
A cultura como mediação para o Evangelho
Há cinquenta anos, a 25 de Janeiro de 1959, o Papa João XXIII surpreendia a Igreja e o mundo em geral, ao anunciar a decisão de convocar um Concílio. O Página 1 olhou de perto para o que se passou no Concílio Vaticano II, iniciado em 1962 e concluído em 1965.
Durante muitos séculos, a Igreja era o principal agente e espaço de cultura no mundo cristão, mas essa relação foi fortemente abalada com a emancipação da cultura que, afastando-se da Igreja, assumiu, muitas vezes, um cunho anti-clerical, levando a própria Igreja a fechar-se à cultura secular.
O Concílio Vaticano II abordou este problema de frente: “Pela primeira vez, articulou de forma sistemática uma reflexão que aproxima a cultura e a missão da própria igreja”, explica o Padre José Tolentino Mendonça, director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, acrescentando que nos trabalhos de Roma houve “uma reflexão detalhada sobre a natureza da cultura e o seu papel na construção da experiência humana”.
O objectivo, segundo este padre e poeta, foi o de “perceber como é que a Igreja e os Cristãos são chamados a um diálogo e a uma colaboração na construção de uma cultura que o texto conciliar identifica com o humanismo, e qual é o contributo específico que a Igreja é chamada a dar ao campo da cultura”.

Igreja de Santo António, Portalegre
Arq.º Carrilho da Graça
Medição para a evangelização
O aprofundamento desta relação é fundamental, até para o bom desempenho do principal objectivo da Igreja, a evangelização: “A Igreja percebe que precisa traduzir em chave cultural a sua própria mensagem. Porque, se a mensagem cristã não é traduzida de uma forma relevante, em termos culturais, corre o risco de não ser escutada, de não ser eficaz. Por isso, a cultura é uma mediação fundamental para o Evangelho”.
De acordo com o Padre Tolentino, é precisamente na cultura que a Igreja consegue comunicar com as pessoas e com a sociedade: “Quando se trata de tocar a pessoa humana, de ir ao seu encontro, talvez a cultura seja o lugar dessa humanidade. O lugar onde é possível tocar aquilo que é mais próprio da pessoa humana, aquilo que é mais próprio de cada sociedade, porque a cultura reflecte a pessoa humana na sua profundidade, naquilo que lhe é mais genuíno, mais genial, mais próprio, mais representativo”.

Igreja do Convento dos Dominicanos, Lisboa
Arq.ºs João Paulo Providência e José Fernando Gonçalves
Criação do Conselho Pontifício
Neste campo da cultura, um dos frutos mais visíveis do Concílio revela-se na criação do Conselho Pontifício para a Cultura, que se ramifica em diversas pastorais em cada país: “É na senda do Concílio Vaticano II, e como sua consequência, que o Papa funda, nos anos 80, o Conselho Pontifício para a Cultura e que se começa a pensar numa pastoral específica para a área da cultura que, nos vários lugares onde a Igreja está presente, começou a incentivar-se”.
A Pastoral da Cultura como local de encontro
Para o Padre Tolentino, que se move no mundo da cultura como “peixe na água”, uma das principais vantagens da linguagem cultural é a sua capacidade para aproximar a Igreja de mundos e de ambientes com os quais o diálogo apresenta um desafio maior, tais como as outras religiões ou a ciência, por exemplo. “Uma das ideias emblemáticas da Gaudium et Spes é que tudo o que é humano interessa a um discípulo de Jesus Cristo. Essa humanidade, na sua diversidade extrema, reflecte-se no domínio da cultura. E, de facto, uma pastoral da cultura é um lugar de encontro, uma espécie de rotunda, uma ponte estendida, e é no interior da própria Igreja um mecanismo facilitador desse diálogo e dessa missão que a Igreja tem de acompanhar o coração do homem nas suas interrogações fundamentais”, indica Tolentino Mendonça.

Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa
Arq.ºs Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas
Em sua opinião, depois de demasiado tempo de costas voltadas, este é um tempo para se estar optimista quanto à relação entre a Igreja e o mundo cultural: “Penso que este é um tempo de esperança, é um tempo em que há uma curiosidade muito grande de parte a parte, para um conhecimento, para o entabular de um diálogo. E quando se começa a fazer um caminho em comum, percebe-se que é o próprio caminho a unir-nos. Esta procura da verdade, que está tão radicada no homem e no coração da Igreja, é isso que nos há-de unir neste diálogo que é sempre um diálogo a recriar, a reencontrar, entre a fé e as culturas”.
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in Página 1
03.02.2009
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