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Espaço litúrgico de três capelas

Espaço litúrgico de três capelas

Imagem D.R.

«A maneira como construímos as nossas igrejas constituirá a manifestação por excelência da qualidade da nossa vida eclesial, da nossa vida de comunhão no corpo de Cristo.» (L. Bouyer, in "Architettura e liturgia", Bose 1998, 12)



Introdução

Este texto é uma âncora; mais, uma seta. Foi escrito com esperança e no espírito de fidelidade, para ser partilhado, na generosidade das palavras, com os interessados em arquitetura e arte para a Liturgia. É demasiado longo para estar aqui; também por isso é exceção. Mas ele precisava desta pública forma, porque é tão importante cuidar «da nossa vida eclesial, da nossa vida de comunhão no corpo de Cristo» (Louis Bouyer), no modo como se constroem ou reabilitam as igrejas. Frédéric Debuyst escreveu um novo livro sobre uma tipologia de igrejas e não esqueceu as novas capelas de Braga. A que se deve o incremento dos espaços litúrgicos a ‘dois pólos’, ambão e altar face a face? Quais são as raízes da centralidade do altar e do ambão no espaço litúrgico? O que é um presbitério em ‘ilha’ central? Se deseja conhecer um pouco mais, ainda que os temas se apresentem de forma sumária, leia conforme as suas possibilidades e contemple as fotografias.



Imagem Particular da instalação ‘Corpo da Luz’ na capela Imaculada | D.R.


Frédéric Debuyst elogia capelas novas de Braga 

Monge beneditino e fundador do Mosteiro de Saint-André de Clerland (Ottignies, Louvain-la-Neuve), situado na Bélgica, Frédéric Debuyst é membro, desde 1977, da Comissão dos monumentos da Arquidiocese de Malines-Bruxelles. No tocante a revistas, foi diretor, de 1959 a 1980, da revista Art d'Église, e é um dos criadores da revista Chronique d’art sacré.

Durante dezenas de anos escreveu sobre as artes da Igreja e a arquitetura para a liturgia. É autor da obra emblemática, Le génie chrétien du lieu, publicada pela Editora Du Cerf, que se tornou um clássico da literatura sobre a arquitetura litúrgica, à semelhança do livro de Louis Bouyer, Architecture et Liturgie, também publicado pela Du Cerf. Nela, Debuyst estuda o «genius loci» (génio / espírito do lugar), desde a Roma antiga, divindade protetora de um lugar, para sugerir o que as grandes correntes da arquitetura consideram como experiência fundamental, isto é, a do mistério que cada lugar digno deste nome possui em si mesmo. Nesta linha de orientação, estuda mais de trinta espaços da arquitetura cristã do Ocidente, por ele frequentados: igrejas de Roma, lugares do movimento litúrgico e mosteiros beneditinos.

O Génio cristão do lugar aparece na maturidade da sua reflexão, já que, antes, escreveu outras obras nas quais se dedica à arte cristã na contemporaneidade, à liturgia a partir da obra de Romano Guardini, à espiritualidade beneditina: Le renouveau de l’art sacré de 1929 à 1962 (1991); L’Art chrétien contemporain de 1962 à nos jours (1988); Bénédictins, un art de vivre (1985); L’entrée en liturgie. Introduction à l’oeuvre liturgique de Romano Guardini (2008); sem esquecer o prefácio «Art sacré et modernité, les grandes années de la revue “Art sacré” (1992). Com grande surpresa, Frédéric Debuyst escreveu, durante o ano de 2016, um novo livro que será publicado pelas Edições Qiqajon, sobre uma série de capelas em Universidades, Seminários e instituições de ensino. Segundo informações que nos foram transmitidas por Emanuele Borsotti, monge da Comunidade Monástica de Bose, o livro será publicado este ano. Sirva a publicidade para que seja adquirido e, sobretudo, lido. Quem o ler vai encontrar palavras sobre as novas capelas dos Seminários Arquidiocesanos de Braga. São palavras de quem ficou maravilhado com o que viu e, por isso, sentiu necessidade de escrever sobre elas. As transcrições são feitas a partir do livro, cujas páginas foram gentilmente fornecidas, num documento em formato pdf, pelo próprio Frédéric Debuyst a quem agradecemos tão nobre gesto.

Tudo o que escreve têm um contexto, que não é possível apresentar agora; fica para quando o livro aparecer. A propósito do tema da colocação do altar e do ambão face-a-face, em ‘dois pólos’, ele refere várias capelas, entre elas, as capelas universitárias de Ottokar Uhl, a capela da Epifania, à qual dedica maior apresentação, situada na casa-mãe da Associação das Missões Estrangeiras, situada em Paris, onde são acolhidos estudantes e seminaristas do Extremo Oriente, sobretudo vietnamitas; obra esta dos arquitetos François Pin e Catherine Bizouard, edificada em 2002. Depois destas e, ainda, da capela dos bispos da Conferência Episcopal de França, na avenue de Breteuil, também em Paris, dedica-se à apresentação das capelas de Braga, nos seguintes termos:

«Na linha universitária, podemos hoje acrescentar-lhe construções portuguesas particularmente expressivas, a saber: as capelas dos dois seminários da arquidiocese de Braga, fruto de uma colaboração surpreendentemente complementar entre o Sul e o Norte da Europa – entre artistas noruegueses e suecos especializados no trabalho da madeira e teólogos-liturgistas portugueses – um empreendimento também “ecuménico”, porquanto aqueles são luteranos. A primeira capela, terminada em 2012, foi a do seminário das vocações tardias, pequena em dimensão (destina-se a grupos de 25 a 30 participantes na celebração), onde a extraordinária tradição norueguesa das igrejas de madeira pôde expressar-se plenamente de uma forma ao mesmo tempo arejada e compacta (Seminário Conciliar São Pedro e São Paulo – Asbjørn Andresen e Pe. Joaquim Félix – capela Árvore da Vida).»



Imagem Capela Árvore da vida, vista superior | Capela Imaculada vista desde o fundo da Capela Cheia de Graça | D.R.


Depois desta referência à capela Árvore da Vida, dedica-se à capela Imaculada e, dentro desta, à capela Cheia de Graça, ambas situadas no Seminário de Nossa Senhora da Conceição:

«Outra capela de seminário, também em Braga, re-adapta um vasto espaço pré-existente transformando-o num tipo duplo de ocupação: o maior diz respeito à totalidade da nave; o outro é um pequeno recinto mais fechado, também ele em madeira, o qual permanece todavia completamente “permeável” ao espaço maior.»



Imagem Particular da Capela Cheia de graça, dentro da cúpula na Capela Imaculada | D.R.


Numa apreciação conclusiva, situa-as dentro de um contexto próprio, que tem precedentes, embora estas capelas, na sua especificidade, apelem a ‘novas sínteses’:

«Estes exemplos “ecuménicos” de obras arquitectónicas inscrevem-se assim, cada um à sua maneira, numa linhagem já longa de espaços universitários ou estudantis, alguns dos quais se tornaram verdadeiras matrizes de referência da domus ecclesiae. Vimos como é possível talvez aduzir-lhes (nomeadamente em virtude do que encontramos nas capelas de Ottokar Uhl ou na igreja-celeiro de Rattenbach, do Professor Goergen – destinada aos estágios dos “pós-graduados”) o movimento global da pequena assembleia da Palavra na Eucaristia, em três níveis diferentes. Uma prática da celebração viva que abre para o livre-câmbio entre o “lugar educador” e o apelo contínuo a novas sínteses.»

 

2. Incremento dos espaços litúrgicos a ‘dois pólos’

A tipologia axial do espaço litúrgico, no qual o altar é colocado face a face com o ambão, congregando-se toda a assembleia do Povo de Deus à volta destes, é mais frequente do que se pensa. No novo livro de Frédéric Debuyst, ele di-lo com particular referência à França e à Alemanha, mas os exemplos multiplicam-se por outros países: «Estarem altar e ambão face a face hoje já não é raro, nem em França, nem na Alemanha. Inclusivamente em Paris, como vimos, a grande capela dos bispos de França, sita na avenue de Breteuil, possui esta mesma característica.»



