"Verbum Domini": exortação apostólica de Bento XVI sublinha relação da Bíblia com a cultura
O Vaticano publicou esta 5.ª feira a segunda Exortação Apostólica de Bento XVI, intitulada “Verbum Domini” (“A Palavra do Senhor”), sobre “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”.
Os 124 números do documento, publicado na sequência do Sínodo dos Bispos de 2008, dividem-se em três capítulos: “Verbum Dei” (“A Palavra de Deus”, “Verbum in Ecclesia” (“A Palavra na Igreja”) e “Verbum Mundo” (A Palavra no Mundo”.
Nesta última parte, um dos temas abordados pelo Papa é “A Palavra de Deus e culturas”, de que transcrevemos alguns excertos. Antes, um fragmento sobre as “páginas obscuras da Bíblia”.
As páginas «obscuras» da Bíblia
No contexto da relação entre Antigo e Novo Testamento, o Sínodo enfrentou também o caso de páginas da Bíblia que às vezes se apresentam obscuras e difíceis por causa da violência e imoralidade nelas referidas. Em relação a isto, deve-se ter presente antes de mais nada que a revelação bíblica está profundamente radicada na história. Nela se vai progressivamente manifestando o desígnio de Deus, actuando-se lentamente ao longo de etapas sucessivas, não obstante a resistência dos homens. Deus escolhe um povo e, pacientemente, realiza a sua educação. A revelação adapta-se ao nível cultural e moral de épocas antigas, referindo consequentemente factos e usos como, por exemplo, manobras fraudulentas, intervenções violentas, extermínio de populações, sem denunciar explicitamente a sua imoralidade. Isto explica-se a partir do contexto histórico, mas pode surpreender o leitor moderno, sobretudo quando se esquecem tantos comportamentos «obscuros » que os homens sempre tiveram ao longo dos séculos, inclusive nos nossos dias. No Antigo Testamento, a pregação dos profetas ergue-se vigorosamente contra todo o tipo de injustiça e de violência, coletiva ou individual, tornando-se assim o instrumento da educação dada por Deus ao seu povo como preparação para o Evangelho. Seria, pois, errado não considerar aqueles passos da Escritura que nos aparecem problemáticos. Entretanto deve-se ter consciência de que a leitura destas páginas requer a aquisição de uma adequada competência, através duma formação que leia os textos no seu contexto histórico-literário e na perspetiva cristã, que tem como chave hermenêutica última «o Evangelho e o mandamento novo de Jesus Cristo realizado no mistério pascal». (1) Por isso exorto os estudiosos e os pastores a ajudarem todos os fiéis a abeirar-se também destas páginas por meio de uma leitura que leve a descobrir o seu significado à luz do mistério de Cristo. (n. 42)
Palavra de Deus e culturas
O valor da cultura para a vida do homem
O anúncio joanino referente à encarnação do Verbo revela o vínculo indissolúvel que existe entre a Palavra divina e as palavras humanas, através das quais Se nos comunica. Foi no âmbito desta reflexão que o Sínodo dos Bispos se deteve sobre a relação entre Palavra de Deus e cultura. De facto, Deus não Se revela ao homem abstratamente, mas assumindo linguagens, imagens e expressões ligadas às diversas culturas. Trata-se de uma relação fecunda, largamente testemunhada na história da Igreja. Hoje tal relação entra também numa nova fase, devido à propagação e enraizamento da evangelização dentro das diversas culturas e nas mais recentes evoluções da cultura ocidental. Isto implica, antes de mais nada, reconhecer a importância da cultura como tal para a vida de cada homem. De facto, o fenómeno da cultura, nos seus múltiplos aspetos, apresenta-se como um dado constitutivo da experiência humana: «O homem vive sempre segundo uma cultura que lhe é própria e por sua vez cria entre os homens um laço, que lhes é próprio também, determinando o carácter inter-humano e social da existência humana» (2)
A Palavra de Deus inspirou, ao longo dos séculos, as diversas culturas, gerando valores morais fundamentais, expressões artísticas magníficas e estilos de vida exemplares. (3) Assim, na esperança de um renovado encontro entre Bíblia e culturas, quero reafirmar a todos os agentes culturais que nada têm a temer da sua abertura à Palavra de Deus, que nunca destrói a verdadeira cultura, mas constitui um estímulo constante para a busca de expressões humanas cada vez mais apropriadas e significativas. Para servir verdadeiramente o homem, cada cultura autêntica deve estar aberta à transcendência e, em última análise, a Deus. (n. 109)
