além de servir para alimentar a fé e transmitir uma mensagem, a música tem conotações com o transcendente que nem sempre implicam a pertença a uma Igreja ou a adesão a uma religião.

«Um fã de algum artista ou estilo musical tende a viver de maneira religiosa», associando-se a eles como uma «devoção», explicou Tiago Cavaco, que também passou por esse processo durante a adolescência relativamente ao “panque-roque”.

«Querer justificar que alguém deve ser ouvido pelas circunstâncias biográficas pode no imediato ser atraente mas facilmente descamba numa contemplação mórbida», salientou o missionário protestante conhecido no meio artístico por Tiago Guillul.

 

Rui Martins (texto/foto)
In Agência Ecclesia
02.04.11

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Christophe Boisvieux/Corbis














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Eurico Carrapatoso













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Ivan Moody

















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João Madureira

 

 

 

 

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