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Poesia têxtil veste D. José Tolentino Mendonça: Sobre a criação da paramentaria

1. Furtivos lírios e a arte das chamas

«Contemplava a própria vida / na sorte desses instantes / que tanto se assemelham a furtivos lírios / à chegada da noite / mas dizia: um coração é sempre um pássaro / evadido à censura da penumbra // nenhum sofrimento conseguia desfazer / as muitas exaltações que mantinha / e mesmo à beira do caminho / exibia uma facilidade talvez sem razão // quando a arte das chamas se tornou / nas cidades uma ciência ameaçada / percebemos que há muito nos falava / do interior das florestas» (José Tolentino Mendonça, A noite abre meus olhos [poesia reunida], Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, 122).

Fosse permitido e tivesse estado presente, também como amigo, teria lido este poema na Capela do Rato, em homenagem a D. José Tolentino, à semelhança de outros que foram escolhidos por Alice Vieira, Carminho, Joana Carneiro, Ilda David’, Luís Filipe Castro Mendes, Luís Miguel Cintra, Manuel Rosa, Maria Rueff, Nuno Júdice e Ricardo Araújo Pereira. Noite memorável permanece aquela em que poemas e amigos se reuniram para saudar o eleito Dom. Quando a arte das chamas acende a amizade, por mais que a penumbra vele as paisagens, tudo se torna tão fácil que exaltar é a condição da noite.

Sirva esta noite para enunciar o crepúsculo que incipiou outra, em que os lírios, ainda furtivos, inauguraram uma visão. Tinha acabado de enviar uma mensagem a congratular o Tolentino, nos termos próprios de amigos nascidos no tempo de estudos em Roma (que grandes amizades se fizeram, nesse tempo, no Colégio Português!), cujos laços ainda se exprimem melhor do que a eternidade da urbe, e, passados minutos, recebo um pedido: «Precisava dar-te uma palavra, posso?» Seguiu-se a conversa. O assunto cingiu-se a um desafio inesperado: «Pedia-te que, se possível, coordenasses a criação dos paramentos que irei vestir na ordenação episcopal. Conheces artistas. Mas, atenção, desejaria algo que, sempre em linhas contemporâneas, nasça a partir da Tradição. Confio inteiramente no que possa surgir.» Nesses dias e por coincidência, tinha visto «L'archevêque marron», obra de Mário Cesariny, numa exposição na Casa dos Crivos, em Braga, uma peça da Coleção Fundação Cupertino de Miranda.



Imagem Mário Cesariny: "L'archevêque marron", Coleção Fundação Cupertino de Miranda | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

O pedido era irrecusável. Pensei um pouco e, de imediato, ocorreram-me contactos a fazer. Contudo, o que mais me deixava a refletir era o lema episcopal escolhido, sobre o qual nessa altura deveria conservar sigilo: «Olhai os lírios do campo». Não parecia ‘óbvio’, confesso. Abstendo-me, todavia, de interrogar o porquê de tal versículo e recorrer à exegese bíblica, fui como que naturalmente transportado à sua poesia, e passei a vislumbrar um infinito de possíveis remissões sapienciais. Depreendi que seria importante partir também da sua poesia, enquanto especial condensação do seu pensamento. Sim, iniciar nesse corpus para revestir a corporeidade, na harmonia dos lírios e da sua pessoa, com um olhar expandido desde o interior das florestas.



Imagem Flores: detalhe de paramento do Tesouro Museu da Sé de Braga | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

2. Inscritas, anamnese da primeira morada, flores

Revisitada mais uma vez a sua poesia, reunida em A noite abre meus olhos, torna-se percetível que há ninfas, cuja graça criativa industria o intrincado imaginarium literário de José Tolentino, que, além de outros universos naturais, habitam frequentemente jardins. De tal forma assim é que não surpreenderá o que ele disse, no final da liturgia de ordenação no Mosteiro dos Jerónimos, perspetivando a sua nova missão em Roma: «Para mim não há diferença entre uma biblioteca e um jardim». A similitude extravasa a ideia de relicário sagrado de muitas árvores em fólios. Até porque, nestes hortos abertos, há inclusive sombras de folha a folha e perfumes revivescidos nas leituras que crescem com os leitores atentos, isto é, no modo fitomórfico em eflorescência. E há vulnerabilidade, nunca omitida: «À medida que correm os dias / a alba, outubro, as brumas sobre o rochedo / percebemos o aspeto vulnerável / dos jardins» (Mendonça, 132).

Evocando os ditos espirituais, ou apotegmas, dos Padres e Madres do deserto, e o universo dos poetas-monges, considerados a «alma do mundo do Oriente», que sintetizavam em breves sentenças o seu ensinamento, sugeriu como queria que fosse interpretado o seu lema: «Os farrapos de mendigos que interiormente nos vestem têm a beleza dos lírios: é essa a lição».



Imagem Detalhe de paramento do Tesouro Museu da Sé de Braga | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Tolentino Mendonça iniciou-se precocemente ao deslumbramento das flores, sem pretender cobri-lo com palavras. É verdade, são abundantes na ilha onde cresceu e até lhes dedicam grandes festas. Porém, desde os primeiros poemas, ele refuta os versos para o dizer. Depois do primeiro poema, dedicado à infância de Herberto Hélder, e da Travessia da infância, faz uma breve anamnese da vida, em A primeira morada, e descobre-se, nos cuidados e silêncio de sua mãe, um contemplativo das flores: «lembro-me, a mãe subia / pela tarde transportando / pequenos vasos de / orquídeas, cavando junto / ao muro alto / onde se abrigavam pezinhos / de hortelã e crisântemos, vigiando / o florir lento dos antúrios / pondo e dispondo flores / com uma atenção muito grave / feita de silêncio e / cuidado» (Mendonça, 15).

Orquídeas, hortelã, crisântemos, antúrios. Assim começa o seu jardim. Ainda não tem a extensão de O grande herbário de sombras, pintado por Lourdes Castro, natural da Madeira, mas enriquece-se, paulatinamente, com flores que despontam aqui e ali nos seus poemas. E, como ela, também colhe sombras, não das flores mas dos medos: «Inscrição de alegria / súbita flor / o vento descobre / entre as águas / ilumina meus passos / pela sombra larga / dos medos // pois o rio se recolhe / à humilde exultação / da fonte // e a flor se abandona / à véspera esplendorosa / do fruto (Visitação: Mendonça, 35). Do lado solar, as flores despontam inscritas nos seus poemas: gerânios, em Ribeiro Frio; lilases, em Coisas da tristeza e Lilases; rosas, em O próximo viandante; flores magras e azuis, em Fogueiras e gelos; frésias, em Frésias; girassóis, numa variação ‘van-ghoguiana’, em Os girassóis; buganvílias, em O século breve; crisântemos e camélias, em Rare bird-flower paintings selected from The Ch’ing Palace collections. Como bem recordo o seu particular apreço por buganvílias e, não menos, as perfumadas e duráveis frésias, «flores com cheiro a chá» (Mendonça, 109), que por diversas vezes adquiriu no mercado matutino do Campo dei Fiori, a tal ponto de dedicar um poema à sua duração: «Não sei que tempo duram as frésias / a rendição de um corpo / é sempre tão inesperada» (Mendonça, 165).



