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Abertura dos Arquivos do Vaticano sobre Pio XII é «acontecimento cultural relevante»

Abre-se [a 2 de março] a parte das cartas dos Arquivos do Vaticano respeitante a Pio XII. É um acontecimento cultural relevante para a história contemporânea da Igreja, preparado com cuidado e inteligência pelos funcionários vaticanos. Abrem-se importantes perspetivas de investigação. Com efeito, o Vaticano de Pio XII foi uma ilha de liberdade e confiança na paz numa Europa queimada pelas paixões do conflito e pela violência. Sobretudo entre setembro de 1943 e junho de 1944 foi, verdadeiramente, uma realidade única na Europa ocupada pelos nazis.

No segundo pós-guerra, o Vaticano acompanhou com ansiedade os acontecimentos da Europa ocupada pelos comunistas, trabalhou para a reconstrução no Ocidente, favorecendo uma Europa coesa. Da Cidade do Vaticano serão seguidos os desenvolvimentos no grande Sul, o mundo das colónias que despertava para a busca do seu lugar e da sua independência. Os Arquivos do Vaticano, após 1939, conservam escrupulosamente os traços destes acontecimentos.

Não se creia que se trata de materiais úteis apenas para a história da Igreja. São também um testemunho único para a História, política e social, além de religiosa: uma das grandes fontes para a escrita da história do século XX.

Seria um erro, todavia, limitar o interesse a Pio XII durante a segunda guerra mundial à denominada questão dos “silêncios”, que tanto ocupou o interesse geral. A expressão “silêncios” conheceu popularidade com o drama de Rolf Hocchut, “O vigário”, editado em 1963. Abriu-se então a questão do comportamento do papa em relação à “Shoah”.



Há muito mais a descobrir nos Arquivos do Vaticano, até pelo carácter de original observatório do mundo, assumido pela Santa Sé. Há a descobrir a transição do catolicismo, sob a orientação de Pio XII, de um mundo ainda eurocêntrico a outro mais complexo e policêntrico



Na verdade, a questão dos silêncios remonta a anos atrás. Foi Pio XII a usar a expressão «silêncio» num colóquio com monsenhor Roncalli, em 1941, a quem perguntou se não era mal avaliado por isso. O escritor francês François Mauriac, introduzindo, em 1953, um livro de Léon Poliakov, falava dos «silêncios do papa e da hierarquia».

Novos documentos enriquecem agora esta problemática, mas de um ponto de vista historiográfico a questão já foi delineada: o papa Pacelli opta por trabalhar pela paz, oferecer asilo e ajuda ao ponto de muito arriscar, mas não assume uma posição de condenação direta, segundo uma estratégia consolidada. Podem avaliar-se, de modos diferentes, estas opções, mas é a realidade histórica.

Há muito mais a descobrir nos Arquivos do Vaticano, até pelo carácter de original observatório do mundo, assumido pela Santa Sé. Há a descobrir a transição do catolicismo, sob a orientação de Pio XII, de um mundo ainda eurocêntrico a outro mais complexo e policêntrico.

Abre-se a grande questão chinesa, da China comunista, que não tem relações com a Santa Sé desde a revolução comunista: um processo que durou mais de meio século. A Índia torna-se independente, e as colónias francesas da Indochina conhecem conflitos e desenvolvimentos. Mais em geral, o mundo muda muito.



Abre-se agora um tempo em que se descobrirão cachas com o achamento de algumas cartas no Vaticano. É de esperá-lo. Mas o historiador sabe que um documento não faz a história nem revira a historiografia



Pio XII tem uma consciência precisa das mudanças: homem da tradição, não se fecha numa lógica de fortaleza. Examina as novidades, como a experiência dos padres operários em França (ainda que em 1954 tenha ordenado o seu fim); insiste no facto de que a Igreja não se identifica apenas com a civilização ocidental, ainda que tema a afirmação do bloco comunista.

É decisivo que se abramos arquivos sobre este período. Não é uma novidade, como muitas vezes escrevi, observar o desalinhamento e o retardo desta abertura em relação a outros grandes arquivos estatais do mundo. Conhecemos os motivos sérios, mas não podemos não constatar como a historiografia contemporânea sobre Pio XII se consolidou sem o suporte das fontes fundamentais. É uma realidade, que não é do interesse da historiografia e da própria Igreja, sobre a qual seria necessário refletir.

Todavia, perante uma historiografia consolidada, abre-se agora um tempo em que se descobrirão cachas com o achamento de algumas cartas no Vaticano. É de esperá-lo. Mas o historiador sabe que um documento não faz a história nem revira a historiografia. Na realidade, a abertura dos arquivos sobre Pio XII é uma oportunidade para considerar de maneira mais documentada o pontificado e a história do período.

A decisão de abertura da parte do papa Francisco é muito significativa: convida a Igreja a dar, na sua consciência, mais espaço à história. Marc Bloch, historiador francês da escola dos “Anais”, recordava: «O cristianismo é essencialmente uma religião histórica». Uma Igreja, amiga da história, sabe falar melhor de esperança e de futuro. Sobretudo é uma Igreja que ensina a ler os «sinais dos tempos», sobre os quais os Vaticano II tanto insistiu. Este exercício é uma carência da nossa cultura e da vida eclesial.

Paulo VI advertia assim: «Esta locução, “os sinais dos tempos”, adquiriu um uso corrente e um significado profundo, muito amplo e muito interessante; ou seja, é o da interpretação teológica da história contemporânea… É a antiga e sempre viva palavra do Senhor que ressoa nos nossos espíritos: “Vigiai”. A vigilância cristã seja a arte para nós no discernimento dos “sinais dos tempos”».

O acontecimento da abertura dos Arquivos do Vaticano, sob a orientação de um intelectual sagaz como o cardeal Tolentino, só pode ser um significativo facto cultural, que se reverbera na perspetiva com que os cristãos leem o seu tempo.


 

Andrea Riccardi
Historiador
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Pio XII | D.R.
Publicado em 20.02.2020

 

 
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