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Visita Bento XVI a Portugal

Encontro do Papa com o mundo da cultura: "O mais importante é a abertura da Igreja para contactar os agentes criativos"

Pintores, actores, escritores, músicos, cientistas, académicos, representantes de outras religiões e das igrejas reformadas. Serão 1300 os convidados, vindos de várias zonas do País, que vão encher o Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para ouvir, na próxima quarta-feira, Bento XVI. O que esperam deste encontro?

 

Rui Vieira Nery

"Aceitei porque sou católico e para mim é um dia de festa poder encontrar-me com o Sumo Pontífice da minha Igreja", diz, pausadamente e sem hesitações, Rui Vieira Nery, musicólogo e ex-secretário de Estado da Cultura, a propósito do encontro de Bento XVI com os representantes da cultura. Apesar desta afirmação, faz a ressalva, logo a seguir: "Não estou em absoluta sintonia com todas as linhas programáticas da Igreja, mas isso não me impede ter um sentimento de filiação para com ela".

Rui Vieira Nery

Rui Vieira Nery considera que este Papa "tem reforçado o papel da cultura e da herança cultural na Igreja, coisa que nem sempre sucede na igreja portuguesa, um pouco por má leitura do Concílio Vaticano II". Gostaria por isso que este fosse um dos assuntos abordados pelo Papa no seu discurso, que deverá durar 20 a 25 minutos.

 

Emília Nadal

Também a pintora Emília Nadal não teve dúvidas quando recebeu o convite para ir ao CCB. "O encontro do Papa Bento XVI com representantes da cultura, em Lisboa, oferece a oportunidade de ouvir em directo a expressão do pensamento filosófico e teológico de Joseph Ratzinger", diz Emília Nadal, directora da Sociedade Nacional de Belas Artes, que, tal como todas as pessoas ouvidas pelo Diário de Notícias, sublinha a "estatura intelectual" deste Papa, que tem demonstrado uma preocupação em "procurar pontos de contacto entre o pensamento cristão e a mundividência contemporânea" - algo que a pintora, que integra o Renovamento Carismático e Católico e é, simultaneamente, uma simpatizante do Movimento Nós Somos Igreja, muito preza.

Emília Nadal

Na sua opinião, Bento XVI "não ignora as dificuldades que decorrem das tensões entre a Igreja e os meios culturais e mediáticos, nas áreas do pensamento científico e no campo das ideias". Por isso, Emília Nadal tem esperança que a mensagem do Papa "seja dialogante": "Porque a relação vital entre a fé e a razão, que Bento XVI tem preconizado, integra as circunstâncias históricas e culturais que são as nossas, como cidadãos e seres pensantes, sejamos crentes ou não."

 

Pedro Calapez

"Crente pouco praticante", o artista plástico Pedro Calapez tem o seu nome associado à Igreja, uma vez que é ele o autor dos painéis na porta principal da nova igreja de Fátima. "Não costumo ir à missa, mas sempre tive uma relação muito boa com algumas pessoas da Igreja que mostram abertura para dialogar e para falar sobre estes assuntos da ligação entre a criatividade e a espiritualidade", conta. É essa abertura que lhe parece mais importante neste encontro com Bento XVI. "A selecção de convidados é muito abrangente e não foram postas quaisquer condições. O mais importante aqui é a disponibilidade demonstrada pela Igreja em contactar com os agentes criativos, reconhecendo a sua importância. Há a intenção de, pelo menos simbolicamente, fazer participar os agentes da cultura nesta visita do Papa e essa atitude pareceu-me interessante."

Pedro Calapez

 

Alice Vieira

A escritora que está a comemorar os 30 anos de carreira é uma das 16 personalidades que, no final da cerimónia, vão participar num encontro mais restrito com Bento XVI. "Achei que não tinha motivo nenhum para recusar. Para muitos de nós, mais importante do que ser o Papa é ser um chefe de Estado", sublinha. Nesse encontro mais privado, vão participar também representantes de outras religiões, o que, segundo a autora, é um óptimo sinal por parte de Bento XVI. Não será uma conversa, mas, ainda assim, Alice Vieira revela o seu entusiasmo. "Este já é o terceiro Papa que eu vou ver de perto", conta, pois em idas anteriores a Roma chegou a ver João XXIII ("quando era ainda miúda") e também João Paulo II.

Alice Vieira

"Sou católica, mas não vou à missa todas as semanas. Vou quando tenho vontade e dependendo do padre que fala. Há pessoas que gosto de ouvir." Ultimamente, por exemplo, tem ido à Capela do Rato para ouvir o padre (e também poeta) Tolentino Mendonça, que é um dos principais organizadores deste encontro. Em relação a Bento XVI, Alice Vieira respeita o seu papel como intelectual e elogia a iniciativa do Papa em se encontrar com os intelectuais: "É importante, independentemente da religião das pessoas que participam, porque o que define um país é a cultura."

 

Pedro Mexia

Pedro Mexia, escritor e subdirector da Cinemateca Portuguesa, é católico, mas mesmo que não fosse não teria nenhum problema em participar neste encontro. "Este Papa desperta um certo interesse mesmo nos não católicos pela sua faceta intelectual", afirma o também encenador da peça "Agora a "sério. "Apesar de, em termos doutrinários, ser um Papa que segue uma linha mais conservadora e, por isso, menos popular do que o seu antecessor, Bento XVI tem estabelecido um diálogo interessante com os meios culturais, nomeadamente na Itália e na Alemanha."

Pedro Mexia

No entanto, e isso é consensual entre as pessoas que vão participar no encontro, mais importante do que as palavras que serão proferidas pelo Papa é o facto de Bento XVI ter manifestado o interesse em falar directamente com os agentes da cultura em Portugal. Como diz Mexia: "Este encontro tem um lado cerimonial e simbólico. Mais importante do que o que será dito é o próprio interesse que há por parte do Papa e o sinal que isso dá a um meio que geralmente não é muito simpático para com a Igreja como é o meio artístico e intelectual." A Igreja, pelo menos em Portugal, "não costuma ter interesse nesse diálogo com as pessoas da cultura", e daí a relevância da sessão.

 

Lídia Jorge

Lídia Jorge

"Acho-o uma figura enigmática", diz a escritora Lídia Jorge sobre Bento XVI. "Por um lado, do ponto de vista intelectual tem dito coisas bastante interessantes, nomeadamente na sua encíclica "Deus Caritas Est", que é muito iluminada e de uma grande abertura, por outro lado, do ponto de vista pastoral tem tido uma atitude muito conservadora." Nos tempos que correm, difíceis para a Igreja, Lídia Jorge admite que não é fácil ser crente. E, também por isso, concorda com Mexia: "Esta é a audiência mais difícil que ele pode ter e acho que o Papa sabe disso." É por isso com bastante curiosidade que a autora vai estar no CCB. "As pessoas da cultura são geralmente muito críticas. Aceitei o convite para ir ao encontro porque a religião acredita e a cultura duvida, mas ambas têm em comum defender certos valores imateriais que ajudam as pessoas a superar-se, e por isso, de vez em quando, devem encontra-se. Mesmo quando não se encontram, coabitam e são sempre contemporâneas. Não devem desconhecer-se. Aprendi isso com T. S. Eliot e acho que, nesse aspecto, continua moderno."

 

Maria João Caetano
In Diário de Notícias
© SNPC | 09.05.10

Bento 16
Foto: Christus Vincit

 

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