Imagem Flores em paramento do Tesouro Museu da Sé de Braga | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Flores, sem dúvida, há tantas, mas são os lírios que mais florescem nos versos do seu poemário: «a flor do lírio / acesa», em Anunciação; o «lírio seco cravado nas costas à traição», em Restos de chuva; «a extinção dos lírios no jardim nupcial», em A presença mais pura; «a relativa veracidade concedida aos lírios», em A casa; e, entre outros, os Furtivos lírios, já citados.

Compreenderemos melhor agora o seu lema episcopal. D. Manuel Clemente refere-se, na homilia da ordenação de D. José Tolentino, à exploração que este faz do apotegma de Jesus, na perspetiva de «uma decisiva pedagogia do olhar», cintando palavras da sua obra A mística do instante: «Reparemos na pedagogia de Jesus: “Olhai as aves do céu”, “olhai os lírios”. É o estilo de Jesus que impressiona, porque revela o que Ele é. Jesus não diz: olhai para a pessoa mais rica, ponde os olhos na pessoa melhor sucedida, ou mesmo na mais sábia. Jesus vai mais longe. Manda-nos confrontar com aquela beleza gratuita, a beleza sem mais, que nasce do ser» (José Tolentino Mendonça, A mística do instante. O tempo e a promessa, Prior Velho, Paulinas, 2014, 189).



Imagem Ave em paramento do Tesouro museu da Sé de Braga | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

3. Vamos ao Tesouro, às sedas míticas

Poderíamos continuar com lírios e flores nomeadas, e entrar noutros jardins tolentinianos, e isto sem renunciar ao ardente desejo de que até as flores selvagens «venham florir à nossa porta» (Mendonça, O pequeno caminho das grandes perguntas, 49), mas há que atravessar outro pórtico, o de um Tesouro. Como empreender esta viagem? Lembraremos, ainda, a recomendação assinalada em relação aos paramentos a criar: «Atenção, desejaria algo que, sempre em linhas contemporâneas, nasça a partir da Tradição». Foi por este sentido que prosseguimos.

O tempo era escasso para criar. Da eleição à ordenação, tão poucos dias a urgir o esplendor. Estudar séculos de paramentaria obrigava, em todo o caso, a uma imperiosa detenção. Assim, sem hesitações, avançámos para o Tesouro Museu da Sé de Braga. Bem sabíamos que, como em tantos outros museus – mormente nacionais, de sés, mosteiros e colegiadas –, sacristias e coleções privadas, o Museu de Arte Sacra do Funchal possui um esplendoroso núcleo de paramentos, a maioria deles bordados a ouro e a matiz, de entre os quais se destacam casulas da Sé, ricamente bordadas a ouro sobre lhama de ouro. Aliás, faz alguns anos que, em Lisboa, eu próprio tinha entregue em mãos a Lourdes Castro, na presença do Manuel Rosa e da Ilda David’, um caderno com dezenas de imagens de casulas litúrgicas, antigas e contemporâneas, onde estas e vários outros paramentos da Madeira compareciam. Paramentos que, graças a uma visita especial, acabaria por contemplar durante as conferências do Museu de Arte Sacra do Funchal, realizadas em março deste ano, que versaram sobre questões de arte sacra. Nessa altura a Lourdes estava a trabalhar na ideação de um conjunto de paramentos para a capela Árvore da Vida, no Seminário Conciliar de Braga. Desta vez, porém, não por exclusão, mas devido a conhecimentos entretanto adquiridos, sugeri à Helena Cardoso que investíssemos, em termos de estudos preliminares, no Tesouro Museu da Sé de Braga.



Imagem Estudo da paramentaria no Tesouro Museu da Sé de Braga | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Imagem Estudo da paramentaria no Tesouro Museu da Sé de Braga | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Acolhidos com amabilidade e competência (e já veremos porquê), a Dra. Fernanda Barbosa não nos levou diretamente aos paramentos da exposição permanente, a maioria do século XVIII, sob muitos aspetos semelhantes àqueles do Museu de Arte Sacra do Funchal e de outros Tesouros Museus de catedrais, mas fez-nos descer à reserva dos têxteis, onde se conservam, em caixas apropriadas, cerca de duas mil peças, grande parte delas, vestes litúrgicas. Nem tudo está ainda inventariado. Porque, ao elevado número de artigos, junta-se a morosidade da inventariação e a delicadeza do seu manuseio. Para este exigente trabalho, que ela faz com o apoio da Dra. Catarina Saavedra, não pode dispensar-se um caderno de orientação, de natureza técnica, com texto de Teresa Alarcão e Teresa Pacheco Pereira, em concreto as páginas que concernem à paramentaria: Normas de Inventário. Têxteis. Artes plásticas e artes decorativas, Direção de Serviços de Inventário /IPM, Lisboa, 2000, 34-47. Nesta matéria, a Dra. Fernanda apurou a sua competência, formando ao longo de vários anos uma minibiblioteca nesta área específica dos têxteis, que é um domínio para o qual tardiamente se despertou, a ponto de muitas peças se terem danificado e, mais grave ainda, perdido.



Imagem Helena Cardoso durante o estudo no Tesouro Museu da Sé de Braga | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Imagem Helena Cardoso durante o estudo no Tesouro Museu da Sé de Braga | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Alvas, amitos, batinas, bolsas de corporais, casulas, chapéus, cíngulos, cobertas de altar, véus de custódia, corporais, bambinelas, dalmáticas, dosséis, estandartes, pendões, bandeiras, flabelos, frontais, gremiais, luvas episcopais, mangas de cruz, manípulos, manustérgios, mitras, opas, palas, baldaquinos ou pálios processionais, panos e almofadas de esquife e de ambão, panos de missal, frontais, panos de trono, tunicelas, estolas, pluviais, capas de asperges, roquetes, sanguíneos, sapatos, sandálias, meias, sobrepelizes, solidéus, toalhas, umbelas, vestes de imagens, véus de cálices e de ombros, humerais, véus de píxides ou cibórios, colchas, alcatifas de estrado, véus de sacrário ou pavilhão, panos de armar, etc.; de todos estes têxteis o Tesouro tem. Várias foram as peças vistas, embora a nossa atenção se tenha concentrado nos paramentos e nas casulas.

