D. Carlos Azevedo
Discursos de respeito pela cultura são "totalmente aniquilados" pelo fraco investimento das dioceses
O presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, D. Carlos Azevedo, diz que o “discurso de respeito com a cultura” que é proferido por responsáveis de algumas dioceses “é totalmente aniquilado” pelo fraco investimento nessa dimensão.
Em entrevista ao SNPC, o vogal da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais sublinha que as raízes culturais são a base da liturgia e da acção social, que sem aqueles fundamentos podem ficar reduzidas “a folclore ou a uma filantropia”.
O bispo auxiliar de Lisboa e coordenador da visita de Bento XVI a Portugal advoga a criação de um projecto cultural e fala ainda sobre o tema da Igualdade, que vai marcar a Jornada da Pastoral da Cultura agendada para 25 de Junho, em Fátima.
Que lugar tem a Pastoral da Cultura na renovação da acção da Igreja?
Cabe a cada pastor ver, no concreto da orgânica pastoral que traça para a sua diocese, o espaço que dá a tudo o que é o apoio aos fiéis que se dedicam à cultura nos diferentes campos, acolhendo e estando sensível às várias vertentes da arte, ciência e letras, e também através da promoção de uma pedagogia cultural.
Há sempre uma dupla vertente na acção pastoral: com as pessoas que já estão envolvidas na cultura, ajudando-as a alargar o seu olhar com a visão da fé; e com aquelas que já têm a visão da fé, para que alarguem o seu olhar à dimensão da beleza, da verdade e do bem de uma forma mais atenta.
Há aqui um trabalho de pedagogia cultural que a Igreja teve ao longo dos tempos mas que ultimamente pode estar mais esquecida. É este serviço alargado que permite também dar ao culto e à dimensão social a profundidade que, de outro modo, pode ficar reduzida a folclore ou a uma filantropia. O que dá profundidade a uma acção cultual litúrgica e a uma acção social são as raízes culturais.
Quando se unem as dimensões do culto e da cultura, que andaram sempre unidas nos momentos mais fecundos da história da Igreja, teremos então uma visão positiva da Pastoral.
Há muito discurso de respeito com a cultura que depois é totalmente aniquilado pelo pouco investimento na dimensão cultural das dioceses. Mesmo dioceses muito importantes no nosso país têm um discurso cultural para fora, mas é mero discurso. Quando se tratam de investimentos concretos na cultura, não são capazes de despender os seus recursos.
O que deve a Igreja fazer para mudar essa situação?
Para responder a essa pergunta, estaríamos aqui durante um serão muito grande. Acho que a Igreja precisa de ter um projecto cultural, para depois, atendendo à realidade concreta, ter um caminho que exige longos anos, porque estas coisas não se fazem de um momento para o outro.
Havendo um projecto, as pessoas sentem que têm diante de si etapas a percorrer, uma avaliação a fazer e uma correcção dessa avaliação. É a falta de uma visão de futuro e a longa distância que muitas vezes não permite ter esse alcance cultural.
Todas as iniciativas que a Comissão Episcopal da Cultura tem feito a nível específico da cultura demonstram que há, pelo menos da parte deste Organismo, essa visão.
Vai-se alargando o número de pessoas que se inscrevem nos encontros, vai-se fazendo um trabalho de sensibilização e vão-se criando nas dioceses, tanto quanto é possível, condições para que os Referentes da Cultura sejam pólos agregadores, capazes de ter tempo e meios para alargar aquilo que é proposto a nível nacional.
Este trabalho pode ser potenciado se houver por parte dos pastores de cada diocese capacidade de agarrar esta proposta, que tem sido feita com muita sensibilidade cultural.
Que contributo pode dar a Igreja ao tema da Igualdade?
Diante de Deus somos todos irmãos. Esta fraternidade radical, que é a base para a Igualdade, faz com que nos respeitemos profundamente nas diferenças de género, cultura ou estatuto social e em tudo o que é acrescentado à natureza básica do ser humano.
O que nos foi acrescentado e que nos diferencia não nos pode retirar uma Igualdade radical que nos despe de tudo aquilo que são os adereços que o estatuto social ou cultural nos deu, para nos fazer sentir profundamente irmãos, à maneira franciscana, que aproximando-nos de tudo o que existe na Terra, na condição de criaturas. Somos criaturas de Deus e é isso que nos faz estar numa igualdade radical.
rm
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16.06.10

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