Evangelii gaudium
Exortação "A alegria do Evangelho" é muito mais inovadora do que parece, considera presidente do Centro Nacional de Cultura
O presidente do Centro Nacional de Cultura, Guilherme d’Oliveira Martins, considera que o texto da primeira exortação apostólica do papa Francisco, “Evangelii gaudium” (A alegria do Evangelho), é «muito mais inovador do que à primeira vista possa parecer».
Em artigo enviado ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, o também presidente do Tribunal de Contas sublinha que o documento obriga a «repensar a crise do compromisso comunitário», orientação que constitui uma prioridade no atual contexto de dificuldades financeiras.
A «crise económica» implica a «recusa de uma economia de exclusão, da idolatria do dinheiro, de um dinheiro que governa em vez de servir, de desigualdades sociais que propiciam o risco da violência e do real que cede lugar às aparências e às ilusões», frisa Guilherme d’Oliveira Martins.
A boa semente…
Guilherme d’Oliveira Martins
Muitos têm sido os comentários à “Exortação Apostólica” do Papa Francisco, ainda que muitos tenham afirmado que não há grandes novidades neste texto muito denso e rico de reflexões sobre o mundo atual. O documento, significativamente intitulado “Evangelii Gaudium”, é, porém, muito mais inovador do que à primeira vista possa parecer. Antes do mais, pelo registo direto e pela linguagem acessível que contém, mas também pelo modo como abre pistas e veredas novas para a reflexão e para o espírito crítico dos cristãos. É, pois, um documento com uma força própria e diferenças significativas relativamente a outros. Oiçamo-lo no seu início: «o grande risco do mundo atual, com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada» (E.G.,2).
Se seguirmos atentamente o texto, encontramos reflexões sobre a alegria que se renova e comunica, a doce e reconfortante alegria de evangelizar, a nova evangelização para a transmissão da fé, e depois a entrada para os temas fundamentais da Exortação: a começar na transformação missionária da Igreja, a partir da noção de uma Igreja em saída e do uso de um neologismo que obriga a pensar – primeirear, que significa tomar a iniciativa (no desejo de oferecer misericórdia, em virtude da experiência da misericórdia infinita do Pai) – bem como de uma pastoral feita de conversão, isto é, de uma maior fidelidade à vocação própria das pessoas. No fundo, a missão encarna nas limitações humanas, considerando que a Igreja é Mãe e Mestra, de coração aberto. Está, assim, em causa repensar a crise do compromisso comunitário, o que é tanto mais importante quanto é certo que a crise económica, cujos efeitos vivemos, obriga à recusa de uma economia de exclusão, da idolatria do dinheiro, de um dinheiro que governa em vez de servir, de desigualdades sociais que propiciam o risco da violência e do real que cede lugar às aparências e às ilusões.
«Torna-se necessária uma evangelização que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente, e que suscite os valores fundamentais» (E.G.,74). Daí a necessidade de uma espiritualidade missionária que se demarque do pessimismo estéril e abra caminho às novas relações geradas por Jesus Cristo. «O mundanismo espiritual que se esconde por detrás de aparências de religiosidade» (E.G.,93) tem de dar lugar ao reconhecimento de um protagonismo responsável que ponha os leigos num lugar que assuma maiores e mais efetivas responsabilidades, enquanto a mulher tem de ocupar um lugar mais interveniente. «A Igreja reconhece a indispensável contribuição da mulher na sociedade, com uma sensibilidade, uma intuição e certas capacidades peculiares, que habitualmente são mais próprias das mulheres que dos homens» (E.G.,103). Daí que «As reivindicações dos legítimos direitos das mulheres, a partir da firme convicção de que homens e mulheres têm a mesma dignidade, colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir superficialmente» (E.G.,104). Afinal, todo o povo de Deus anuncia o Evangelho, como povo de muitos rostos, em que todos somos discípulos missionários e em que não podemos esquecer a força evangelizadora da piedade popular. «A diversidade deve ser sempre conciliada com a ajuda do Espírito Santo; só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade» (E.G.,131).
E se falamos do anúncio (ou querigma), referimo-nos ainda à valorização progressiva da experiência formativa e a uma valorização dos sinais litúrgicos da iniciação cristã. O anúncio da “Palavra revelada” obriga, com efeito, a que nos aproximemos de Deus com maturidade e exigência. «O nosso compromisso não consiste exclusivamente em ações ou em programas de promoção e assistência; aquilo que o Espírito põe em movimento não é um excesso de ativismo, mas primariamente uma atenção prestada ao outro ‘considerando-o como um só consigo mesmo’» (E.G.,199). Eis por que razão esta “exortação apostólica” é muito mais inovadora do que à primeira vista pode parecer. Há um forte apelo ao compromisso e à compreensão dos novos sinais dos tempos e da dignidade da pessoa humana e, por isso, o Papa relembra com especial ênfase: «Acreditamos no Evangelho que diz que o Reino de Deus já está presente no mundo, e vai-se desenvolvendo, aqui e além de várias maneiras: como a pequena semente que pode chegar a transformar-se numa grande árvore (cf. Mt 13,31-32), como o punhado de fermento que leveda uma grande massa (cf. Mt 13,33), e como a boa semente que cresce no meio do joio (cf. Mt 13,24-30) e sempre nos pode surpreender positivamente: ei-la que aparece, vem outra vez, luta para florescer de novo. A ressurreição de Cristo produz por toda a parte rebentos deste mundo novo; e, ainda que os cortem, voltam a despontar, porque a ressurreição do Senhor já penetrou a trama oculta desta história; porque Jesus não ressuscitou em vão. Não fiquemos à margem deste caminho da esperança viva!» (E.G.,278).
Guilherme d'Oliveira Martins
Presidente do Centro Nacional de Cultura
© SNPC |
05.12.13

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