Desde logo, não poderíamos deixar de apreciar peças da paramentaria do Arcebispo D. Gonçalo Pereira (1326-1348), sobre a qual existem estudos; um deles, por exemplo: Instituto Português de Conservação e Restauro, Tecidos medievais, Lisboa, 2004, 34-35. E, entre outras, a riquíssima casula atribuída a D. Diogo de Sousa, Arcebispo de Braga de 1505 a 1532, que provavelmente nem será dele; e, com bordados de aplicação, os paramentos de D. Gaspar de Bragança, que foi Arcebispo de Braga entre 1758 e 1789.

Surpreendente resultou o estudo da paramentaria indo-portuguesa, dos séculos XVII e XVIII, com as suas sedas polícromas, as míticas sedas, com abundância de pássaros e flores. Sobre este tipo de panos, convém conhecer o que Maria João Pacheco Ferreira, pertencente ao CHAM – Centro de Humanidades, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/NOVA) e representante do TTT, escreveu e foi publicado nas Atas do IV Congresso de História da Arte Portuguesa em Homenagem a José-Augusto França, a que deu o título: «Os “panos da Índia” em Portugal: integração e consumo dos artigos têxteis asiáticos na sociedade portuguesa dos séculos XVI a XVIII», que se encontra entre as páginas 72 e 81. Uma vez que também apreciámos paramentos de tradição sinoportuguesa, remetemos os leitores para outro estudo da sua autoria: «Os paramentos bordados sinoportugueses no contexto das artes decorativas do barroco», in Actas do II Congresso Internacional do Barroco, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto, 2003, 535-543. E, precisamente, sobre esta temática, é de recordar a conferência intitulada «Têxteis chineses em Braga no século XVII», que ela fez no dia 23 de maio deste ano, na Sala Jorge Barradas, do Museu Nogueira da Silva, em Braga. Em termos bibliográficos, e porque diretamente centrado na paramentaria bracarense, temos ainda de referir uma separata: Natália Martinho Ferreira-Alves, «Nótula para o estudo da paramentaria bracarense no século XVIII», Separata da Revista da Faculdade de Letras, II Série, vol. VIII, Porto, 1991, 307-308.



Imagem Motivos em alva indo-portuguesa do tesouro Museu da Sé de Braga | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

A análise das fibras e dos fios, alguns deles metálicos, bem como das técnicas de confeção, a par de certos diálogos críticos que, com atenção e liberdade, empreendíamos, levaram-nos a alargar o glossário de termos têxteis: bordado, bouclé, brocado, brocatel, canotilho, cordão de enchimento, enchimento, espiguilha, estopa, ferronnerie; fio de fieira, fio frouxo, fio laminado, fio metálico crespo; gadamecil, galão bordado, gorgorão, gros de Tours, holandilha, lamé, lâmina de pele, lampasso, lhama, opus anglicanum, organza, passamanarias, rami, sebasto, tafetá, taquetê; tecido espolinado, tecido lavrado, trama. Espantosa litania esta, mas porque há centenas de termos técnicos, registemos apenas quanto concerne aos veludos, que podem ser cinzelados, cortados, frisados, de dois ou três altos, e lavrados. Para maior perceção de alguns destes pontos, peças e fios, usámos inclusive uma lupa binocular. Todavia, a fim de ter uma noção deste admirável mundo, nada como consultar o Glossário de termos têxteis e afins, da autoria de Manuela Pinto da Costa, museóloga e conservadora, publicado pela Revista da Faculdade de Letras do Porto. Ciências e Técnicas do Património, em 2004 (I Série, vol. III, pp. 137-161).



Imagem Particular de casula em seda do Tesouro museu da Sé de Braga | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

A rota da seda levou-nos a consultar outra obra, na qual se reproduzem imagens de peças têxteis, muitas delas de paramentaria, da qual existem vários exemplares no Tesouro Museu da Sé de Braga: Eulàlia Morral i Romeu – Antoni Segura i Mas, La seda en España. Leyenda, poder y realidad, Lunwerg Editores, Barcelona-Madrid, 1991. Recordámos, ainda, o fabrico local, que, infelizmente, já desapareceu, ou seja, a indústria dos damascos em Braga, que nos anos 80’ do século XX preservava a tecelagem manual em seda. Para isso, consultámos um caderno, que foi publicado com o apoio da ASPA e da Câmara Municipal de Braga, repartido em dois títulos: Isabel Maria Azevedo Gonçalves Moreira Vilaça, «A indústria dos damascos em Braga. Situação actual» – Sebastião de Pessanha, «A fiação e a tecelagem manuaes em Portugal. 1. Os tecelões paramenteiros de Braga», Braga, 1980.



Imagem Estudo dos fios, com auxílio de um binóculo, muitos deles em ouro e prata | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Imagem Estudo dos fios, com auxílio de um binóculo, muitos deles em ouro e prata | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Imagem Estudo dos fios, com auxílio de um binóculo, muitos deles em ouro e prata | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Por último, no que se refere à Tradição, não deixámos de ampliar o conhecimento através de outras fontes. E, nesse sentido, fizemos a consulta do imenso catálogo de imagens, organizado por Teresa Alarcão e José Alberto Seabra Carvalho, em paramentos bordados nos séculos XIV a XVI, editado pelo Instituto Português de Museus, em 1993. Consultámos depois um livro, de grande interesse sobre este assunto, coordenado por Arturo Carlo Quintavalle: Arredi liturgici e architettura, Electa, Milano, 2007. Esta obra coletiva permitiu-nos recordar várias personagens, que aparecem nos mosaicos de basílicas e igrejas, de modo particular em Itália, revestidas de paramentos: Roma, Ravena, Aquileia, Palermo, Monreale, Milão, Veneza, entre outras. Enfim, a Tradição é muito vasta e, tendo estudado significativa parte dela, pensámos que seria mais do que suficiente para nos sentirmos capazes de garantir, em continuidade viva, o seu progresso segundo as «linhas contemporâneas», na sequência do segundo requisito expresso por D. José Tolentino. Até porque, como se compreenderá, era fundamental conhecer as últimas fases da evolução da paramentaria, o que fizemos e, inclusive, podemos testemunhar da experiência própria, pois ambos participámos ativamente, com outros artistas, na criação de uma série de paramentos.