Imagem Capela dos Bispos de França, na Sede da Conferência Episcopal, sita na Avenue de Breteuil, Paris | D.R.


Como refere Debuyst, na citação que fazemos do seu texto, a capela dos bispos de França, na sede da Conferência Episcopal Francesa, apresenta-se agora a ‘dois pólos’. Convém informar que a disposição atual resulta de uma intervenção profunda, realizada em 2007. O espaço é antigo e longitudinal. Todavia, isso não impediu o arquiteto belga Florence Cosse de «criar um espaço radiante e de forte carga simbólica e espiritual» (http://landes.catholique.fr/La-chapelle-de-la-Maison-de-la). Segundo a nota deste site, «o povo de Deus encontra-se colocado como deveria ser - mas aqui também fisicamente - no centro da acção litúrgica: dois pólos que constituem o ambão da Palavra e o altar, em resina azul e ouro, são cobertos por uma sóbria e alta cruz que cobre igualmente a assembleia para melhor a elevar à Cidade celeste.»

Em Paris, há ainda outros espaços estruturados segundo esta tipologia: a igreja paroquial de St. François de Molitor, obra dos arquitetos Jean-Marie Dutthilleul e Corinne Callies, realizada no ano de 2004. Fica situada muito perto do estádio de futebol Parc des Princes e do complexo de ténis Roland Garros. Também muito conhecida, é a igreja de Notre Dame de Pentecôte, na Maison d’Eglise de La Défense, que se situa precisamente na Défense, um espaço de repouso, oração e acolhimento das muitas pessoas que trabalham nos prédios de escritórios ali concentrados. Neste caso, não é uma igreja paroquial. De França, refira-se ainda: a capela da Maison Saint Yves, em Chartres, obra a cargo do Atelier Chéret, concluída em 2003; e a igreja monástica da abadia de Sainte-Marie-de-la-Pierre-qui-Vire, situada la localidade de Saint-Léger-Vauban, Yonne.



Imagem Igreja paroquial de St. François de Molitor, Paris | D.R.


Não nos é possível referir todas as existências em França, quanto mais do mundo inteiro, mas, ainda assim, para alargar os horizontes da informação, elaboramos uma lista com igrejas e capelas significativas, de países europeus e dos Estados Unidos da América, que apresentamos de seguida, referindo o nome da igreja ou capela, a localização, os arquitetos e o ano da obra: 1. Alemanha: St. Marien-Kirche, Ahrensburg, Klaus Simon, 1953; St. Albert, Andernach, Rudolf Schwartz, 1954-1998; St. Franziskus-Kirche, Bonn, Leo Zogmayer, 1998; WallfahrtsKirche der Pallottiner, Vallendar (Koblenz), Hans Rams – Richard Baus, 2003; St. Florian-Kirche, München, Floran Nagler, 2005; St. Antonius Stuttgart-Kaltental, Pfeifer-Kuhn, 2006; 2. Áustria: Christus Hoffnung der Welt, Wien, Heinz Tesar, 1997-2000; 3. Itália: Santa Famiglia, San Sisto, Perugia, G. e R. Gresleri, 1998-2006; Gesú Redentore, Modena, M. Galantino, 2007-2008; Chiesa Parrocchiale della Trasfigurazione di Mussotto, Alba, Ugo Dellapiana, Paolo Dellapiana e Francesco Bermond Des Ambrois dello studio Archicura, 2009; Chiesa Monastica di Bose, Bose, Arquitetos da Comunidade, 1999; 4. Bélgica: Institut Sainte-Marie, Jambes, R. Bastin, 1964-1965; 5. Holanda: St. Elisabeth in der Auen, Bergisch – Gladbach-Refrath, B, Rotterdam, M. Schwartz (reorganização do espaço), 1990; 6. Portugal: capelas dos Seminários Arquidiocesanos de Braga – Árvore da Vida (2010), Imaculada e Cheia de Graça (2016), Arquitetos Cerejeira Fontes; capela do Seminário Interdiocesano de S. José, Braga, 2013; igreja da Serra do Pilar, Vila Nova de Gaia, Pe. Arlindo Cunha, Gabriel David & esposa, e outros membros da Comunidade, 1975-; 7. EUA: Cathedral Our Ladies of Angels, Los Angeles, Rafael Moneo, 1996-2002; Episcopalian Cathedral, Philadelphia, Richard Giles, 2002.



Imagem Bonn, Franziskuskirche © Firma Schmitt, Architekturphotographie, Berlin | D.R.


Conhecedores da existência de muitas outras, algumas delas visitadas, cabe-nos informar que várias destas igrejas e capelas foram apresentadas nos Congressos Internacionais de Liturgia realizados, durante os últimos anos, no Mosteiro de Bose, cujas Actas, editadas pelas Edizioni Qiqajon, contêm álbuns de fotografias das mesmas (specie, do IV Congresso, Spazio liturgico e orientamento, 2006; do VI Congresso, Assemblea santa. Forme, presenze, presidenza, 2008; e do VII, Chiesa e Città, 2009). De referir que Frédéric Debuyst é, desde 2003, membro do Comité Cientifico destes Congressos, que são organizados pelo Mosteiro de Bose, com a colaboração do Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja da Conferência Episcopal Italiana e do Conselho Nacional dos Arquitetos, Urbanistas, Paisagistas e Conservadores de Itália.



Imagem Igreja da Serra do Pilar, Vila Nova de Gaia, Porto, durante uma celebração eucarística | D.R.


3. Raízes da centralidade espacial do altar e do ambão

A estruturação do espaço litúrgico de uma igreja ou capela funda-se, antes de mais, na sua articulação com o altar e o ambão, duas mesas onde a assembleia do Povo de Deus se alimenta do Corpo e da Palavra do Senhor. Ao longo dos séculos, o lugar destas mesas no espaço onde os cristãos se reuniam para celebrar os santos mistérios variou consideravelmente. No princípio, segundo os dados da arqueologia cristã, ambas as instâncias, se assim se pode falar, ‘viajaram’ no sentido da perda da centralidade espacial, não da importância, até o altar-mor se colar à parede de cabeceira, e, mais tarde, aparecerem múltiplos altares ao longo das paredes e em capelas laterais. Embora esse fosse o movimento geral, a ubicação primeira permaneceu em muitas igrejas, inclusivamente nas basílicas; disso são testemunhas as igrejas edificadas sobre as tumbas dos mártires, onde jamais o altar saiu do centro. Não sucede isso, só para citar entre as mais conhecidas, nas basílicas de S. Pedro, no Vaticano, e de S. Paulo, Fora de Muros, em Roma?



Imagem Altar da Confissão de S. Pedro, basílica de S. Pedro no Vaticano, Roma | D.R.


O ambão, por sua vez, teve uma história diferente. Na verdade, apareceu mais tarde do que o altar e, sob a influência da liturgia judaica, encontrava-se no centro do espaço litúrgico, como o bema nas sinagogas. Dessa primeira fase histórica, dão-nos testemunho, por exemplo, as primeiras igrejas da Síria (cf. P. Castellana, R. Fernández, Chiese siriane del IV secolo, Edizioni Terra Santa, Milano 2013), muitas delas construídas pelas comunidades cristãs de origem judaica.

No Ocidente, muitas igrejas e basílicas conservam o ambão, ou ambões, no centro da nave, fora do designado presbyterium. Grande parte desses ambões são autênticos monumentos da Palavra de Deus, cuja teologia se plasma na sua arquitetura e ornamentação. Para não sairmos de Roma, cidade por muitos visitada como destino turístico e de peregrinações, citemos, entre os mais representativos, os das basílicas de S. Clemente, Santa Sabina, Santa Maria in Cosmedin, entre outros; no caso destas três basílicas, que possuem mais do que um ambão cada uma, eles foram edificados dentro de uma construção, com muros em mármore e cancelas, destinada à schola cantorum. Aparecem, também, fora dessa estrutura murada, sempre no meio da nave, como os belos ambões das catedrais de Ravello, Salerno, etc. Progressivamente, porém, foram caminhando em direção ao altar até desaparecerem. Todavia, à sua falta, não se deixou de fazer a liturgia da palavra. Onde se faziam então as leituras? Nada mais nada menos do que sobre o altar, nos ângulos do Evangelho e da Epístola, respetivamente. E, em movimento de concentração ministerial, as leituras passam a ser feitas exclusivamente por clérigos, que presidiam à celebração dos sacramentos. De facto, as leituras deixam de ser feitas por leigos, pois estes, na sua maioria, desconheciam o latim, idioma em que se encontravam os textos bíblicos dos livros litúrgicos.



