

O nascimento com a adoração dos pastores (det.) | Giorgio Vasari | C. 1554É talvez um mistério se e como os muçulmanos festejam o Santo Natal de Jesus? Na realidade, seria necessário recordar-lhes que o nascimento de Jesus é expressamente mencionado no Corão e representa verdadeiramente um mistério e um milagre que se inicia a partir da extraordinária pureza da sua mãe Maryam, cujo nascimento é imaculado também segundo a tradição islâmica.
Assim, em muitos países do mundo árabe e asiático, cidadãos cristãos e muçulmanos partilham a sensibilidade por momentos “santos” que cada doutrina ensina e festeja de modo diferente, mas que, no caso do nascimento de Jesus, deveria ser uma ocasião de renovada fraternidade entre cristãos e muçulmanos também no Ocidente.
Talvez tudo isto fosse suficiente para sensibilizar até alguns dirigentes académicos que (…) abusam do pretexto das diferenças religiosas para criar um “Natal atenuado” com a “integração” de elementos e notas daqueles que diluem a identidade autêntica deste evento e acontecimento histórico e espiritual, confundindo assim o culto com o “multiculturalismo” e o valor universal com um artificial “universalismo” laicista.
Este ano, uma coincidência faz-nos refletir: o calendário lunar islâmico, que é mais curto do que o gregoriano, faz coincidir a véspera do Santo Natal de Jesus com o nascimento de Muhammad, o profeta servidor mensageiro do islão. “Mawlid Nabawiyy”, o nascimento profético, é o termo islâmico que é comummente usado para esta festa muçulmana que comemora o nascimento do selo da Profecia, como é chamado Muhammad, último de uma cadeia profética que começa por Adão, passando por um sucessão abençoada na qual são mencionados Noé, Abraão, Ismael, Isaac, Jacob, José, Moisés, Aarão, João Batista e Jesus, cuja qualidade espiritual extraordinária reconhecida pelos mestres.
É paradoxal que o fundamentalismo islamita, além de negar o culto dos santos e profanar as suas obras, túmulos e mesquitas, negue até a festividade do nosso Profeta com a desculpa de um puritanismo que já vimos noutras épocas históricas.
Para celebrar respeitosamente e dignamente este duplo acontecimento natalício, os muçulmanos devem evitar que aquela componente ambígua de agitadores políticos do radicalismo possa criar contraposições artificiais ou competições tolas entre festas, figuras proféticas e santas, confissões religiosas e identidades culturais.
O que os nossos jovens muçulmanos (…) podem verdadeiramente celebrar e testemunhar é o mistério de Deus que une neste dia de festa dois ciclos de calendários diferentes, o nascimento de dois mestres de espiritualidade que deram origem a duas comunidades de crentes.
Permitir que esta “véspera de Natais” seja uma ocasião excecional para honrar este mistério e estes mestres, que têm a sua função específica sagrada e de ensinamento ritual, pode talvez ajudar todos os crentes a colher também o profundo milagre da fraternidade e da partilha no amor de Deus e do próximo, um amor sem descontos, sem consumismo e sem confusões, mas verdadeiro amor pelo Misericordioso.
Yahya Pallavicini
O nascimento com a adoração dos pastores (det.) | Giorgio Vasari | C. 1554