Imagem Estudo de peças têxteis no Tesouro Museu da Sé de Braga | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Imagem Estudo de peças têxteis no Tesouro Museu da Sé de Braga | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

4. Tecidos em poesia, segundo a cultura portuguesa

Em declarações à imprensa, no final da liturgia de ordenação, D. José Tolentino disse a propósito das suas insígnias: «Toda a minha vida trabalhei com artistas e quis que nesta ordenação episcopal também estivesse presente essa dimensão da minha vida». Concretamente em relação aos paramentos, referiu que a casula tinha sido tecida por artesãs da Serra do Marão, «como uma espécie de vitral colorido como um campo de lírios», com base no desenho da estilista portuguesa Helena Cardoso, numa obra «de grande simplicidade e, ao mesmo tempo, de enorme poesia». Acrescentou ainda que as insígnias – cruz peitoral, báculo e anel – eram obra do escultor Manuel Rosa. Procuremos então conhecer melhor quem é Helena Cardoso e a sua obra artística, e que artesã (neste caso, é preferível passar ao singular) da Serra do Marão teceu, no tear manual, os panos dos paramentos.



Imagem Vestuário criado por Helena Cardoso | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Imagem Vestuário criado por Helena Cardoso | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Imagem Vestuário criado por Helena Cardoso | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Com Helena Cardoso apreendemos a pontear a vida, a tecê-la numa trama que liberta. Algo que se experimenta quando vestir atinge o estatuto de arte. A dignidade humana, naquilo que tem de diferente com os outros seres, afirma-se também no vestir. Todavia, quanto a esplendor, os lírios dos campos podem superar-nos. Isso disse Jesus, no discurso da montanha. De facto, os lírios «não trabalham nem fiam». Ainda assim, Jesus, sem diminuir a glória de Salomão, acrescenta: «nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles». A preocupação pelo que havemos de vestir pode desviar do essencial. Mas pode, também, restituir a dignidade, até a quem tece. Disso é testemunha a Helena, que tantos caminhos de montanha percorreu, de camioneta, comboio e a pé. Sem discursos, prefere histórias para contar. Vidas de mulheres, a tecer e bordar, por ela resgatadas para a luz e a dignidade, tão fugidias. Com elas aprendeu a refletir segundo outros paradigmas e a transumância. E, em processo de colaboração, criou peças de vestuário, obras genuínas, com as quais é possível vestir com arte.

Mulher de setenta e muitos anos, Helena vive entre o Porto e as montanhas do interior de Portugal. A sua ‘casa’ é realmente muito longa. Risoleta Pinto Pedro apresenta-a no tríptico: «Extraordinária artista, extraordinária criadora, extraordinária mulher». Após trabalhar como estilista em fábricas têxteis, foi convidada por uma organização sueca para participar num projeto na Serra de Montemuro, em ordem a dignificar a condição das pastoras. Com inteira justiça, ela é reconhecida como «a mulher que de pastoras fez artesãs», conforme o título do artigo publicado, a 23 de outubro de 2015, na revista Notícias Magazine, uma rubrica que é dedicada a «portugueses extraordinários» (https://www.noticiasmagazine.pt/2015/portugueses-extraordinarios-6/).

Seguiram-se projetos nas serras do Norte de Portugal: Freita, Lorvão, Arga, etc. Sempre com o intuito de promover o valor humano do trabalho e cuidar a dignidade pessoal. Por muitos dos seus méritos, foi distinguida pela UNESCO.

Em 2012, recebe um convite especial: colaborar com Lourdes Castro, para concretizar um sonho que esta teve: um conjunto de paramentaria litúrgica, destinado a uma pequena capela, a Árvore da Vida, no Seminário Conciliar de Braga. Honrada, logo se prontificou. Permita-se a este ponto um detalhe, que ajuda a compreender a sua personalidade, e que muito me surpreendeu, pois, nessa altura, ainda não nos conhecíamos pessoalmente: mal acolheu o convite, logo se meteu no comboio e veio a Braga, para obter mais informações e dar sequência ao processo. Desde então, inicia-se uma belíssima história, ponteada com várias colaborações. Para conhecer os seus fios e nomes, esperamos que em breve seja publicado um Epistolário, cujas cartas, minhas e da Lourdes Castro, foram escritas ao longo de quase oito anos. Algumas dessas cartas serviram de canal de comunicação para transmitir à Helena as ideias da Lourdes, e para que se acertassem detalhes que decorriam da evolução do processo de criação da paramentaria. Mais: está a projetar-se uma exposição destes paramentos juntamente com as casulas litúrgicas que Henri Matisse desenhou para a Chapelle du Rosaire, em Saint-Paul de Vence, França. O curador da exposição já apresentou o projeto e a direção da instituição onde será apresentada acolheu a proposta. Boas notícias, portanto. Reservemos, para o próximo ano, os detalhes sobre esta aguardada exposição.



Imagem Detalhes da paramentaria ideada por Lourdes Castro para a capela Árvore da Vida | Fotografia: Nelson Garrido | D.R.

Imagem Detalhes da paramentaria ideada por Lourdes Castro para a capela Árvore da Vida | Fotografia: Nelson Garrido | D.R.

Imagem Detalhes da paramentaria ideada por Lourdes Castro para a capela Árvore da Vida | Fotografia: Nelson Garrido | D.R.

No n. 1 de 2007 da revista "Convergências", lê-se: «A relação da designer Helena Cardoso com o passado é estabelecida, num registo de grande criatividade, utilizando conhecimentos acumulados durante anos de aturada investigação, numa relação que nos remete para uma profunda ruralidade. A apresentação dos seus tecidos e peças de vestuário consegue veicular uma moda lúdica e vibrante, em modelos urbanos e intemporais.»

A propósito do trabalho que apresentou em Guimarães, no Centro Cultural de Vila Flor, sob proposta do Círculo de Cultura Portuguesa à Câmara Municipal de Guimarães, escreveu: «O trabalho aqui apresentado é um lugar de resistência. Resistência de saberes tradicionais de um quotidiano ido, mas que teimam em não morrer. Persistem em sobreviver na sua beleza, poesia, e arte, cruzando-se com a modernidade, adequando-se aos gestos e às necessidades do nosso tempo.» Beleza, poesia, arte: a resistência da mística do quotidiano, que teima em viver, tecida na contemporaneidade. Não seria por esta via que, providenciada a ‘adequação’, os paramentos haveriam de nascer?



Imagem Paramentaria ideada por Lourdes Castro em uso na dedicação da capela Imaculada | Fotografia: Edmundo Correia | D.R.