Imagem Ambões na catedral de Ravello, Itália: à direita, o ambão do Evangelho, obra de Nicola di Bartolomeo de Foggia (1272), e, à esquerda, um outro de inspiração bizantina, com a figuração do episódio bíblico do profeta Jonas e do monstro marinho, e o túmulo de Jesus aberto ao centro, doado pelo segundo bispo de Ravello | D.R.


Com a reforma do Vaticano II, assiste-se novamente a outra ‘viagem’ do altar e do ambão que, de forma lenta (como sucedeu no seu afastamento), voltam ao centro do espaço da assembleia litúrgica. Primeiro, o altar separou-se da parede, conforme a indicação da Instrução Geral do Missal Romano: «Onde for possível, o altar deve ser construído afastado da parede, de modo a permitir andar em volta dele e celebrar a Missa de frente para o povo.» Pela sua localização, há-de ser o centro de convergência, para o qual espontaneamente se dirijam as atenções de toda a assembleia dos fiéis.» (IGMR, n.299). Nos últimos anos, a sua trajetória evolui no sentido de se implantar no centro da assembleia. O paradigma desta topologia remonta à primitiva centralidade, a da sala alcatifada e pronta, onde Jesus instituiu a Eucaristia com os presentes, sentados e à volta de uma mesa; centralidade esta que foi assumida na gramática das domus ecclesiae, espaços domésticos e de calor familiar, após o abandono das sinagogas e do Templo, ainda antes de se adaptarem as basílicas civis e de haver ‘igrejas’ e ‘capelas’ como as conhecemos hoje. Foi também nesse sentido que se implantou o presbitério no centro do espaço litúrgico, por exemplo, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, no Brasil, e na Cripta S. Pio X, em Lourdes.



Imagem Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, Brasil | D.R.


O que estará na origem deste trânsito do altar e do ambão dentro dos espaços litúrgicos? Entre outros fatores, estão sem dúvida razões que se prendem com a inculturação do cristianismo nas várias Igrejas locais e mudanças culturais ao longo da História. E depois não esqueçamos o que diz Enrico Mazza, a propósito da evolução do aparato ritual do ordo missae, que atinge também o lugar das celebrações litúrgicas: «Ao longo dos séculos a liturgia eucarística jamais caminhou só: foi sempre acompanhada por interpretações que nas várias épocas lhe foram dadas, a tal ponto que, por vezes, a celebração foi transformada para corresponder melhor à interpretação. A interpretação, ou seja a teologia sacramentária, nasce do rito, mas, transformada no tempo, reflecte-se sobre o rito e transforma-o.» (E. Mazza, La celebrazione eucaristica, 5). Em suma, transforma o rito e, também, os lugares do rito; a performance, o tempo e o espaço refletem a interpretação.

 

4. Presbitério em ‘ilha’ central

Este peregrinar pelo espaço cria desafios para os quais há que pensar numa geografia de mapas lentamente redesenhados, novas heterotopias, outros lugares dentro do espaço, espaços que se geram no interior de si. Com efeito, se o espaço está para cumprir a sua missão, se é digno do que é, não já como espaço do antigo ‘sagrado’, mas, na sua ‘dedicação’, para servir nas melhores condições a relação de ‘encontro’, quer com Deus, quer dos seus filhos consigo próprios na Sua presença; então, o desafio é claro e, embora exigente, os impossíveis para o atender desaparecem.



Imagem Philadelphia Cathedral (edificada em 1898), reconfigurada em 2002 por Dean Richard Giles | D.R.


Atendamos em particular à movimentação do altar e do ambão no espaço litúrgico. De início poderá surgir uma questão: Como corresponder às indicações para a sua implantação, tendo em conta, por exemplo, a Introdução Geral do Missal Romano? Quanto ao ambão, pode ler-se: «A dignidade da palavra de Deus requer que haja na igreja um lugar adequado para a sua proclamação e para o qual, durante a liturgia da palavra, convirja espontaneamente a atenção dos fiéis.» (IGMR, n.309) Este «lugar adequado» há-de ser procurado, «tanto quanto a arquitectura da igreja o permita» (ibidem), para facilitar o ver e o ouvir dos fiéis. Todavia, já antes, no n. 295, está escrito: «O presbitério é o lugar onde sobressai o altar, donde se proclama a palavra de Deus e onde o sacerdote, o diácono e os outros ministros exercem as suas funções.» (IGMR, n. 295) Porventura estas indicações limitam a movimentação do altar e do ambão no espaço litúrgico? Não. Porque o presbitério, que já não é o ‘antigo’ presbyterium, lugar exclusivo dos ministros ordenados, abriu-se a outros ministérios na ação litúrgica e, também a seu modo, foi-se deslocando, ainda que mais lentamente, para outras formas de referencialidade que não somente a da basílica romana, edifício civil adaptado, que veio a impor-se nas construções sucessivas como paradigma maior.

Como pensar e adequar o presbitério, tendo em conta as indicações da IGMR, quanto à sua localização e às características da sua espacialidade, entre elas, a comodidade do desenrolar da celebração e a visão dos participantes? Para responder a tão importante pergunta, gostaria de dar a voz a outras pessoas que, pela sua experiência, responsabilidades eclesiais e produção literária, podem oferecer contributos significativos nesta matéria. Refiro-me em particular a uma rubrica criada em Itália, para apresentar igrejas contemporâneas.



Imagem Notre-Dame de Pentecôte, na Maison d’Eglise de La Défense, Paris | D.R.


Aliás, não é apenas uma, mas duas rubricas: «Una chiesa al mese» e «Un libro al mese», uma igreja e um livro por mês. Ambas as rubricas estão disponíveis online: www.edculto.it, site do Servizio nazionale per l'edilizia di culto da Conferência Episcopal Italiana. O seu lançamento foi noticiado na comunicação social (cf. v.g.: https://www.avvenire.it/chiesa/pagine/una-chiesa-al-mese-rubrica-cei). Na nota de apresentação, escrita por D. Giuseppe Russo, pode ler-se: «A primeira inclui fichas concebidas para apresentar e comentar igrejas significativas construídas recentemente nas diferentes regiões italianas; a segunda livros que aprofundam o tema sob o ponto de vista arquitetónico, litúrgico, teológico. Porque as igrejas são um veículo de não secundária importância na apresentação do rosto da Igreja, mesmo em nossos dias.»

A esta nota explicativa, D. Giuseppe Russo acrescenta outra informação, que pode interessar a todos e não apenas aos italianos: «A rubrica “Uma igreja por mês”, ativada neste site, responde a uma difundida exigência de conhecimento não superficial e não genérico da arquitetura sagrada contemporânea. Por outras palavras: tentamos compreender da melhor forma o que constitui o objeto constante do nosso trabalho! Por esta razão, a rubrica está direcionada principalmente para aqueles que compartilham connosco há anos o esforço para promover a qualidade da arquitetura para a liturgia. Juntamente com eles, esperamos motivar e entusiasmar, no curso desta viagem de aventuras, pelos passos de alguns dos autores mais emblemáticos das novas igrejas das últimas décadas, muitas outras pessoas. Sejam eles especialistas experientes ou projetistas de igrejas; bispos, sacerdotes ou leigos cristãos; crentes ou não-crentes. Todos aqueles que, de uma forma ou de outra, já entram em relação com a arquitetura sagrada e sentem a necessidade de se aprofundar o olhar de uma forma mais perspicaz e bem fundamentada.»

