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A atmosfera pós-moderna

Mas não é só com a modernidade que a evangelização se confronta hoje. A complexificação da ciência moderna afastou-a da finalização metafísica, repartindo-a por coerências e performatividades parciais e, para muitos, bastantes. Foi nesse sentido que Lyotard considerou pós-moderno “o estado da cultura após as transformações que afectaram as regras dos jogos da ciência, da literatura e das artes a partir do fim do século XIX”, resumindo-o como “a incredulidade em relação às metanarrativas”.

Para mais, a história já teria atingido o seu objectivo, ao realizar as duas grandes motivações do processo histórico, que Fukuyama sintetiza com Hegel no desejo humano - em relação ao que necessita para se manter e crescer - e no reconhecimento que o homem espera dos outros em relação à sua própria dignidade. Ambos se realizariam na democracia liberal, que, sendo o termo da evolução ideológica da humanidade e a forma final de governo humano, constituiria o fim da história.

O desaparecimento das finalidades trará alguma melancolia; mas julgada melhor do que as ingenuidades modernas em relação ao progresso e ao futuro, tão manipuladas e ilusórias. Se os modernos, acreditando no futuro, se sacrificavam por ele, os pós-modernos preferem desfrutar hedonistamente o presente, cumprindo o carpe diem horaciano. Sem nada esperar do futuro nem nada dever ao passado, viverão o presente bastante ou possível, inaugurando “uma sociedade sem base de ancoragem nem opacidade” (G. Lipovetsky).

A diluição da história no presente de cada um concentra a atenção no eu e no imediatamente gratificante: “No mundo dos homens o gozo é alfa e ómega, princípio e fim (Esperanza Guisán, Manifesto hedonista). Enquanto a modernidade se identificou com um Prometeu libertador e progressivo e os meados do século com um Sísifo absurdo (Camus), a pós-modernidade prefere Narciso e o auto-enamoramento.

Rovira I Belloso alarga o entendimento pós-moderno às várias áreas da sociedade e da cultura, definindo o respectivo individualismo como neoliberalismo, como autodeterminação desconfiada do colectivo, solidário ou autoritário, e como niilismo sem outra finalidade que não seja a emancipação do individual-concreto, na esteira de Nietzsche.

As «grandes causas» de ontem podem ser irrisórias hoje: a pós-modernidade identificar-se-á com “a dessubstanciação humorística dos critérios sociais maiores” (G. Lipovetsky).

É difícil a afirmação ética geral na ambiência pós-moderna, com a concentração desta no indivíduo e no presente; quando muito, ficará alguma estética, melhor traduzida por gostos e modas. Secundarizada fica também a razão, ultrapassada pela disposição momentânea. González-Carvajal pode escrever que o homo sapiens foi destronado pelo homo sentimentalis, ou substituir com Kundera o «penso, logo existo» cartesiano pelo «sinto, logo existo», mais actual. Sentimento imediato e por isso pouco ou nada mobilizador da vontade: “‘tudo o imediatamente’ e já não per aspera ad astra”, resume Lipovetsky. As posições tomam-se ocasionalmente e assumem-se sem coerência maior, tornando-se o pensamento débil e fragmentário: “Eu, aqui e agora, digo isto” (González-Carvajal).

Gianni Vattimo lembra que, em Nietzsche, Deus morre com a desistência das causas últimas, o que sucede quando as condições da existência humana se tornam menos violentas e, sobretudo, menos patéticas, residindo nesta alegada superfluidade dos valores últimos a raiz do niilismo completo. Niilismo que redunda em individualismo pontual e vazio, segundo Rovira: “Não temos de chegar a nenhum objectivo, porque o homem não tem outro destino senão chegar a ser aquilo que já é”.

Dispersam-se as vivências e abandonam-se as coesões; guiado pelo sentimento, o pós-moderno não se importa com a multiplicidade das lógicas, nem com a pluralidade das personagens no mesmo sujeito. A imensidade das sugestões leva-o a uma “vagabundagem incerta de ideia para ideia” (G. Lipovetsky).

Fragilidade das convicções, fragilidade das relações, tornadas estas igualmente vagabundas... Humorização geral, resultante dum relacionamento sem dimensão colectiva, “quando já ninguém, no fundo, acredita na importância das coisas” (G. Lipovetsky).

Não há obviamente lugar para uma socialização (valorização) universal e estável, quando o todo se pulveriza em microcolectividades heterogéneas; nem para uma coerência longa ao nível individual: “o indivíduo pós-moderno é um indivíduo desestabilizado e de certo modo "ubiquista" [...] consagrado ao self-service narcísico e a combinações caleidoscópicas indiferentes” (G. Lipovetsky).

Na religião como no mais, a disponibilidade para pegar, largar e combinar é total. A modernidade acreditava no que julgava comprovado, ou cientificamente admissível; a pós-modernidade alarga o âmbito da crença, continuando - ainda aqui - assistemática. Porém, agora, depararemos mais facilmente com a integração da religião no circuito variável dos consumos do que com a reafirmação sólida dum culto ou duma doutrina. Combinam-se elementos religiosos vários e até contraditórios, de acordo com a disposição pessoal e sucessiva: “É-se crente mas à lista [...] [n]um cocktail individualista do sentido de acordo com o processo de personalização” (G. Lipovetsky).

A evangelização tem de ter em conta os contornos ambíguos da mentalidade corrente. Rovira I Belloso define como “filhas da modernidade e da pós-modernidade” a secularidade tendencialmente secularista, a liberdade sem referência a Deus e o neo-individualismo descomprometido. Mas é neste contexto que urge apresentar Deus como potenciador da realização humana e não como seu limitador; “como aquele que cria, invariavelmente, no plano ético ou estético, uma ruptura com o pensamento imanente e abre o humanismo às suas últimas consequências” (A. Pinho).

A apetência pós-moderna de experiência, festa e beleza, deve encontrar resposta numa evangelização que valorize a prática orante de aproximação a/de Deus, a linguagem narrativa e não só conceptual, a dimensão festiva da conversão evangélica e a estética litúrgica autêntica. É forçosa a apresentação potenciadora e alegre do Evangelho - respondendo de vez à crítica do Zaratrusta nietzschiano sobre o ar funéreo dos cristãos - e a afirmação duma moral que é caminho para a felicidade: “as coisas não são boas ou más porque Deus as mande ou as proíba, antes as manda porque são boas e as proíbe porque são más” (González-Carvajal).. A bondade resplandece e as renúncias fazem-se quando se encontra um bem maior.

Hoje só «a partir das minúsculas» se pode abrir caminho para a transcendência; mas foi nas minúsculas duma vida humana que Deus se autocomunicou ao homem. Como sempre - ou mais do que nunca? - a palavra é acreditada pela vida que gera, e a verdade já não é fruto da reflexão solitária mas da comunicação interpessoal no reconhecimento mútuo. O próprio Deus não é buscado como algo que se acrescente a cada um, mas é acolhido como presença originante e valorizadora da pessoa: Deus não é o supletivo das incapacidades humanas, mas o próprio centro da liberdade e da criatividade do crente.

 

D. Manuel Clemente
Bispo do Porto, Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais
In 1810-1910-2010. Datas e desafios, Ed. Assírio & Alvim
26.05.09

Capa

1810-1910-2010
Datas e desafios

Autor
Manuel Clemente

Editora
Assírio & Alvim

Páginas
174

Ano
2009

ISBN
978-972-37-1407-4





















































































 

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