Risoleta Pinto Pedro, num texto que escreveu por ocasião da Exposição “Pontear a vida, Helena Cardoso», faz o seguinte apontamento sobre as suas peças, que, de forma providente, nos conduz novamente até Lourdes Castro: «Eu tinha acabado de visitar em Serralves a exposição de Lourdes de Castro e de Manuel Zimbro, e tinha ainda presente uma peça de Lourdes de Castro que, embora não tivesse encontrado lá, me acompanhou durante toda a exposição: um anjo de sombra; tinha agora aqui um anjo de luz de algodão, vira em Serralves pontas de luz condensadas num objecto de vidro que olhei como um acelerador de partículas, via agora aqui os “mesmos” fios de cores espraiando-se pelos tecidos do tear de Helena Cardoso, tinha visto as sombras bordadas à mão nos lençóis de Lourdes de Castro e tinha entrado numa loja tradicional do Porto onde vira amêndoas que são verdadeiros bordados, minuciosas peças únicas criadas à mão, e via agora o bordado criar pintura, aguarela, e tudo isto me transportou a uma mulher sobre quem escrevi recentemente, a médica Adelaide Cabete, e a sua contribuição, juntamente com outras ilustríssimas do seu tempo, para o bordado da primeira bandeira da República. As mulheres têm em si, e manifestam, esta divina sabedoria do bordado do mundo (que os homens, para bem de todos e talvez para salvação do mundo, começam agora a descobrir) e qualquer pele lhes serve, qualquer material as contenta: corpo, açúcar, lã, seda, sombra, anjo, flor ou luz. Não é possível comparar as obras de diferentes criadores, mas é possível sentir comoções parecidas perante o genuíno e irreprimível impulso de criar.»

A outra poetisa do têxtil envolvida na tecelagem dos paramentos de D. José Tolentino, a quem Helena Cardoso recorre constantemente, chama-se Maria da Luz. É comum apresentá-la como «artesã da Serra do Marão», porque vive e trabalha em sua casa, no lugar de Nogueirinha, freguesia de Bustelo, Amarante. Tem uma personalidade muito especial, construída em tempos que dela exigiram pressa em tornar-se mulher muito cedo. De facto, como filha mais velha, viu-se responsabilizada a ‘criar’ os seus irmãos. Missão que assumiu na ausência dos pais, que, entretanto, emigraram para a Suíça, a fim de ganhar outro sustento económico para a família.



Imagem Particular de trabalhos de Helena Cardoso | Fotografia: Helena Cardoso | D.R.

Imagem Particular de trabalhos de Helena Cardoso | Fotografia: Helena Cardoso | D.R.

Imagem Particular de trabalhos de Helena Cardoso | Fotografia: Helena Cardoso | D.R.

Essa precocidade, não obstante uma infância privada do brincar, o que lamenta, consolidou nela um modo de pensar muito próprio. Ainda hoje, por exemplo, refere que pouco vê televisão. Porque, segundo diz, a televisão «aplana as texturas identitárias, destrói as ‘unicidades’». Eis porque se apresenta como uma mulher «única», «artista de tear manual da Serra do Marão». Há luxos que não troca por nada. Certa altura, em representação de artes e ofícios de Portugal, deslocou-se a Macau, com um dos seus teares, no qual tecia para demonstração. À noite, ficava hospedada num arranha-céus, juntamente com Helena Cardoso e outros artistas nacionais. Para sublinhar o que estimava ser privilégio, a Helena disse-lhe: «Repara na sorte que temos em estarmos hospedadas neste prédio elevadíssimo». Ao que ela lhe respondeu: «Não trocaria estas alturas pelas da Serra do Marão», insistindo depois na qualidade do ar, dos alimentos e no sossego do seu habitat de origem. Construiu em sua casa um atelier com dois teares manuais e neles confeciona poesia têxtil segundo a cultura portuguesa, que herdou de gerações. E prossegue, ao sabor de uma genealogia viva, em inéditas variações contemporâneas. Contemporaneidade que beneficia do design da estilista Helena Cardoso, que revivesceu a arte têxtil em tear manual a partir de várias tradições portuguesas.



Imagem Maria da Luz no tear manual a confecionar os tecidos do paramento de D. José Tolentino | Fotografia: Helena Cardoso | D.R.

Imagem Maria da Luz no tear manual a confecionar os tecidos do paramento de D. José Tolentino | Fotografia: Helena Cardoso | D.R.

Tecidos prontos, era preciso costurar. Fê-lo a costureira Ilda, de Matosinhos, a quem a Helena acarinha de «Menina». Foi ela quem recortou as peças, conforme modelo e medições de outro paramento levado desde o Seminário de Braga. Aplicou o sebasto e a gola na casula e, de forma a evidenciar a manufatura, cuidou os remates. Confecionou ainda a alva, em linho. Por sua vez, a mitra, com os respetivos pendentes, circulus e titulus, de tecido elaborado pela Maria da Luz, foi acabada pela Felismina na Mc Produtos religiosos do sr. Dias, em Vermil, Guimarães.

 

5. Perplexidade e deslumbramento

Nesta sequência de sinergias, aparentemente tão mínimas, algumas invisíveis, mas indispensáveis como a sede, façamos memória do apoio das tecedeiras Ana e Maria, e da Benta, da Casa da Lã, de Bucos, Cabeceiras de Basto, que levaram a Helena Cardoso a Arco de Baúlhe, para adquirir o linho da alva. Lembremos ainda o voluntarismo do João Basto, seminarista de Viana do Castelo, que, in persona Tolentini, serviu de modelo para garantir determinados detalhes nas aplicações do sebasto da casula. Os detalhes, sim, mas também uma grande decisão a tomar: incorporar as sedas indianas, que a Helena trazia, no tecido da casula, ou libertar o sebasto numa composição poética? E ali, precisamente à mesa do bar, ponderadas a ousadia e a resistência, se decidiu. Inesquecível permanecerá o sorriso de toda a comunidade do Seminário de Braga, por onde passou mais do que uma vez a Helena, ao saber que estas coisas se estavam a urdir. Era ainda o tempo de semear o jardim. E ser seminário não é isso, também, permanentemente?



Imagem Momento da prostração na ordenação episcopal | Fotografia: Arlindo Homem | D.R.

As linhas, em carrinho; as sedas da Índia, já tão difíceis de obter em Portugal; as cores, insuspeitas na autenticidade; a trama, de linho, na sua segura fragilidade… a tudo se chegou depois de estudar. Quem vir os paramentos do Tesouro Museu da Sé de Braga depreende donde partimos. Este itinerário, da Tradição à contemporaneidade, remete-nos, mais uma vez, para aquilo que escrevi a propósito do refinar do despojamento, no livro Capelas de Braga. Novas poéticas da espacialidade ritual: «Este despojamento, que não se faz sobre o nada, apresenta-se cheio de criação. Faz-nos lembrar o que dizia Saénz de Oiza, a propósito dos desnudamentos que operou no santuário de Arantzazu, em Oñati, província de Gipuzkoa no País Basco: “Há que apoiar-se para criar (…) o progresso é a partir do dado. Não pode haver nada de novo se não existe já uma linguagem prévia. Posso ser radical precisamente porque sou capaz de olhar muito o passado.” (R. BIGANO, El Santuário de Arantzazu, FMR, Bologna 2007, 201). Quem diz o passado, diz a grande Tradição, nomeadamente a da arquitetura cristã, mas não só.» (Joaquim Félix de Carvalho, "Capelas de Braga. Novas poéticas da espacialidade ritual", Lisboa, Universidade Católica Editora, 2018, 73-74).