O material publicado é produzido por Andrea Longhi, historiador da Arquitectura e docente no Politécnico de Turim. Nas fichas, ele segue um conjunto de itens para fazer o ‘racconto’ das igrejas. Quem os desejar ver, aceda ao website, acima fornecido. Estas fichas servirão, em última instância para, como bem salienta D. Giuseppe Russo, «favorecer um conhecimento mais cuidado da arquitetura sacra contemporânea, para ampliar a reflexão e o debate».



Imagem Igreja na paróquia da Natività di Maria Santissima, Frazione Mussotto, na Diocese de Alba, Itália | D.R.


Saliente-se uma destas fichas, neste caso relativa à nova igreja na paróquia da Natività di Maria Santissima, na diocese de Alba. Concentremo-nos na clareza com que se apresentam os fundamentos teológico-litúrgicos e à forma como se cria o presbitério e a disposição altar-ambão:

«A solução realizada concretiza portanto a escolha de colocar os pólos litúrgicos num espaço vazio ao centro da assembleia celebrante, com uma cuidadosa distinção de lugares e tipos de ministerialidade, entre a qual é sublinhada a do presbítero presidente. A assembleia está reunida à volta das duas mesas, mas não está fechada sobre si mesma, não é auto-referencial: a estrutura espacial e a iluminação mostram de facto uma forte sensibilidade em relação a uma orientação escatológica da Igreja, evocada pela disposição longitudinal / processional do complexo, mas especialmente pela abertura do edifício para o céu e para o exterior, com uma disposição que “conduza ao altar sem parar por aí, que aponta além de uma perspectiva cósmica e supra-cósmica” (a partir da redação do projeto); em volta do altar, de facto, “a família dos fiéis não aparecerá como uma família humana fechada em si mesma; a família cristã deve ser sempre aberta: aberta à Igreja invisível formada por todos os cristãos, neste e no outro mundo, aberta ao mundo, ao reino eterno”.»

Na idealização conceptual do espaço interno desta igreja estiveram presentes várias hipóteses, como se apresenta no texto, que transcrevemos:

«Dentro da “tenda”, concept do projeto, foram hipotizados diversos dispositivos litúrgicos: assembleia distribuída em leque ao longo do eixo maior longitudinal, com o presbitério plenário frontal; assembleia reunida em torno de um presbitério em “ilha” central, com os pólos concentrados; assembleia bipolar, organizada em elipse à volta do binómio altar-ambão, com a cadeira ao longo do eixo maior, atrás do altar.»

Após profunda ponderação de todas elas, os responsáveis tomaram uma decisão; e, naturalmente, decidiram por aquela que pareceu a melhor solução, cuja apresentação é descrita assim:

«A solução definitiva adota portanto o modelo bipolar, com a assembleia disposta em duas metades semi-elípticas à volta do altar e do ambão, separados por um grande espaço livre central “expressão de uma expectativa de um totalmente Outro que se dá, e ao mesmo tempo expressão de um reenvio para Ele” (relatório de Ugo Dellapiana). A cadeira do presidente, ladeado por assentos para os ministros, faz parte da assembleia, não está sobre um “presbitério”, mas está “na” comunidade; está colocada numa posição central entre o altar e o ambão, no eixo da entrada principal da igreja subjacente ao lado curto da elipse da planta.»

O interesse sobre a fundamentação litúrgica do espaço interno desta nova igreja tem um propósito: lançar o assunto enunciado no subtítulo, sobre a disposição do espaço litúrgico das novas capelas dos Seminários Arquidiocesanos de Braga, que se apresenta de seguida. Antes porém, não se pode deixar de exaltar o que aparece logo no primeiro parágrafo da nota abundantemente citada: «A definição da planta litúrgica é o resultado de um processo de projetação que envolveu o pároco Pe. Franco Gallo (pároco desde o ano 2000), a comunidade e os serviços da cúria, sob a direção do bispo D. Sebastiano Dho (bispo de Alba entre 1993 e 2010), e ainda do Comitato per l’Edilizia di culto da Conferência Episcopal Italiana.»



Imagem Igreja da abadia de Sainte-Marie-de-la-Pierre-qui-Vire, Saint-Léger-Vauban, Yonne | D.R.


5. Capelas ‘Árvore da Vida’, ‘Imaculada’ e ‘Cheia de Graça’

O ‘Ano Paulino’, que decorreu de junho de 2008 a 29 de junho de 2009, pode considerar-se como o início do renovamento da arquitetura litúrgica e das artes nos Seminários Arquidiocesanos de Braga. Depois da exposição de pintura ‘Cartas de S. Paulo’, da autoria de Ilda David’, seguiu-se a construção da capela Árvore da Vida. Entretanto, na sequência de um movimento ininterrupto, surgiu a oportunidade de reabilitar a capela do Seminário de Nossa Senhora da Conceição, que apresentava problemas de natureza estrutural. Desta obra nasceram duas capelas, a ‘Imaculada’ e a ‘Cheia de Graça’: aquela resulta da reabilitação da pré-existente, esta é uma nova construção, em madeira e dentro daquela, ao serviço da comunidade residente. Estão ambas dedicadas a Nossa Senhora da Conceição; daí os nomes, atribuídos em função do mistério da sua conceção imaculada e da saudação que o anjo Gabriel lhe dirigiu na anunciação.

O espaço litúrgico das três capelas foi planificado segundo a tipologia axial a dois pólos, cujas características foram já apresentadas. Como se pode depreender, nisto, as capelas não são inéditas. Todavia, elas apresentam-se como declinações do mesmo radical tipológico, com variantes arquitetónicas e modulações teológico-litúrgicas que lhes conferem identidade própria. Vejamos sumariamente cada uma.

 

Capela Árvore da Vida

Esta capela não precisa de demoradas apresentações, nem mesmo em relação à sua planimetria, porque foi abundantemente noticiada e sobre ela existe já suficiente bibliografia. De facto, quer no artigo da revista Communio [«A Capela Árvore da Vida. Arte e arquitetura», in Communio 2 (2013) 201-214], quer no texto publicado nas Atas do XIII Congresso Litúrgico Internacional realizado no mosteiro de Bose, Itália, [Una metafora dell’eternità: La cappella Árvore da Vida a Braga, in G. BOSELLI (a cura di), Arqchitettura della Luce. Arte, spazi, Liturgia. Atti del XIII Convegno liturgico internazionale. Bose 4-6 giugno 2015, Edizioni Qiqajon, Bose 2016, 217-232], por nós escritos, foram apresentados os fundamentos teológico-litúrgicos e a forma como se criou o espaço litúrgico. Por isso, será importante recordar apenas alguns trechos do artigo publicado na revista Communio.



Imagem Capela Árvore da Vida: imagem captada por Nick Kane, fotógrafo inglês | D.R.


A adequação do espaço litúrgico resulta, quer da fenomenologia icónica das portas, quer da valorização teológica das presenças simbólicas permanentes, ambão e altar, colocados face a face. Na sua colocação teve-se em conta o arco da luz cósmica, cujas linhas se cruzam no espaço litúrgico segundo as duas perspetivas tradicionais, referidas a Cristo e à sua Palavra: a cosmológica (do arco solar, de Este para Oeste) e a teológica (da implantação do ambão a Sul; que, por outros motivos, reflete uma antiquíssima tradição palestinense). Este tipo de disposição espacial permite evidenciar o tema do caminho, em peregrinar sinodal, sobre o eixo oblíquo, que assinala a distância maior no interior da capela, e cuja iconização proporciona imensas leituras, na análise fenomenológica a partir das ciências humanas, da cristologia e da teologia litúrgica.

«Referido à vida em toda a sua amplitude, o eixo do espaço litúrgico não é um apelo à dramática problematização da condição humana, segundo as linhas do existencialismo dos séculos XIX e XX (desenvolvido, sobretudo por Kierkegaard, Schopenhauer, Nietzsche e Heidegger, e, no sentido do compromisso político, por Sartre, Camus e Beauvoir), mas à consideração da vida, enquanto ‘matéria’ da liturgia, no sentido desenvolvido por Romano Guardini. A vida na plenitude de sentido, subtraída ao utilitarismo. Eis o eixo antropológico do espaço, onde se operam atos litúrgicos como ‘obras de arte’.»

