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Diálogo

Igreja é chamada a redescobrir a cultura contemporânea e a ouvir os seus protagonistas

Em entrevista ao Jornal da Madeira, o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura sublinha que a cultura portuguesa precisa de ultrapassar «um certo preconceito» em relação à Igreja. «A fidelidade ao que foi mais autêntico nestes séculos [de cristianismo] obriga-nos não simplesmente a repetir, mas a auscultar e a inovar. A fidelidade tem de ser um outro nome da profecia», considera o padre José Tolentino Mendonça.

 

O que destaca como questão pertinente no campo do diálogo entre a Igreja e a Cultura no nosso país?

A Igreja Católica tem um papel matricial em relação à cultura portuguesa. Se olharmos para a história do nosso país percebemos como a Igreja foi, ao longo de gerações, uma alavanca para a construção daquilo que em grande medida somos hoje. Basta reler o que ficou escrito na pedra dos monumentos, na beleza que se foi produzindo através dos séculos… Basta escutar a voz de criadores tão fundamentais como Gil Vicente ou o Padre António Vieira…

É verdade que a Modernidade complexificou esta realidade. De parte a parte, quer da Igreja, quer da Cultura houve um afastamento que continua pelo presente. O grande desafio é o do mútuo conhecimento.

A Igreja é por exemplo chamada a redescobrir a cultura portuguesa contemporânea, a escutar os seus protagonistas, a avaliar as suas tensões e os seus novos pontos de chegada. A cultura portuguesa precisa igualmente ultrapassar em relação à Igreja um certo preconceito que persiste. Todas as iniciativas que franqueiem este mútuo conhecimento, esta espécie de comum iluminação são muito oportunas.


Há necessidade de afirmar a fé também a partir da “beleza”, da arte, da literatura?

A cultura é um horizonte necessário à Fé. As várias expressões culturais e artísticas trazem à Fé algo tão decisivo como isto: sem uma cultura a Fé aparece desencarnada e abstrata.

O apelo à construção da teologia da beleza, de que o Papa Bento XVI tem sido um incansável paladino, vai nesse sentido. Um catolicismo meramente sociológico é um catolicismo diminuído. Já a Carta a Diogneto, um texto das origens cristãs, dizia que o que a alma é no corpo o cristão é no mundo.

O cristianismo tem de ser fecundo. A sua vocação é ser uma alma do mundo.


O acontecimento “500 anos da criação da diocese do Funchal”, cujas comemorações estão a iniciar-se, que interesse ou importância deve manifestar?

É uma data muito importante e, sobretudo, constitui uma oportunidade para um encontro, criativo e profético, com a história.


É um centenário com respostas para os novos desafios ou apenas para lembrar o passado?


As comemorações podem ficar, de facto, apenas como fenómenos pontuais e epidérmicos, quase autocelebrativos. Esperamos mais destes 500 anos, e certamente serão mais. Esperamos fundamentalmente que se arrisque perceber como é que a herança deste meio milénio de presença cristã hoje nos interpela, de que responsabilidade nos investe, para que novos campos de missão nos envia.

A fidelidade ao que foi mais autêntico nestes séculos obriga-nos não simplesmente a repetir, mas a auscultar e a inovar. A fidelidade tem de ser um outro nome da profecia.


Há críticas que denunciam um certo afastamento das pessoas da Igreja porque esta não fala a mesma linguagem ou contempla pouco as ansiedades do homem moderno. Concorda?


Penso que está a ocorrer um grande processo de reconfiguração do espaço religioso, com todos os sinais positivos e todas as fragilidades que são próprias destes momentos de encruzilhada. E as próprias estatísticas mostram coisas muito ambivalentes.

Por exemplo, ao mesmo tempo que diminui a prática cristã sacramental, continua elevadíssima a percentagem dos que se consideram católicos. Hoje, os sociólogos chamam de “cristãos culturais” a esta grande massa a que habitualmente se chamava apenas de “não praticantes”. E, de facto, talvez precisemos entender melhor o significado desta pertença espiritual e como ir ao seu encontro com propostas de evangelização adequadas.


Estudou profundamente a Bíblia. Os valores que este livro encerra, desde há séculos, estão em crise? O que nos tem a dizer hoje em dia, será difícil de entender?

As crises são os nossos mestres. Ajudam-nos a pensar. Permitem um encontro porventura mais verdadeiro, mesmo se doloroso, connosco próprios.

Nesse sentido, a experiência que tenho em relação à Bíblia é que ela é um lugar de encontro, mesmo no que não compreendemos. Ela é um grande espelho da condição humana. É uma história que se escreve (e nos escreve) em chave de esperança. Por isso, falamos dela como a História da Salvação. A recente exortação apostólica pós-sinodal, “A Palavra do Senhor”, atesta bem como nas diversas latitudes eclesiais a Bíblia é cada vez mais lida, e o seu papel fecundador da experiência cristã é cada vez mais reconhecido, embora haja muito por fazer.


Como se define: mais padre?, mais intelectual?, ou um padre intelectual (poeta, tradutor, coordenador de coleções)?


Gosto muito da forma como começa “O Diário de um pároco de aldeia”, o célebre romance de Bernanos. Diz assim: «A minha paróquia é igual a todas as paróquias».

É verdade que o meu campo de trabalho tem sido fundamentalmente o da cultura e do pensamento, mas, com todas as especificidades próprias deste meio, sei que sou um pároco de aldeia. Nem que seja da aldeia global.


Pode-se dizer que ser padre é ter uma profissão e que escrever poesia, como é o seu caso, é exercer o sacerdócio?

Prefiro falar de ambas as coisas como uma vocação.


É autor de significativa bibliografia, e mais recentemente com títulos em prosa muito importantes. Que mensagem procura dar aos seus leitores?


Acho que falo apenas da importância de fazermos um caminho. No fundo, acho que escrevo para nómadas e nómadas do absoluto.


Gosta deste tempo para existir?

Gosto muito deste tempo. Com todas as suas dificuldades e imperfeições, com todos seus limites, nós vivemos coisas grandiosas. Cada um de nós é testemunha do grande milagre que é a própria vida. E não falo sobretudo da técnica, do conhecimento ou da ciência, que avançam com passo de gigante. Falo dessa coisa inexplicável que é a vida. Falo do esplendor que é a sua expressão mais pequenina, mais escondida ou mais desprotegida.


Que herança deseja deixar aos crentes do futuro?

A autobiografia do poeta Pablo Neruda tem um título de que gosto muito. Chama-se “Confesso que vivi”. O nosso contributo mais importante para o futuro será precisamente esse: termos levantado a taça da vida e termos bebido até ao fim.

 

Entrevista conduzida por Vera Luza
In Jornal da Madeira
14.06.11

Foto
Igreja de Marco de Canaveses
RM/SNPC



















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