Imagem Linhas e sedas indianas usadas no paramento de D. José Tolentino | Fotografia: Helena Cardoso | D.R.

A poesia têxtil, que acabaria por tecer-se, atesta a amplitude do «mas não só», num refinamento filigrânico, que superou a imaginação da partida. Dele tivemos melhor leitura, quando, na casa da Helena, à janela sobre a cidade do Porto, contemplávamos como funcionava em vitral. No alto e de longe, a igreja da Lapa dava a música do órgão de tubos, a solenidade. E o de Cedofeita ali ao pé. Que alegria a nossa! Confiante, a Helena exclamava, numa mistura de humildade com espanto: «Acho que consegui!». E foi isso o que, de seguida, disse ao Tolentino, após lhe passar a conversa telefónica, onde ela se desdobrou entre felicitações e, sem esconder, apreensões sobre o futuro da cultura, na Igreja e em Portugal.



Imagem Apreciação dos tecidos à janela em casa de Helena Cardoso | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Imagem Apreciação dos tecidos à janela em casa de Helena Cardoso | Fotografia: Joaquim Félix | D.R.

Desejoso de ver alguma imagem, de que se viu privado quase até à véspera da ordenação, o Tolentino insistia: «Manda-me fotografias». Ao final dessa manhã de trabalho no Porto, depois de admirar várias imagens, que fizera na casa da Helena, exclamou agradecido: «Meu caro, está lindíssima. Muito obrigado». Não tinha ainda visto as imagens que Teresa Teixeira viria a fazer, de elevado profissionalismo, próprio do seu trabalho de fotojornalista, muito dele publicado na CNN. Alguém que ama fotografar pessoas e começou muito cedo a pintar e a estudar literatura. De recordar, que o seu âmbito, como fotógrafa, inclui: Fine Art Photography (APAF Associação Portuguesa de Arte Fotográfica, Lisboa), Técnica Fotográfica e Fotografia Contemporânea (Atelier de Lisboa) e Fotografia de Cena (ACE Teatro do Bolhão, Porto). Tivesse ele visto as imagens que ela fez, retomo o pensamento, e a sua expressão desenhar-se-ia no post-superlativo, no silêncio habitado do espanto. Dessas imagens podem todos ver algumas, através do álbum publicado no Facebook do Centro de Artes e Ofícios da Senhora Aninhas, sediado em Guimarães. Para melhor perceção do conjunto do paramento e de detalhes muito subtis, que ela captou de forma extraordinária, seria conveniente fazer uma publicação mais fornecida, sem excluir a impressa, que espero venha a concretizar-se. No final da ordenação, tendo presente a experiência usufrutuária dos paramentos, já para-além-das-imagens, a sua «enorme gratidão» traduziu-se nas seguintes palavras: «Senti-me muito bem e feliz neste ministério tão maior do que nós e de que todas as palavras. Sobre as vestes! A tua definição foi exata: é um magnífico e jubiloso campo de lírios. Houve reações de alguma perplexidade, mas sobretudo um coro de deslumbramento. O que mostra bem que o trabalho (que fazeis) é o parto do futuro». Perplexidade e deslumbramento, o que mais se poderia desejar de melhor? O conforto da unanimidade? Não existe. E ainda bem.



Imagem Casula, detalhe do Sebasto e Mitra de D. José Tolentino | Fotografia: Teresa Teixeira | D.R.

Imagem Casula, detalhe do Sebasto e Mitra de D. José Tolentino | Fotografia: Teresa Teixeira | D.R.

Imagem Casula, detalhe do Sebasto e Mitra de D. José Tolentino | Fotografia: Teresa Teixeira | D.R.

Porque se conta esta história, com informações pormenorizadas e tantos nomes? Porque é importante despoletar a permuta de referências, entre os crentes e não só, para nos valermos de ‘instâncias’ remanescentes, que condensam séculos, senão milénios, de saberes e, desejavelmente, podem ser ainda colocados ao serviço do enriquecimento da cultura presente, sem vacilarmos, resignados, ao frémito industrial e mercantilista focado apenas no retorno económico que mata valores civilizacionais. Bem recordaremos como neste tipo de transação de conhecimentos, entre os referentes da pastoral da cultura das dioceses, insistia José Tolentino, então secretário do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, nos encontros que se realizavam em Fátima. Desde há algumas décadas que se vive, em Portugal e não só, um problema muito sério quanto à qualidade da paramentaria litúrgica. Refiro a paramentaria, porque o assunto nos circunscreve neste texto, mas infelizmente a problemática afeta quase todas as artes que confluem na liturgia. É deveras deprimente, poderia mesmo usar o cenário da poluição, aquilo que se observa nas lojas de paramentos e objetos religiosos. Daí, o cuidado redobrado que os responsáveis hão de ter, quando têm de adquirir ou alguém aparece a oferecer ‘coisas destas’; gestos de generosidade para os quais não deve faltar a gratidão, mas que a delicadeza de apontar a qualidade, diferente, trabalhosa e demorada, abrirá ao doador outras formas de cuidar a formação e a vida litúrgica da comunidade. Notemos: a falta de qualidade observa-se até em Roma. Não é difícil encontrar, à volta do próprio Vaticano, casulas a 60 euros, no meio de T-shirts e recordações. Mesmo no ‘storico negozio’ De Ritis, famosa loja que se encontra entre o Largo di Torre Argentina e o Pantheon (quase ao lado do elefante de Bernini que inspirou o do brasão de D. José Tolentino), a qualidade desejada está longe do possível e dos preços praticados, por norma elevados.



Imagem D. José Tolentino com vestes episcopais | Fotografia: Arlindo Homem | D.R.