Como foi evidenciado no artigo da Communio, e depois valorizado ainda na Comunicação no Congresso litúrgico em Bose, há como que um segredo no espaço, porque quase impercetível, mas na verdade existente. Não se trata de nenhum expediente cabalístico, mas a forma de apelar para algo que precisa de tempo para ser reconhecido, como Jesus.



Imagem Plano Cristo-tópico: o cruzamento do eixo oblíquo, de porta a porta, com a linha ambão – altar, forma um χ, grafia mais abreviada da palavra grega Χριστός | D.R.


«Quem observar o cruzamento do eixo oblíquo, de porta a porta, com a linha ambão – altar, facilmente chega à perceção de um χ (letra do alfabeto grego). Na linguagem minimalista por nós adotada, é a grafia mais abreviada da palavra grega Χριστός, Cristo. O plano é portanto Cristo-tópico, não na forma corporis (forma do corpo), mas na estética forma nominis (forma do nome), porquanto a teologia do Nome recapitula simbolicamente (e, portanto, toda a realidade) o mistério da Sua vida. Que tem isto a ver com a forma vitae humanae (forma da vida humana) iconizada no eixo transversal? Tudo. Porque na última Ceia, a Páscoa do Cordeiro de Deus, Jesus disse aos seus discípulos: “Vós sabeis o caminho para onde eu vou. (...) Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,4.6). Neste poderoso sumário, Jesus revela o sentido profundo de toda a sua vida, quando chega a última hora, de passar desta vida para junto do Pai. É neste símbolo (da fé) que peregrinamos, sem perturbação, o Caminho que sabemos até à casa do Pai, onde “há muitas moradas” (Jo 14,2).»

Como foi evidenciado nas citações a propósito da igreja da paróquia da Natività di Maria Santissima, na diocese de Alba, também na Árvore da Vida, como aliás nas capelas Imaculada e Cheia de Graça, a assembleia litúrgica, composta por todos os fiéis batizados, reunida para a celebração dos santos mistérios, não se fecha sobre si mesma, mas permanece aberta em duas direções: para com a assembleia celeste e para com o mundo. Em relação à assembleia da liturgia celeste, vale a pena reler o seguinte parágrafo, mesmo se longo:

«A metáfora arquitetónica do eixo oblíquo, já muito aprofundada desde a antropologia e a fundamentação teológica, permite-nos salientar um outro aspeto, nem sempre valorizado nas construções contemporâneas. Referimo-nos ao longo caminho no interior. Quem conhecer a tradição dos programas pavimentais das aulas litúrgicas sabe que a ideia estetizada na capela Árvore da Vida não é nova, embora aqui iconizada de forma diferente. O mistério – do homem e de Deus - não se alcança num passo, nem com pressa. O uso dos labirintos nas aulas litúrgicas, durante a Idade Média (v.g. Saint-Quentin, Amiens, Bayeux, Chartres, Poitiers, Guincamp, em França; Pavia, Piacenza, Cremona, Lucca, em Itália; e muitos outros, sobretudo em Inglaterra e Alemanha), que têm sido interpretados em vários sentidos (sobre as diversas interpretações dos labirintos, cf., por exemplo: J. HANI, Il simbolismo del tempio cristiano, Roma 1996, 105-113), pode simbolizar o longo caminho, definido por Jean Hani, como «’viagem ao centro’ – ou, se se preferir, “a orientação espiritual” do ser - de que a peregrinação não é mais que um aspeto exterior. (... e assim sintetizado) A eminente dignidade desta “peregrinação”, como aliás de qualquer outra peregrinação, vem do fato de que ele simboliza a autêntica peregrinação, a verdadeira “viagem ao centro”, que é uma viagem “interior” à procura de Si» (Ibidem, 112). Peregrinação esta que, no espaço litúrgico, se inscreve na grande peregrinação que «é uma vitória sobre o espaço e sobre o tempo, porque o seu fim identifica-se ritualmente com o Fim supremo, o Centro supremo, que não são senão Deus, e em graus menores com a Jerusalem celeste e a Igreja» (Ibidem, 110). Outra forma de simbolizar a aproximação ao altar, no centro do espaço litúrgico, através de um caminho mais longo do que uma recta, encontra-se em várias capelas e basílicas com pavimentos cosmatescos, cujos programas valorizam um sistema de rodas e traçados curvilíneos. Os pavimentos da capela Sistina e da basílica de S. Clemente, em Roma, são disto exemplos notáveis. Sinal de que o caminho do altar se pode fazer na harmonia de passos de dança, ao som de cânticos. E não na vertigem dos nossos dias, onde tudo se reclama subitamente, sem ritos de aproximação.»

Mas, claro, não se pode esquecer por nada a outra direção, por nós assim apresentada:

«Atraídos pelo altar e, por ele, apontados à ‘reserva escatológica’ sob o signo da esperança, há todavia outra direção que assume particular urgência: a peregrinação da caridade, no anúncio missionário do Evangelho. A experiência que fazemos no jardim da manhã de Páscoa (espaço litúrgico), junto ao ambão-túmulo-aberto, na escuta da Palavra, impulsiona-nos a levar aos irmãos o kerigma de sempre, em estilos novos de comunicação e através do testemunho de vida. Na pressa e alegria das mirróforas matutinas, que, de manhã cedo, perplexas com as palavras dos anjos, correram a anunciar tudo aos Onze e a todos os outros (cf. Mt 28,1-8; Mc 16,1-8; Lc 24, 1-8; Jo 20,1-2). Para que, à semelhança de Pedro e João, os nossos irmãos corram e metam a cabeça e os olhos nos sinais da ressurreição. O coração também. E, nas medidas do possível e do impensável, todos vivamos da mais bela notícia, que se concretiza na paz e na alegria do amor que é «o vínculo da perfeição» (Cl 3,14). Que nos faltará para ver na porta larga da capela o que o S. Paulo escreveu aos Coríntios: «uma porta grande e oportuna para o trabalho se me abriu» (1 Cor 16,9. Cf. t.b. 2 Cor 2,12; Cl 4,3; Act 14,27)? Estaremos impedidos de ser uma igreja de porta aberta (cf. Ap 3,8), como a de Filadélfia, cidade da Lídia, tipo da Igreja Apostólica, dedicada à pregação evangélica? Não. Haja o que houver, ninguém a poderá fechar. Mas, para a atravessar nesta atitude, teremos de viver constantemente da fecundidade apostólica.»

 

Capela Imaculada

A capela Imaculada tem merecido nos últimos tempos maior atenção. Por enquanto, devido à curiosidade que desperta, é mais ‘destino de visita’ do que de oração. De facto, são muitos os visitantes. Há todavia pessoas que se recusam a entrar nela, porque a interpretam como novidade subversiva, protestantizada, adulteração da memória, fora da lei (da Instrução Geral do Missal Romano e de outros documentos sobre a construção e adaptação dos espaços litúrgicos). Há quem, partindo de ‘suposições’ erradas, diga muito mal, usando linguagem violenta e judicatória. Há quem parta de ‘suposições’ erradas. E há quem, mesmo sem fé ou em relativo afastamento da Igreja, de forma exultante por isto ter sido possível na Igreja de hoje, se maravilhe e fique arrebatado. Valeria a pena discernir os argumentos, evitando apreciações superficiais, para, quanto possível e aproveitando palavras acima citadas de D. Giuseppe Russo, «aprofundar o olhar de uma forma mais perspicaz e bem fundamentada». Concordaremos que tal aprofundamento necessita de boa informação. Tudo o que aqui foi escrito nos terá aberto o espírito para pensar em novos horizontes. É nessa medida que passamos a apresentar alguns elementos da disposição do seu espaço litúrgico. E tudo isto no respeito pelas diferentes sensibilidades.



Imagem Paisagem interna, em espelho, colhida sobre a superfície polida do altar | D.R.