A Bíblia como grande código para as culturas
Os Padres sinodais sublinharam a importância de favorecer um adequado conhecimento da Bíblia entre os agentes culturais, mesmo nos ambientes secularizados e entre os não crentes;(4) na Sagrada Escritura, estão contidos valores antropológicos e filosóficos que influíram positivamente sobre toda a humanidade.(5) Deve-se recuperar plenamente o sentido da Bíblia como grande código para as culturas. (n. 110)
O conhecimento da Bíblia nas escolas e universidades
Um âmbito particular do encontro entre Palavra de Deus e culturas é o da escola e da universidade. Os Pastores tenham um cuidado especial por estes ambientes, promovendo um conhecimento profundo da Bíblia para se poder individuar, também hoje, as suas fecundas implicações culturais. Os centros de estudo promovidos pelas realidades católicas oferecem uma contribuição original – que deve ser reconhecida – para a promoção da cultura e da instrução. Além disso, não se deve descuidar o ensino da religião, formando cuidadosamente os professores. Em muitos casos, isto representa para os estudantes uma ocasião única de contacto com a mensagem da fé. É bom que se promova, neste ensino, o conhecimento da Sagrada Escritura, superando antigos e novos preconceitos e procurando dar a conhecer a sua verdade. (6) (n. 111)
A Sagrada Escritura nas diversas expressões artísticas
A relação entre Palavra de Deus e cultura encontrou expressão em obras de âmbitos diversos, particularmente no mundo da arte. Por isso a grande tradição do Oriente e do Ocidente sempre estimou as manifestações artísticas inspiradas na Sagrada Escritura, como, por exemplo, as artes figurativas e a arquitetura, a literatura e a música. Penso também na antiga linguagem expressa pelos ícones que, partindo da tradição oriental, aos poucos se foi espalhando por todo o mundo. Com os Padres sinodais, a Igreja inteira exprime apreço, estima e admiração pelos artistas «enamorados da beleza», que se deixaram inspirar pelos textos sagrados; contribuíram para a decoração das nossas igrejas, a celebração da nossa fé, o enriquecimento da nossa liturgia, e muitos deles ajudaram ao mesmo tempo a tornar de algum modo percetível no tempo e no espaço as realidades invisíveis e eternas. (7) Exorto os organismos competentes a promoverem na Igreja uma sólida formação dos artistas sobre a Sagrada Escritura à luz da Tradição viva da Igreja e do Magistério. (n. 112)
Palavra de Deus e meios de comunicação social
Ligada à relação entre Palavra de Deus e culturas está também a importância da utilização cuidadosa e inteligente dos meios, antigos e novos, de comunicação social. Os Padres sinodais recomendaram um conhecimento apropriado destes instrumentos, estando atentos ao seu rápido desenvolvimento e aos diversos níveis de interação e investindo maiores energias para adquirir competência nos vários sectores, particularmente nos novos meios de comunicação, como por exemplo a internet. Por parte da Igreja, já existe uma significativa presença no mundo da comunicação de massa, e o próprio Magistério eclesial exprimiu-se várias vezes sobre este tema a partir do Concílio Vaticano II. (8) A aquisição de novos métodos para transmitir a mensagem evangélica faz parte da constante tensão evangelizadora dos fiéis, e hoje a rede de comunicação envolve o mundo inteiro, tendo adquirido um novo significado o apelo de Cristo: « O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia, e o que escutais ao ouvido, proclamai-o sobre os terraços » (Mt 10, 27). Para além da forma escrita, a Palavra divina deve ressoar também através das outras formas de comunicação. (9) Por isso, juntamente com os Padres sinodais, desejo agradecer aos católicos que lutam com competência por uma presença significativa no mundo dos mass media, solicitando um empenhamento ainda mais amplo e qualificado. (10)
Entre as novas formas de comunicação de massa, há que reconhecer hoje um papel crescente à internet, que constitui um novo fórum onde fazer ressoar o Evangelho, na certeza, porém, de que o mundo virtual nunca poderá substituir o mundo real e que a evangelização só poderá usufruir da virtualidade oferecida pelos novos meios de comunicação para instaurar relações significativas, se se chegar ao encontro pessoal que permanece insubstituível.
