Nossa Senhora de Fátima: análise à imagem «verdadeira» desvenda história com quase 100 anos
Tudo é muito rápido. Em menos de um piscar de olhos, os vigilantes retiram a imagem de Nossa Senhora de Fátima e substituem-na por uma réplica. Ao fim de quase cem anos de exposição pública, a figura original da Virgem deixa a Capelinha das Aparições para ser submetida ao primeiro grande exame ao seu estado de conservação. Baixa à terra, às mãos de cientistas, de físicos e químicos que investigam cada milímetro de uma das imagens mais vigiadas e veneradas do planeta.
Descobrem ou confirmam que tem pouco mais de um metro, mais precisamente 1037 mm de altira, 19 quilos, que é feita de madeira de cedro do Brasil e que, à primeira vista, «está em bom estado de conservação, para uma peça com 92 anos», resume Carla Rego, professora do Instituto Politécnico de Tomar e especialista em conservação.
Tudo ficará registado num relatório a divulgar em setembro. Com dados objetivos, precisos, seguros. Resultados de TAC, de observações físicas e químicas. Obtidos através da passagem da imagem por aparelhos de ponta com nomes estranhos, como "espectómetro de fluorescência de RX" ou lentes binoculares que amplificam a capacidade de ver dos cientistas. Mas que não detetam nada do outro mundo. Nada que explique devoções intensas, milagres ou essa fé imensa que continua a arrastar milhões. Ou mesmo a reserva e o pudor, a enorme reverência e o aparato de alta segurança que rodeou toda a operação que levou a imagem numa visita-relâmpago a uma escola superior.
Tocou os próprios cientistas. «Do ponto de vista emocional, não estudo esta imagem como outra qualquer», reconhece Luísa Carvalho, catedrática de Física Nuclear habituada a lidar com peças bem mais antigas do que a que se encontra agora a um palmo do seu nariz. «Mas a vantagem da física é que os resultados são objetivos. Não vou encontrar nada de sobrenatural», prossegue.
Carla Rego sente que «baixou à terra» após o primeiro embate com a imagem. Uma hora depois da primeira observação em laboratório, aproveita para fumar um cigarro e «baixar a ansiedade» e o nervosismo iniciais. Afinal de contas, não é todos os dias que se recebe uma "encomenda" tão VIP, que chega num estojo de napa almofadado, com guarda e agentes da companhia de seguros.
«Um momento histórico», reforça o diretor desta escola de restauro, João Coroado. Todos respiram de alívio depois do primeiro impacto. E folgam em saber que a Senhora está em boa forma.
Nada que espante quem se encarrega de vigiar a Senhora de Fátima - 24 horas por dia, durante todo o ano, faça chuva ou faça sol. José Vieira, um dos 32 vigilantes permanentes do Santuário, sabe que «está tudo bem». Como sabe que a réplica que, no início da última semana, durante 35 horas exatas, substituiu a imagem original - a «verdadeira», como insistem os devotos - não vai escapar aos olhares mais atentos. «É a imagem mais vigiada do país», assume o reitor, Carlos Cabecinhas.
Há sempre uma webcam fixa que transmite em direto para todo o mundo virtual a imagem da capelinha de Fátima. Há sempre - a todas as horas do dia, literalmente, a todas - peregrinos junto da Senhora da Cova da Iria. As missas diárias começam às 5 horas da manhã, em polaco para os peregrinos da Polónia que insistem sempre em ser os primeiros do dia a rezar a Nossa Senhora.
Os devotos conhecem a sua Virgem de Fátima como as palmas das próprias mãos. Quando há uma alteração - uma rara mudança da figura, por breve que seja - chovem e-mails, telefonemas, cartas a pedir satisfações aos responsáveis do Santuário. Todos querem saber «o que aconteceu à Senhora». «Para onde levaram a nossa imagem?», perguntou uma freira logo que se apercebeu que a imagem no pedestal «não era a verdadeira».
E não era. A réplica é perfeita. Mas não é igual. «A verdadeira tem um sorriso diferente, quando se olha de lado», diz José Vieira. «É mais encorpada, o manto e a nuvem a seus pés são mais azuis». A "substituta" é a «Virgem peregrina número 1», normalmente guardada na pequena Capelinha das Aparições para as raras ocasiões em que a imagem de Fátima sai do santuário. Foram mesmo raras: 11 ao todo, em visitas de peregrinação. E para fora do país, só mesmo para Espanha e para Roma foi autorizada a viajar.
Feita em 1920, pelo santeiro José Ferreira Thedim, a imagem foi concebida a partir de indicações do padre Formigão, o primeiro a interrogar os pastorinhos sobre as Aparições de Fátima. Nos anos 50, porém, o mesmo escultor viria a alterá-la. A pretexto da necessidade de reavaliar o estado da peça, Thedim retirou-lhe as pequenas sandálias que inicialmente usava, simplificou-lhe as vestes, afilou-lhe o rosto. Tinha falado com a irmã Lúcia e permitiu-se uma revisão artística. Em rigor, a "verdadeira" imagem já não existe. Mas isso, na verdade, não importa mesmo nada.
Doze imagens da Nossa Senhora de Fátima
O Santuário de Fátima não dispõe apenas de uma imagem da Virgem da Cova da Iria. Para fazer face aos inúmeros pedidos vindos das comunidades católicas de todo o mundo, foram sendo feitas réplicas da imagem original de 1920 para exposição à devoção dos fiéis.
A primeira "Imagem Peregrina" foi feita após a II Guerra Mundial, depois do então bispo de Berlim ter pedido ao santuário que permitisse que a escultura circulasse por todas as capitais europeias em fase de reconstrução. Essa primeira réplica data de 1947 e agora está normalmente guardada na pequena ermida na Capelinha das Aparições.
É sobretudo usada para exposição, substituindo a imagem original nas raras vezes que esta sai do seu pedestal.
No entanto, e como os pedidos para receber uma imagem de Fátima continuaram a surgir de todo o mundo, o santuário aprovou já a conceção de um total de 12 "Virgens Peregrinas de Fátima". Uma delas foi oferecida por Portugal a Timor, na altura da independência do território. Cada uma das imagens peregrinas de Fátima tem documentação própria - uma espécie de passaporte que regista cada uma das imagens feitas através de todo o planeta.
Nota: Este vídeo é antecedido de publicidade contratada pela SIC.
Rosa Pedroso Lima
In Expresso, 8.6.2013
Vídeo: SIC
10.06.13

José Ventura / Expresso