Há pouco tempo, François Nicolas escreveu sete reflexões sobre as capelas Imaculada e Árvore da Vida, texto que foi publicado no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. Com sensibilidade apurada, não só no âmbito da composição e teoria musical mas também no campo da arquitetura, ele evidenciou várias leituras sobre a disposição do espaço litúrgico. Não tinha a pretensão de ser exaustivo, nem procurou reproduzir, a pedido da Equipa de Trabalho responsável pelas obras, a conceptualização do espaço. E, no entanto, há leituras que coincidem no essencial. No apreço que as reflexões merecem, podemos todavia acrescentar outra informação relevante.



Imagem Perspetiva vertical desde a Capela Cheia de Graça para a Capela Imaculada | D.R.


Na quarta nota dessas reflexões, na qual ele se detém sobre a configuração do espaço, designando-o como «orientado e circular», valoriza algo que é particularmente notório, acrescentando a leitura das linhas de conexão que se articulam em função das principais referências litúrgicas:

«Os assentos estão dispostos à maneira clássica: transversalmente, na direcção do altar, mas, sensivelmente a três quartos da nave, passam a ser colocados dos lados, de forma que desenham uma espécie de coro diante o altar, tal como acontecia com os antigos cadeirais: o altar passa, assim, a ser percecionado como parte integrante da assembleia, e já não como fronteira exterior ou «avant-garde», extrovertida e centrífuga, mas como o fecho do círculo comunitário que se forma nesta sombra de luz dispensada pela pedra pascal.

Impõe-se ainda que desenhemos as diferentes linhas de força que estruturam o espaço eclesial para medir a composição das energias que se apresentam assim entretecidas: círculos e linhas retas, horizontalidade e verticalidade, orientações centrípetas e centrífugas, sobreposições e cruzamentos…

O edifício eclesial é simultaneamente invólucro criado e agente criador de reunião: agrega quando exerce, sobre a assembleia, as pressões e compressões que lhe são próprias; contém, sendo conteúdo que impõe a sua forma ao colectivo dos fiéis que ali se reúnem.»

Estas considerações ecoaram de modo particular no seio da Equipa de Trabalho. Leituras de pura coincidência? Talvez não. Ainda assim, podemos salientar outras dimensões, na sequência da informação apresentada na primeira parte deste texto. O espaço apresenta-se delineado, em grande parte, como na igreja da paróquia da Natività di Maria Santissima, na diocese de Alba, nomeadamente quanto ao presbitério em ‘ilha’. Não precisamos por isso de repetir quanto já foi apresentado. Todavia, o genius loci da capela Imaculada tem propriedades que lhe são próprias. Antes de mais, a disposição das cadeiras não é elíptica em duas alas, mas em forma de U. Com esta configuração, note-se, é possível sentar grande parte dos fiéis da assembleia nas primeiras três filas, quase 85% de todos os participantes. Entre estes e o ambão e o altar só duas pessoas estão de permeio. Mais, cerca de 30 % estão sentados na primeira fila, em contacto direto com as duas mesas. Não falta espaço para a boa performance ritual e a visão dos fiéis (para cuidarem também eles a sua participação ativa) foi potenciada ao máximo.

Poderá objetar-se que se perde muito espaço na ‘ilha’ central. Não é verdade, pois fez-se o teste com todas as cadeiras orientadas em alinhamento vertical e a diferença em relação à disposição em U é de que, com este sistema, só se perdem seis cadeiras. A diferença maior era outra: com as pessoas todas alinhadas no sentido dito ‘tradicional’, voltadas para um presbitério plenário frontal, numa sequência de mais de 30 filas, perdia-se a proximidade do altar e do ambão e a visibilidade sobre os mesmos. Como o pavimento é em subida, do tipo ara coeli (à semelhança do que acontece, por exemplo, na basílica de santa Maria in Aracoeli, em Roma, ou na igreja românica do Mosteiro de São Fins de Friestas, em Valença do Minho), à quinta fila todos os participantes perderiam a visibilidade. Pelo alinhamento do desnível, para garantir a visibilidade dos fiéis adultos (imaginem-se as crianças!) que se encontrassem no fundo da capela, o altar teria de subir mais de um metro em relação à cota do seu atual assentamento. Ou, não menos barato, haveria que levantar todo o pavimento com o sistema de aquecimento radiante, para regularizar as cotas.

Sensivelmente a meio do espaço compreendido entre o arco cruzeiro e a porta de entrada, encontra-se o ambão, lateralizado a Este, isto é do lado do sol nascente, como em várias igrejas contemporâneas. Nele está sempre aberto o lecionário no Evangelho do dia e, em breve, ficará com uma lamparina sempre acesa, tal como a do tabernáculo. É uma proposta para, na sequência do n.21 da Constituição Dei Verbum, cuidar a veneração da Palavra de Deus: «A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor».



Imagem Ambão fixo da Capela Imaculada, ainda sem o lampadário de chama ‘eterna’ | D.R.


O altar encontra-se sobre a linha do arco cruzeiro. François Nicolas apresentou-o na sua terceira nota de reflexão, explorando os seus dois lados, a sua elevação desde a água e o enquadramento com a instalação ‘corpo da luz’ em mármore. Além da sua hermenêutica teológica, que pode ser consultada no texto disponibilizado neste site, convém evidenciar que o altar se encontra na grande ‘ilha’ criada no centro de todo o espaço litúrgico, que se expande à frente e atrás do arco cruzeiro, uma vez que a antiga capela-mor, outrora reservada aos ministros ordenados e aos acólitos, passou a ser espaço para todo o tipo de fiéis. De forma que, se estiverem cerca de 50 a 60 pessoas, podem celebrar apenas nesse espaço, com o presidente voltado para eles, isto é, de Sul para Norte. Nessa circunstância está previsto o recurso a um ambão portátil, ainda por fazer. Também nestas duas faces se pode explorar o altar.

A cadeira da presidência, que ainda não está pronta (a que lá se encontra é a da capela Cheia de Graça), será criada em ordem a explorar o seu significado, no sinal de serviço, nunca à maneira de trono, e na atenção à sua mobilidade. Quando a capela está cheia ou com pessoas só do lado Sul do arco cruzeiro, a cadeira está junto ao ângulo sudoeste do altar; quando apenas há assembleia do lado Norte, a cadeira é colocada junto ao ângulo noroeste do altar. Sempre, sempre, na linha do que se apresentou na igreja nova, da paróquia da Natività di Maria Santissima, na diocese de Alba, ou seja, com aquele que preside no meio da assembleia celebrante, sujeito da ação litúrgica, como a compreende o Vaticano II. E tudo isto, de um lado ou do outro, sem sair do presbitério! No fundo, para que se tenha uma ideia mais clara, ela aparece como a segunda cadeira presidencial, que se encontra na Sé de Braga, não a episcopal; localização que aliás tem sido adotada, mesmo para cadeira episcopal em muitas catedrais pelo mundo fora.

Sobre a orientação do espaço, nas relações com todas as referências do programa icónico, desde o tabernáculo em filigrana de tília, o pavimento desnivelado da porta de entrada até ao altar, a instalação da abóbada em cimento recortado por um ‘teclado’ assimétrico de arcos-luz, ao programa dos ícones (Nossa Senhora da Ternura, Via Crucis e Via Lucis, e dois trípticos ainda em processo, da autoria da pintora Lisa Sigfridsson), à escultura de Nossa Senhora da Humildade, às instalações de arte em têxtil realizadas na Casa da Lã em Bucos, muita coisa se poderia acrescentar. Por agora, porém, basta-nos citar mais um texto escrito por François Nicolas, precisamente sobre a orientação do espaço:

«O espaço da grande capela do Seminário Menor está orientado em direção a uma luz que vem do fundo e funciona como contra-campo da Cruz disposta ao lado do altar.