Este é, como referi, um problema com décadas. Basta recordar todo o esforço que se fez, durante o Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR) em Portugal, nomeadamente através do trabalho de Madalena Cabral, que deu frutos na evolução da casula; Rafaela Zúquete, que chegou a deslocar-se ao atelier de Stans, na Suíça, orientado por Sor Augustina Flüeler; e a União Noelista. O Arq. João Alves da Cunha oferece uma preciosa síntese deste notável esforço na sua tese de doutoramento: cf. João Alves da Cunha, MRAR, Movimento de Renovação da Arte Religiosa. Os anos de ouro da arquitetura religiosa em Portugal no século XX, Lisboa, Universidade Católica Editora, specie pp. 88-89, 101, 153, 158. Por justiça a Madalena Cabral, ainda que post mortem, reescrevamos o elogio que D. Albino Cleto, nessa altura ainda padre, redigiu acerca da sua paramentaria: «uma rara dignidade e beleza na elegância do corte, na extraordinária sobriedade dos ornatos e na nobreza do tecido» (Albino Cleto, «Uma exposição no Porto revela-nos uma Arte Sacra Moderna em Portugal», in Boletim de Informação Pastoral, ano I, n.4 [out-nov. 1959], 24). Numa reunião do MRAR, realizada no dia 5 de fevereiro de 1963, cujo tema versou sobre a paramentaria moderna, Madalena Cabral começou por referir, a partir de um texto de Marie-Alain Couturier op, a necessidade de cuidar e renovar este domínio da arte sacra. Tendo presente a urgência da mudança, reconhece que se teria de enfrentar obstáculos, que, por permanecerem em nossos dias, os transcrevemos: «as dificuldades de ordem financeira com que se debatem a maioria das paróquias; a falta de exigência que todos, clero e fiéis, temos sido levados num lento processo de desvirtuamento e aviltamento da veste sagrada, a industrialização e comercialização que lhe estão na génese, etc.» ("MRAR, Reunião de Estudo / Relato", MRAR – Boletim, 2ª Série, n. 18 [fev. 1963], 3).



Imagem Alva de linho e Estola de seda | Helena Cardoso prepara envio do paramento | Fotografia: Teresa Teixeira | D.R.

Imagem Alva de linho e Estola de seda | Helena Cardoso prepara envio do paramento | Fotografia: Teresa Teixeira | D.R.

Como haveremos de reconhecer, sem deixar contudo de mencionar exceções, que merecem o devido louvor (recordo, entre outras, a paramentaria da capela de Nossa Senhora de Fátima, em Barrocal do Douro, Picote, e a da igreja da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, que o Pe. Arlindo Cunha encomendou a tecedeiras de Viana do Castelo), encontramo-nos numa fase da história em que o «processo de desvirtuamento e aviltamento da veste sagrada» se acentuou. Para inverter este processo, gostaria de recordar palavras de um artigo de síntese, escrito pelo padre João Norton sj e publicado no site do SNPC, sobre dois protagonistas maiores do movimento litúrgico na Europa, Romano Guardini e Marie-Alain Couturier. Do padre Couturier, João Norton sintetiza assim o seu drama em relação à arte sacra, que, no fundo, deveria continuar a ser nosso: «No seu entender a mediocridade expressiva da celebração da fé, mediada por ambientes e obras de qualidade artística inadequada, estaria na origem de uma debilitação da força espiritual da liturgia, afetada por um espírito do tempo, funcional e materialista». Estamos persuadidos de que o paramento de D. José Tolentino será uma forma de resistência, pela positiva, a esta debilitação. Há que incentivar, dentro das possibilidades e com coragem, a mudança.

 

6. Na beleza descida, possibilidades equivalentes de revelação

De grata memória, o Papa Bento XVI encontrou-se, no dia 21 de novembro de 2009, com cerca de 260 artistas na capela Sistina. Tratou-se de uma iniciativa organizada pelo Cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, que mais do que assinalar os 10 anos da carta de João Paulo II aos artistas, pretendia desenvolver esforços no sentido de superar o divórcio que se estabeleceu entre a Igreja e o mundo artístico, divórcio aliás constatado já pelo Papa Paulo VI que, num encontro similar, pronunciou um célebre e inesquecível discurso. No diálogo que Bento XVI estabeleceu com eles, perguntava-lhes: «O que é que pode voltar a dar entusiasmo e confiança, o que é que pode encorajar o ânimo humano a reencontrar o seu caminho, a elevar o olhar além do horizonte imediato, a sonhar uma vida digna da sua vocação, se não a Beleza?». O padre José Tolentino, convidado enquanto poeta, lá estava presente e ouviu-a bem. E, mais tarde, nos seus escritos comentou-a nos seguintes termos: «Claramente, pela sua natureza, não é uma questão que só às gentes das Artes diga respeito: é um desafio lançado a todos. A questão da beleza é, de facto, absolutamente central à experiência cristã, à experiência cristã comum, repito, e é urgente que sintamos a necessidade de nos reconciliarmos com a Beleza» (José Tolentino Mendonça, O tesouro escondido. Para uma arte da procura interior, Lisboa, Paulinas, 2011, 67). Neste sentido, como aprecio voltar a um verso seu, do poema O esterco do mundo, «só a beleza pode descer para salvar-nos» (Mendonça, 178).

Este verso conduz-me a uma outra passagem, no caso, o último parágrafo da reflexão sobre «as imagens como lugar da interrogação de Deus», onde ele toca a questão do debate estético, dentro da expressão plural do cristianismo, para nos recordar: «A arte sacra contemporânea é muito diversa das peças que aqui podemos contemplar. Ela não escapa naturalmente à grande mutação do quadro filosófico assente no postulado kantiano, segundo o qual nenhuma arte pode representar o sublime. Toda a arte é chamada atualmente a trabalhar com os meios próprios da sua impotência. Não com a omnipotência, mas com o abaixamento, com a quenose. Não com a presença, mas com a ausência e o silêncio. E a fazer disso, como defende Massimo Cacciari, “não um afrouxamento, mas um contra-ataque”. Uma possibilidade equivalente de revelação» (Mendonça, "A leitura infinita", 70).



Imagem D. José Tolentino durante a celebração de ordenação | Fotografia: Arlindo Homem | D.R.

Imagem D. José Tolentino durante a celebração de ordenação | Fotografia: Arlindo Homem | D.R.

Para nos comprometermos com o desafio da qualificação da experiência cristã, que passa seguramente pela reconciliação com a beleza, com Cristo, que se apresenta como «belo pastor», seria oportuno recordar muitas das reflexões feitas por D. José Tolentino, que nos convida a depurar o interior, não perder certas imensidões, habitar perguntas, investir nas esperas e na lentidão, reaprender o espanto e o silêncio, degelar a vida, desejar ser inútil, dessacralizar o dinheiro, crer na possibilidade de transformação, transportar uma imagem de amor em nosso interior e não desistir de um grande amor, construir um jardim e sentar-se num dos seus bancos, não esquecer as lágrimas nem os espinhos, etc., etc., reflexões que nem sequer podemos enunciar pelos títulos, tantos são, mas que seria importante lermos atentamente na sua extensa bibliografia.