No mundo da internet, que permite que bilhões de imagens apareçam sobre milhões de monitores em todo o mundo, deverá sobressair o rosto de Cristo e ouvir-se a sua voz, porque, « se não há espaço para Cristo, não há espaço para o homem » (11) (n. 113)
Bíblia e inculturação
O mistério da encarnação mostra-nos que Deus, por um lado, comunica-Se sempre numa história concreta, assumindo os códigos culturais nela inscritos, mas, por outro, a própria Palavra pode e deve transmitir-se em culturas diferentes, transfigurando-as a partir de dentro através daquilo que Paulo VI chamava a evangelização das culturas.(12) Deste modo a Palavra de Deus, como aliás a fé cristã, manifesta um carácter profundamente intercultural, capaz de encontrar e fazer encontrar culturas diversas. (13)
Neste contexto, compreende-se também o valor da inculturação do Evangelho. (14) A Igreja está firmemente persuadida da capacidade intrínseca que tem a Palavra de Deus de atingir todas as pessoas humanas no contexto cultural onde vivem: «Esta convicção deriva da própria Bíblia, que, desde o livro do Génesis, assume uma orientação universal (cf. Gn 1, 27-28), mantém-na depois na bênção prometida a todos os povos graças a Abraão e à sua descendência (cf. Gn 12, 3; 18, 18) e confirma-a definitivamente quando estende a “todas as nações” a evangelização» (15) Por isso, a inculturação não deve ser confundida com processos de adaptação superficial, nem mesmo com a amálgama sincretista que dilui a originalidade do Evangelho para o tornar mais facilmente aceitável. (16) O autêntico paradigma da inculturação é a própria encarnação do Verbo: « A “aculturação” ou “inculturação” será realmente um reflexo da encarnação do Verbo, quando uma cultura, transformada e regenerada pelo Evangelho produzir na sua própria tradição expressões originais de vida, de celebração, de pensamento cristão» (17) levedando como o fermento dentro da cultura local, valorizando as semina Verbi e tudo o que de positivo haja nela, abrindo-a aos valores evangélicos. (18) (n. 114)
A Palavra de Deus supera os limites das culturas
No debate sobre a relação entre Palavra de Deus e culturas, a assembleia sinodal sentiu necessidade de reafirmar aquilo que os primeiros cristãos puderam experimentar desde o dia de Pentecostes (cf. Act 2, 1-13). A Palavra divina é capaz de penetrar e exprimir-se em culturas e línguas diferentes, mas a própria Palavra transfigura os limites de cada uma das culturas criando comunhão entre povos diversos. A Palavra do Senhor convida-nos a avançar para uma comunhão mais vasta. «Saímos da estreiteza das nossas experiências e entramos na realidade que é verdadeiramente universal. Entrando na comunhão com a Palavra de Deus, entramos na comunhão da Igreja que vive a Palavra de Deus. (…) É sair dos limites de cada uma das culturas para a universalidade que nos vincula a todos, a todos nos une e faz irmãos». (19) Portanto, anunciar a Palavra de Deus começa sempre por nos pedir a nós mesmos um renovado êxodo, deixando as nossas medidas e as nossas imaginações limitadas para abrir espaço em nós à presença de Cristo. (n. 116)
(1) Propositio 29.
(2) JOÃO PAULO II, Discurso à UNESCO (2 de Junho de 1980), 6: AAS 72 (1980), 738.
(3) Cf. Propositio 41.
(4) Cf. ibidem
(5) Cf. JOÃO PAULO II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 80: AAS 91 (1999), 67-68.
(6) Cf. Lineamenta 23.
(7) Cf. Propositio 40.
(8) Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Decr. sobre os instrumentos de comunicação social Inter mirifica; PONT. CONS. PARA AS COMUNICAÇÕES SOCIAIS, Instr. past. Communio et progressio sobre os ins trumentos da comunicação social, publicada por disposição do Concílio Ecuménico Vaticano II (23 de Maio de 1971): AAS 63 (1971) 593-656; JOÃO PAULO II, Carta ap. O rápido desenvolvimento (24 de Janeiro de 2005): AAS 97 (2005) 265-274; PONT. CONS. PARA AS COMUNICAÇÕES SOCIAIS, Instr. past. sobre as comunicações sociais no XX aniversário da «Communio et progressio» Aetatis novae (22 de Fevereiro de 1992): AAS 84 (1992) 447-468; IDEM, A Igreja e internet (22 de Fevereiro de 2002): Ench. Vat. 21, nn. 66-95; IDEM, Ética na internet (22 de Fevereiro de 2002): Ench. Vat. 21, nn. 96-127.
(9) Cf. Mensagem fi nal IV, 11; BENTO XVI, Mensagem para o XLIII Dia Mundial das Comunicações Sociais (24 de Janeiro de 2009): Insegnamenti V/1 (2009), 123-127.
(10) Cf. Propositio 44.
(11) JOÃO PAULO II, Mensagem para o XXXVI Dia Mundial das Comunicações Sociais (24 de Janeiro de 2002), 6: Insegnamenti XXV/1 (2002), 94-95.
(12) Cf. Exort. ap. Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), 20: AAS 68 (1976), 18-19.
(13) Cf. BENTO XVI, Exort. ap. pós-sinodal Sacramentum caritatis (22 de Fevereiro de 2007), 78: AAS 99 (2007), 165.
(14) Cf. Propositio 48.
(15) PONT. COMISSÃO BÍBLICA, A Interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993), IV, B: Ench. Vat. 13, nn. 3112.
(16) Cf. CONC. ECUM. VAT. II, Decr. sobre a actividade missionária da Igreja Ad gentes, 22; PONT. COMISSÃO BÍBLICA, A Interpretação da Bíblia na Igreja (15 de Abril de 1993), IV, B: Ench. Vat. 13, nn. 3111-3117.
(17) JOÃO PAULO II, Discurso aos Bispos do Quénia (7 de Maio de 1980), 6: AAS 72 (1980), 497.
(18) Cf. Instrumentum laboris, 56.
(19) BENTO XVI, Homilia durante a Hora Tércia, no início da I Congregação Geral do Sínodo dos Bispos (6 de Outubro de 2008): AAS 100 (2008), 760.
Bento XVI
In Verbum Domini
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19.11.10








Exortação Apostólica Pós-Sinodal "Verbum Domini", de Bento XVI - Texto integral
Papa convida à redescoberta de Deus - Linhas essenciais da "Verbum Domini"