Ao observar mais de perto – os nossos olhos não captam de imediato estes ‘detalhes’ de grande importância – esta luz apresenta-se dupla: numa primeira abordagem, ela é a luz do dia que surge de uma larga fenda vertical aberta na parede, mas esta luz parece iluminar o além-altar apenas lateralmente, já que uma ampla instalação se lhe interpõe. É preciso, então, que nos aproximemos para melhor captar a vasta folha de mármore, nervurada por numerosas impurezas que deixaram sobre a pedra a marca das imensas compressões que a produziram. A folha encontra-se elegantemente suspensa sobre o chão e é fina o suficiente para o mármore surgir luminoso, não opaco, nem translúcido, mas como se iluminado desde o interior, se bem que a pedra (cuja fixação vertical parece retirar-lhe o peso, tematizando-a como uma cortina religada às alturas pela sua suspensão mais do que pela carga ancorada ao chão pela força da gravidade) aparece como uma fonte que irradia a luz, não a difunde, à semelhança de um vitral (que deixa transparecer a luz exterior que o atravessa). Tal como um instrumento de música irradia o som que emite (o mesmo podendo ser dito de um altifalante que projeta o som em determinada direção), a pedra difunde a luz como um corpo irradia a sua energia interna. (…)

O descobrimento desta igreja depende da assunção deste corpo radiante: mesmo se sabemos que a sua luz vem de trás, do exterior, do dia que viu nascer a abertura na parede, a esta impressão subjaz uma lógica diferente do saber ‘positivo’: o dinamismo endógeno de uma fonte que difunde luz à sua volta, em todas as direções, sem se limitar à estreiteza do feixe de luz que as fontes ordinárias e funcionais de luz são capazes de desenhar.

A impressão é tal que antecipamos que o fiel não deverá concebê-lo como um objeto específico (um objeto cuja funcionalidade delimitaria os atributos respetivos, como o fazem uma lâmpada, um projetor, um vitral, uma abertura) mas antes como uma «coisa» específica, com propriedades imanentes: lá onde o objeto não requer mais do que a compreensão da sua razão operativa, a ‘coisa’ solicita a compreensão da sua potência intrínseca e a descoberta do sentido não-funcional que ela traz consigo. E, tal como Cristo não foi imediatamente identificado por aqueles que todavia conheciam bem Jesus, mas apenas reconhecido pelos seus gestos (em Emaús) ou pelas suas palavras (Maria Madalena…), da mesma forma o que este véu de pedra produz aqui não remete no imediato para uma funcionalidade facilmente percetível e delimitável mas procede de um acompanhamento prolongado do olhar apto a imprimir neste mármore um sentido litúrgico.»

Sim, é um texto longo (mesmo se suspenso a meio da sua sequência narrativa), mas textos assim não cansam a ler. Passemos então à terceira capela, a Cheia de Graça.

 

Capela Cheia de Graça

A capela Cheia de Graça, que a seu tempo será dedicada a Nossa Senhora da Conceição, Padroeira do Seminário Menor de Braga, ergue-se até 14 metros de altura dentro da capela Imaculada. Na sua volumetria cilíndrica, ultrapassa o primeiro nível dos tirantes metálicos que suportam a grande cúpula de cimento em arco de volta perfeita, criando uma paisagem estética de profundidade-e-relevo, em sóbrio cromatismo cinza-âmbar, na fonte da penumbra. Uma e outra, pela textura da madeira tratada com óleo de linhaça e essência terebintina e a impressão do tabuado no cimento, convocam as pessoas para a experiência multissensorial, mais a tátil e olfativa do que retiniana.



Imagem Permeabilidade entre os espaços das Capelas Imaculada e Cheia de Graça | D.R.


Fréderic Debuyst evidenciou a «colaboração surpreendentemente complementar entre o Sul e o Norte da Europa», na medida em que, na Cheia de Graça como na capela Árvore da Vida, deram o seu contributo, além de arquitetos, teólogos-liturgistas e carpinteiros portugueses (de Braga), «artistas noruegueses e suecos especializados no trabalho da madeira». De facto, a Equipa de Trabalho estudou in loco as conhecidas igrejas de madeira, algumas milenares, que remontam ao período Viking, classificadas como Património da Humanidade pela UNESCO, ao longo dos fiordes noruegueses, sob condução de Asbjørn Andresen, da Escola de Arquitetura de Bergen: entre outras, as de Borgund, Heddal, Torpo, Undredal, Høre, Kaupanger, Hopperstad, Gol; sem esquecer belíssima igreja de Urnes, implantada como só a sabedoria o permite. E, para completar a informação, refira-se ainda a visita de estudo ao Ål Stave Church Museum em Prestegardslåven.



Imagem Desenho (ver densidade de colunas) e fotografia da Capela de São Frutuoso de Montélios, Braga | D.R.


Não se pense, porém, que a capela Cheia de Graça só conheceu esta fonte de inspiração. Recordemos que, antes de aparecer o cimento, a arquitetura portuguesa, combinava madeira, pedra e barro, e mesmo terra. E a mais remota fonte de inspiração para a floresta de pilares em madeira, com que se densifica e ritma o espaço interior da capela Cheia de Graça, há-de procurar-se antes do período Viking, ou seja, na antiga tradição visigótica, desde logo na capela de São Frutuoso de Montélios (de pequenas dimensões, mas com 26 colunas), ou na ermida, que remonta ao período moçárabe, de San Baudélio de Berlanga, situada em Caltojar, na província de Sória.



Imagem Cripta da Ermida de San Baudélio de Berlanga, em Caltojar, Sória | D.R.


Tal como a Capela Árvore da Vida, que está assente numa biblioteca espiritual, também a capela Cheia de Graça começa o seu serviço sob o seu próprio pavimento. Acerca desse serviço extraordinário escreveu François Nicolas, na nota de reflexão intitulada «Um filtro liminar»; um trabalho, no caso, ao serviço da Capela Imaculada:

«Uma prova prelimininar preside à introdução de cada um neste espaço, a qual acaba por filtrar o público de modo semelhante ao do conta-gotas: trata-se de uma floresta de finos pilares de madeira, que constitui, com efeito, a entrada da capela, pelo que aceder à nave implica percorrer um trajeto sinuoso que apenas cada um, na sua vez, pode realizar.

A assembleia enquanto tal não pode, portanto, formar-se senão na nave: ela não permite, na igreja, o mero transfer do grupo exterior que se reunira previamente no adro; ela é antes uma composição ad hoc, a reunião como parte integrante da celebração: o corpo coletivo dos fiéis não é uma amálgama dos corpos que compõem os grupos humanos que aguardam entrada na igreja; é um corpo constituído pela própria celebração e destinado a transfigurar-se, por ela, no Corpo eclesial de Cristo.

Neste sentido, uma procissão pré-formada no exterior não seria capaz de entrar majestaticamente no edifício, pois careceria de uma instituição exterior ao espaço propriamente dito da celebração que fornecesse o esqueleto prévio do Corpo glorioso, o que apenas a celebração pascal torna possível – a Páscoa não é um complemento, um acrescento final que conclui a construção de uma longa história, como a cereja no topo do bolo: a Páscoa é a brecha, a conversão radical, a abertura aos novos tempos, a esperança num presente doravante radicalmente desconcertante e já não a espera por um futuro melhor num horizonte finalmente claro.

Para simbolizar esta conversão como o verdadeiro fim da celebração que motiva a reunião dos fiéis, é preciso sublinhar aqui a entrada individual, filtrada pela antífona que é a floresta que cada um deve percorrer, a floresta onde cada um deve traçar o seu caminho, desenhar a sua rota em ordem a entrar no local específico onde há-de constituir-se a reunião eclesial: não há, portanto, qualquer transfer, já que nenhuma transitividade existe entre o exterior profano e o interior fiel, mas há um portal, um lugar intermédio de conversão.»

Não será uma bela forma de a Capela Cheia de Graça permutar o seu acolhimento pela Capela Imaculada? Além dos muitos pilares lenhosos, há um pilar de pedra, imenso e pesado, que de forma umbilical as liga e dá sustentabilidade estrutural à Cheia de Graça. É o altar desta que, com cerca de 6 metros de altura, nasce no pavimento da capela Imaculada, atravessa o soalho e efloresce numa mesa feita em tábuas de cedro. Pilar que possui um Shema’, um apelo para os nossos ouvidos, que foram cegos, verem a serenidade do espaço que não vemos; tema refletido por Asbjørn Andresen, a partir de uma metáfora de Juhani Pallasmaa. Ou, no dizer de François Nicolas, «um enigma»:

«Uma curiosidade no coração desta floresta: uma orelha, colada ao único pilar de pedra que sustenta, com todo o seu peso, a construção de madeira.