Imagem Brasão episcopal de D. José Tolentino

Imagem D. Alva e Casula de D. José Tolentino | Fotografia: Teresa Teixeira | D.R.

Em "O Hipopótamo de Deus", na página 47, José Tolentino, partindo novamente do repto de Bento XVI, sobre a beleza e a necessidade da Igreja celebrar a renovação de uma aliança criativa com o mundo das artes e os artistas, afirma que «não há razões para a Igreja realizar a sua missão (que tão intimamente se liga não só à Verdade e ao Bem, mas também à Beleza) de costas voltadas para os grandes criadores do seu tempo». E, na página sucessiva, em relação ao que é urgente na Igreja que está em Portugal, à qual ele tão generosamente serviu, e continuará a servir, com a sua obra literária e inúmeras iniciativas, sobretudo no âmbito do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura e na Universidade Católica Portuguesa, entre outras instituições, não deixa de ser exigente ao interpretar a ‘urgência’ como um necessário voltar de página: «A Igreja em Portugal precisa de um virar de página nesta matéria. Há ainda demasiados subprodutos que circulam numa espécie de contrafação estética e de ruído. Urge uma estação de exigência e o celebrar de um compromisso capaz de dar à nossa evangelização uma estética consistente, coerente e contemporânea».

Uma das prioridades, enraizada no tema da verdade, poética segundo Novalis, enquadra-a na sequência da preocupação de Jesus acerca da «escala do nosso olhar». E, de novo, ele nos liga ao esplendor dos lírios, numa exegese semelhante àquela explorada por D. Manuel Clemente na liturgia da sua ordenação episcopal: «Um dos grandes momentos poéticos do Evangelho é o conhecido apotegma sobre os lírios do campo» (…) «Se perdermos a capacidade de abrir os olhos e de nos extasiarmos perante o desabalado espetáculo do criado, perderemos o entusiasmo para o louvor. Há uma leveza que precisamos de aprender: uma transparência que dilata a alma. Que é, no fundo, aquilo que nos permite atravessar a noite, a adversidade e a contradição ligados à chama pequenina da esperança». (Mendonça, "O pequeno caminho das grandes perguntas", 36).

 

7. Blume, Giorgio Armani e São João da Cruz

Não posso concluir sem propor um novo momento poético, novamente à volta dos lírios, que, no paramento, vestiram de esplendor D. José Tolentino. Um dos poemas é para exaltar a sua mãe, ausente na celebração devido a debilidades; aquela que educou, segundo a escala de Deus, o olhar do seu filho a contemplar os furtivos lírios e outras flores mais, a construir um jardim em silêncio e cuidado. Eis o poema, intitulado A senhora Blume: «Minha mãe gosta das luzes acesas / mesmo quando dorme / depois é de uma distração flagrante // Ela diz que devemos cuidar da aveia do amor / e parece não ver que minto / sobre jeiras e despensas vazias // «Gosto do modo como as andorinhas esperam» / canta ela através do meu abandono // Minha mãe acha que ofereço roupagens de Salomão / em troca de fracas penas / porque se as palavras me disserem o que realmente guardam / (e ela carrega no se, como declarando em perigo a condição terrena) // estarei desprovido na mesma / melhor seria deixar truques que misturam / punhais e revelações // Seus olhos quando me olham / com uma miséria que dói / lembram o que se ouve de incertos mendigos / que algures escondem fabulosas somas» (Mendonça, 199). Ao que acrescentaria ela, citando palavras de Jesus: «E, não obstante o que eu ache, filho, não deixes de contemplar os lírios do campo, que “não trabalham nem fiam”; como sabes e estudaste, “nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles” (Mt 6,28-29)». E, mais ainda: «Grava, mesmo se de modo invisível, numa das paredes da Biblioteca Apostólica ou dos Arquivos Secretos do Vaticano, tanto faz, a tua lição: “Os farrapos de mendigos que interiormente nos vestem têm a beleza dos lírios: é essa a lição”. E, se de trocas te falei, não esqueças nunca aquele poema curto de Li Po: “Vende um dos teus pães e compra um lírio”, que tu glosaste algures em "O pequeno caminho das grandes perguntas"».



Imagem Helena Cardoso junto do paramento de D. José Tolentino | Fotografia: Teresa Teixeira | D.R.

O outro poema, intitulado "O silêncio", é para homenagear a Helena Cardoso, a Maria da Luz e tantas outras mulheres, que não têm a fama de Giorgio Armani, mas há muitos, muitos anos, que, com dignidade, de semelhança à poesia mística de S. João da Cruz, que tanto soube exaltar a beleza do criado, na fonte e de noite, vestem o mundo com o esplendor dos lírios e das ervas dos campos: «Regressamos a uma terra misteriosa / trazemos uma ferida / e o corpo ferido / imprevistamente nos volta / para margens mais remotas // Giorgio Armani tinha declarado / àquele jornal inglês: «o luxo desagrada-me, / é anti-democrático, / Quero agora homenagear os operários de todo o mundo» / eu só pensava em São João da cruz / enquanto ouvia pela enésima vez: / «a moda substituiu o luxo / pela elegância» // João da Cruz fala de coroas, / resplendores, casulas / véus de seda, relicários de ouro e / diamantes // para lá do jogo das nossas defesas / qualquer coisa interior / a intensa solidão das tempestades / os campos alagados, / os sítios sem resposta // o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços» (Mendonça, 176).



Imagem D. José Tolentino nos agradecimentos finais | Fotografia: Arlindo Homem | D.R.

Sabemos como, no final da liturgia da sua ordenação episcopal, D. José Tolentino agradeceu a confiança do Papa Francisco, e assumiu a sua missão como «a sede de olhar e ajudar os seus semelhantes a olhar os lírios do campo». E porque de reconciliação precisamos tanto, nomeadamente com a beleza, não esqueçamos de nos lembrar: «talvez precisemos de nos reconciliar com a nossa sede, dizendo mais vezes: “a minha sede é a minha bem-aventurança”» (José Tolentino Mendonça, Elogio da sede, Lisboa, Quetzal, 2018, 157).

Post Scriptum: Sugeria, para quem assim o entender, que apreciasse o "slideshow" das imagens dos paramentos (com mais do que aquelas que ilustram o texto, colocadas na parte final), ao som de música, não do órgão da igreja da Lapa, que de longe conferiu solenidade no momento de apreciar o vitral da casula de D. José Tolentino, mas do órgão histórico de Saint-Savin, um dos mais antigos de França, no qual o organista holandês Sietze De Vries interpreta uma belíssima improvisação.











 

Joaquim Félix
Imagem de topo: Arlindo Homem | D.R.
Publicado em 21.08.2018

 

 
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