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Diálogo inter-religioso e intercultural

Lisboa, cidade de diálogo, tolerância e perdão

O Largo de S. Domingos, em Lisboa, recebeu recentemente três memoriais relacionados com o diálogo entre religiões e culturas.

 

A escultura da Igreja Católica

No ano 2000, decorriam os preparativos para o encontro inter-religioso “Oceanos de Paz”, promovido pelo Patriarcado de Lisboa, a Comunidade de Santo Egídio e a Fundação Mário Soares, quando os organizadores depararam com um problema. Estava previsto que o cortejo final, através da Baixa da cidade até à Praça do Município, partisse do Largo de S. Domingos, mas o representante da comunidade judaica manifestou o seu desagrado pelo ponto de partida, atendendo às memórias do massacre associadas ao local.

A dificuldade foi superada quando o Patriarca de Lisboa propôs um gesto e umas palavras de reconciliação, na linha da “purificação da memória” pedida por João Paulo II para esse ano Jubilar.

O P. Peter Stilwell, director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e do Departamento das Relações Ecuménicas e do Diálogo Inter-religioso do Patriarcado de Lisboa, analisa nestes termos a escultura da Igreja Católica:

“A peça (...) é constituída por duas colunas de pedra, unidas por uma faixa em metal, na qual se encontram inscritas as palavras pronunciadas no Largo de S. Domingos pelo Patriarca de Lisboa no âmbito do encontro inter-religioso “Oceanos de Paz” (26/9/2000). Nos dois extremos, vêem-se a pomba da paz, utilizada como símbolo em toda a divulgação desse encontro, e a Arca de Noé, de onde ela foi enviada sobre as águas do Dilúvio.

Para quem sai da Igreja de S. Domingos, a escultura reflecte a cruz inscrita no pavimento do largo e anuncia aos crentes, de partida para a cidade, como a fé cristã os chama a ler a partir do olhar da vítima os acontecimentos do passado e do presente, nomeadamente aqueles que mancham a memória deste lugar.

Para quem olha a Igreja de S. Domingos através da escultura, a cruz transforma-se na porta estreita de acesso á comunhão com os que procuram ser ‘verdadeiramente filhos do Pai que está nos céus’ e ‘fazem quanto deles depende para estarem em paz com todos’.

No extremo sul da escultura, a Arca de Noé evoca, para quem atravessa a praça, o momento na tradição judaica e cristã em que toda a humanidade foi uma única família. Com Noé, sua família e todos os seres vivos Deus estabeleceu uma aliança de bênção, de que o Arco Íris é um sinal; mas avisou que ‘ao homem pedirei contas da alma do homem, seu irmão’. A tradição rabínica vê neste episódio da Bíblia o fundamento para a sua relação fraterna com todos os povos e nações. A tradição cristã vê nela uma prefiguração da assembleia fraterna de toda a humanidade, congregada e salva pela misericórdia de Deus, de que a Igreja é chamada a ser sinal ou sacramento.

No extremo norte da escultura, a pomba toma no bico um ramo de oliveira que floresce entre a peça da comunidade judaica e a peça da comunidade católica e leva-a como sinal de Esperança para a cidade.”

Uma das faces da faixa em metal contém as seguintes palavras do Patriarca de Lisboa: “Irmãs e irmãos caríssimos, este centro de Lisboa, onde hoje fraternalmente nos abraçamos, foi no passado palco de violências intoleráveis contra o povo hebreu. Nem devemos esquecer, neste lugar, a triste sorte dos ‘cristãos novos’: as pressões para se converterem, os motins, as suspeitas, as delações, os processos temíveis da Inquisição. Como comunidade maioritária nesta cidade, há perto de mil anos, a Igreja Católica reconhece profundamente manchada a sua memória por esses gestos e palavras, tantas vezes praticados em seu nome, indignos da pessoa humana e do Evangelho que ela anuncia.”

 

A Matança da Páscoa

A chamada Matança da Páscoa ocorreu em 1506. Entre duas e quatro mil pessoas terão sido mortas por serem judias. O país e a cidade viviam um período de seca prolongada com surtos de peste quanto, a 19 de Abril, alguém na igreja do Convento de S. Domingos, na baixa de Lisboa, afirmou ter visto o rosto de Cristo iluminado sobre um dos altares – sinal auspicioso da misericórdia divina e de futura bonança. Outro circunstante terá duvidado, considerando tratar-se de um simples reflexo do sol. Imediatamente identificado como cristão-novo, foi agredido pela multidão e espancado até á morte.

Um frade dominicano inflamou ainda mais os ânimos, prometendo 100 dias de indulgências a quem matasse os hereges. Durante três dias dessa Semana Santa, bandos de cidadãos percorreram Lisboa, pilhando, violando e matando judeus convertidos ao cristianismo na sequência do decreto real de 1497.

A corte estava fora da capital e as primeiras tentativas do rei D. Manuel para controlar a situação revelaram-se infrutíferas, até que a morte de um seu escudeiro, vítima dos tumultos, precipitou o envio de tropas reais, que puseram cobro aos desmandos. O rei mandou confiscar os bens dos responsáveis, o dominicano envolvido foi condenado à morte e o Convento terá sido fechado durante alguns anos.

 

Lisboa, cidade da tolerância

A Câmara Municipal de Lisboa associou-se a estas iniciativas mediante a colocação no local de uma placa alusiva ao acontecimento e de um mural que propõe Lisboa como “cidade da tolerância”.

 

Veja as fotografias dos memoriais
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Artigo relacionado:
Diálogo, tolerância e perdão entre a Igreja Católica e a Comunidade Judaica

 

P. Peter Stilwell | Patriarcado de Lisboa ! SNPC

05.05.2008

 

 

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