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Espiritualidade

A desproporção de Deus: meditação do papa Francisco (cardeal Bergoglio) sobre a Eucaristia

A Boa Nova da multiplicação dos pães é um desses feitos que ficou gravado para sempre na memória da Igreja. Nunca nos cansaremos de ouvir, maravilhados, o que aconteceu naquela tarde, a narração desse "gesto inédito" de Jesus. Foi uma festa: uma festa humilde, uma festa de fé. Humilde porque só havia pães e peixes, mas tão superabundantes que despertavam o assombro, a fé, o gosto de compartilhar a mesma mesa e sentir-se irmanados nesse pão... Só podemos imaginar aquela gente partindo surpreendida o pão e compartilhando-o, cheia de alegria, com os seus vizinhos.

A lembrança da multiplicação dos pães (a par das Bodas de Caná) ficou-nos no coração como o evangelho da desproporção. O que saiu das mãos de Jesus que abençoavam foi um esbanjamento de pão: os cinco pães converteram-se em cinco mil. A desproporção foi mais além de todo o cálculo humano, esse cálculo "realista", quase matemático, que levava os discípulos a dizer com ceticismo: a não ser que vamos comprar para dar de comer a toda esta gente. Houve superabundância: todos comeram até se saciarem. E até excesso: recolheram as sobras, doze cestos. Um esbanjamento em que não se perdeu nada, tão diferente dos esbanjamentos escandalosos a que nos acostumaram alguns ricos e famosos.

A mensagem do Evangelho é clara, diáfana, calorosa e contundente: onde está Jesus, desaparecem as proporções humanas. E, paradoxalmente, a desproporção de Deus é mais humana (mais realista, mais simples, mais verdadeira, mais realizável) que os nossos cálculos. A desproporção de Deus é realista e realizável porque considera o calor do pão que convida a ser repartido, e não a frialdade do dinheiro que busca a solidão dos depósitos.

O milagre dos pães não nada de solução mágica. No meio dele está o mesmo Jesus com as mãos na massa. Um Jesus que se reparte e se entrega a si mesmo em cada pão; um Jesus que dilata a sua mesa, que compartilhava com os seus amigos, e a torna lugar para todo o povo; um Jesus que é todo-poderoso com o pão e os peixes. Que bonito é olhar os sinais humildes, as coisas pequenas com que Jesus trabalha: a água, o vinho, o pão e os pequenos peixes! É com estas coisas humildes que Jesus é omnipotente. As suas mãos estão confortáveis a bendizer e a partir o pão. Ousaria dizer que o Senhor derrama-se apenas naqueles gestos que pode fazer com as suas mãos: bendizer, curar, acariciar, repartir, dar a mão e levantar, lavar os pés, mostrar as chagar, deixar-se chagar... O Senhor não tem excessos verbais nem gestos exagerados. Jesus quer ser todo-poderoso partindo o pão com as suas mãos.

O gesto do Senhor é um "gesto inédito" porque gasta o seu melhor milagre em algo tão passageiro como um almoço de pães e peixes. Jesus aposta na contundência do elementar e do quotidiano. O gesto de Jesus é um "gesto inédito" porque é um gesto de omnipotência que utiliza a mediação do serviço humilde das suas próprias mãos, juntamente com as mãos de todos. O milagre dos pães foi um milagre realizado eclesialmente por todos os que iam compartilhando o seu pão.

Deste milagre da desproporção, uma bonita imagem para levarmos hoje no coração é a das mãos. A festa do Corpo de Deus é a festa das mãos: das mãos do Senhor e das nossas mãos. Dessas «santas e veneráveis mãos» de Jesus, mãos chagadas, que continuam a abençoar e a repartir o pão da Eucaristia. E é a festa dessas mãos nossas, necessitadas e pecadoras, que se estendem, humildes e abertas, para receber com fé o Corpo de Cristo.

Que o pão divino transforme as nossas mãos vazias em mãos cheias, com essa medida «apertada, sacudida e transbordante» que promete Jesus a quem é generoso com os seus talentos. Que o doce peso da Eucaristia deixe a sua marca de amor nas nossas mãos, para que, ungidas por Cristo, se convertam em mãos que acolhem e envolvem os mais fracos. Que o calor desse pão consagrado nos queime as mãos com o desejo eficaz de compartilhar um tão grande dom com os que têm fome de pão, de justiça e de Deus. Que a ternura da comunhão com esse Jesus que se põe sem reservas nas nossas mãos num verdadeiro "gesto inédito", nos abra os olhos do coração à esperança, para sentir presente o Deus que está «todos os dias connosco» e nos acompanha no caminho.

Peço a Maria, que profetizou a multiplicação dos pães no Magnificat, quando anunciou o Deus que «manifestou o poder do seu braço ... aos famintos enche de bens e aos ricos despede de mãos vazias», que interceda diante do seu Filho, para que uma vez mais olhe com amor para o nosso povo, que precisa de realizar um "gesto inédito". Que Ela peça a Jesus, que está no meio de nós, que novamente nos vá dando com as suas mãos o pão da Eucaristia para entrar em comunhão com Ele, e para aprender a compartilhar como irmãos. Então, as nossas mãos tocarão a desproporção de Deus e animar-se-ão a amassar esse "gesto inédito" que nos inspire a generosidade e nos tire da desesperança.

 

Cardeal Jorge Mario Bergoglio (papa Francisco)
Homilia da solenidade do Corpo de Deus, Buenos Aires, 16.6.2001
Trad.: rm
© SNPC (trad.) | 13.07.13

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