É um enigma, parece-me: aqui, é a pedra que nos escuta e convida a virmos até ela apresentar os nossos propósitos? Ou será antes o símbolo da nossa orelha, que devemos ter em conta para escutar as vozes do lugar? Enfim, a que dá acesso esta orelha e em ordem a ouvirmos que vozes?

Evidentemente, a orelha aponta ainda para outra funcionalidade do lugar: não mais o espaço de filtragem entre o aglomerado no exterior e o reunido no interior, mas o momento, fora da celebração, para meditarmos e, sem dúvida, confessarmo-nos…»



Imagem Capela Cheia de Graça: ambão e altar | D.R.


Para não avançar com mais informação, resta-nos dizer que o ambão, que se colocou também segundo o esquema a ‘dois pólos’, é semelhante ao da capela Imaculada e sobre ele pende uma luz vertical de uma lâmpada led eternamente acesa sobre o livro litúrgico das leituras, sempre aberto no evangelho do dia. Tal como na capela Árvore da Vida, foi implantado do lado Sul.

No centro da Cheia de Graça, altar e ambão são as únicas instâncias verticais iluminadas, resplandecentes na clareira. Toda a demais iluminação foi distribuída aleatoriamente entre os pilares, que servem de fronteira de respiração, «completamente “permeável” ao espaço maior» como evidenciou Fréderic Debuyst.



Imagem Iluminação noturna dos dois pólos, altar e ambão, nas capelas Árvore da Vida e Cheia de Graça | D.R.


Conclusão

O programa de renovação da arquitetura e da arte litúrgica nos Seminários Arquidiocesanos de Braga continua em movimento. É um processo que vai para além da criação de património em linguagens contemporâneas, porque, a seu modo e nas circunstâncias proporcionadas, resulta de uma cultura, segundo o Evangelho: experimentar a mensagem de Jesus em contínua novidade de vida, em ressurreição. O espírito de procura que anima a Equipa de Trabalho, de expressão multidisciplinar e intergeracional, foi apresentado por Asbjørn Andresen no prefácio que escreveu para o guião litúrgico da dedicação da Capela Imaculada. Na sequência das suas reflexões sobre uma metáfora de Juhani Pallasmaa e na sequência da descrição do processo de trabalho, que John Berger conseguiu descrever no livro Sobre o Olhar, no capítulo Entre dois Colmars, Asbjørn apresenta-o nestes termos:

«É particularmente feliz ver um edifício ganhar forma, desenvolver as características do seu espaço, dimensões e tamanhos que saem do tradicional, como acontece, por exemplo, com o espaço litúrgico. Este apenas pode ser criado em cooperação, uma aberta e generosa cooperação. Felizmente, tenho colegas e amigos capacitados para cooperar neste tipo de trabalho. Levar a cabo projectos públicos de grande envergadura como este (capela Imaculada) requer um espaço criativo entre profissionais e uma linguagem que se abra à participação e permita desenvolver outras direções.

É como inspeccionar uma gruta em busca de uma nascente oculta, e o som da água que corre é claro, mas o caminho para a nascente está apagado e encoberto na escuridão da gruta.

Somos idealistas e, na nossa condição de idealistas, falíveis; o caminho é errante e exploratório; grandiosos são, portanto, os momentos de unânime claridade e unidade, a exactidão e o lugar “auto-evidente” da arte no espaço.

Quando a arte das unidades solitárias, dos elementos arquitecturais, consegue abordar e resumir qualidades específicas que transmitimos como imagens mais ou menos difusas, marcos miliários são criados ao longo desse processo. É espantoso perceber com que segurança apresentámos as nossas propostas e como conseguimos levar o processo de concretização tão longe. Temos uma confiança fundamental em cada um daqueles que integra o grupo, na honestidade e vontade que cada um tem de se envolver em construtivas discussões críticas - e grande convicção na dimensão intelectual e espiritual do processo.(…)

A abordagem ao projecto realizada mediante este trabalho de equipa que estou a tentar descrever é algo devedora desta concepção de Pallasmaa, não porque careçamos de qualificações para efectuar cada um o seu trabalho, mas porque para esta incumbência vemo-nos como artesãos numa mesma oficina, construtores, que entregam material artístico, a dimensão mítica que Pallasmaa descreve.»

A orientação estética presente em todas as capelas, como bem sublinha François Nicolas nas suas reflexões sobre as capelas, «assenta definitivamente sobre o refinamento do despojamento». Este despojamento, que não se faz sobre o nada, apresenta-se cheio de criação. Faz-nos lembrar o que dizia Saénz de Oiza, a propósito dos desnudamentos que operou no santuário de Arantzazu, em Oñati, província de Gipuzkoa no País Basco: «Há que apoiar-se para criar (…) o progresso é a partir do dado. Não pode haver nada de novo se não existe já uma linguagem prévia. Posso ser radical precisamente porque sou capaz de olhar muito o passado.» (R. Bigano, El Santuário de Arantzazu, FMR, Bologna 2007, 201). Quem diz o passado, diz a grande Tradição, nomeadamente a da arquitetura cristã, mas não só.



Imagem Transparências captadas Nick Kane | D.R.


Crispino Valenziano, autor da obra Architetti di Chiese, dizia aos seus alunos (eu incluído) do Pontifício Instituto Litúrgico Santo Anselmo (Roma) que, em matéria litúrgica, só poderíamos mudar alguma coisa desde que fizéssemos duas operações: a primeira, estudar de forma científica toda a história dessa coisa e o porquê de ela existir ainda; a segunda, ter a profunda convicção de que a proposta de mudança era muito melhor do que a existente. É nesta exigência e, ao mesmo tempo, confiança que trabalhamos. Isto é, numa hermenêutica da História com sentido crítico, capaz de propor mudanças segundo os desafios do presente.



Imagem Altar da Capela Imaculada e antiga capela-mor (ainda sem a instalação ‘Corpo da Luz’) | D.R.


D. José Cordeiro, Bispo de Bragança-Miranda, que neste momento é Presidente da Comissão «Liturgia e Espiritualidade» da Conferência Episcopal Portuguesa e membro da Congregação para o Culto Divino, de forma muito sintética, dizia-nos em agradecimento, depois de uma visita que fez recentemente à Capela Imaculada juntamente com o clero mais novo da sua Diocese: «Agradeço ainda o belo momento de ontem (13.03.2017) na beleza da arquitetura e arte para a Liturgia». E, acerca da escultura de Nossa Senhora da Humildade que nela se encontra, à qual o Prof. Luís da Silva Pereira dedicou um artigo publicado no jornal Diário do Minho, acrescentava: «Já li o texto e visionei o breve vídeo do 'artesão' da autenticidade bela da Senhora da Humildade. Parabéns! Coragem e confiança!» De parabéns está também D. José Cordeiro, que tem beneficiado a nova catedral com obras de grandes artistas: a Pietà do escultor José Rodrigues, recente mente falecido; os mosaicos do batistério, de Ilda David’; os vitrais, que hão-de aparecer, de Graça Morais. Depois do que aconteceu com o projeto da primeira catedral, que foi ‘rejeitado’ devido a interferências eclesiásticas e políticas (do qual o Arq. João Alves da Cunha faz resumida apresentação na sua tese de doutoramento sobre o MRAR), há que aprender o ‘tempo presente’ e assumir o risco do compromisso. Todavia, para fazer o devido discernimento, nesta como noutras matérias, «é preciso perder o espírito de resistência à mudança», como afirmou o Papa Francisco.



Imagem Capela do Seminário Interdiocesano de S. José, Rua de Santa Margarida, Braga | D.R.

 





 

 



Texto: Joaquim Félix
Fotografias: Nelson Garrido, Nick Kane, Joaquim Félix, Asbjørn Andresen, AA.VV.
Publicado em 23.03.2017

 

 
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