Cinema
"A gaiola dourada": olhar a emigração numa comédia "à la portugaise"
Num dos melhores bairros de Paris, Maria e José Ribeiro vivem há cerca de 30 anos na casa da porteira, no rés-do-chão de um prédio da segunda metade do século XIX.
Este casal de imigrantes portugueses é querido por todos no bairro: Maria, uma excelente porteira, e José, um trabalhador da construção civil fora de série.
Com o passar do tempo, este casal tornou-se indispensável no dia-a-dia dos que com ele convivem. São tão apreciados e estão tão bem integrados que, quando surge a possibilidade de concretizarem o sonho das suas vidas, regressar a Portugal em excelentes condições, ninguém quer deixar partir os Ribeiro, tão dedicados e discretos.
Até onde serão capazes de ir a sua família, os seus vizinhos e os patrões, para não os deixarem partir? Mas estarão, a Maria e o José, verdadeiramente com vontade de deixar França e de abandonar a sua preciosa gaiola dourada?

Eis a sinopse da mais recente comédia à portuguesa – e à francesa –, que estreia esta semana nos nossos cinemas, quase três meses depois de ter somado 300 mil espetadores nos ecrãs de cinema franceses.
Celebrado principalmente pela comunidade portuguesa aí emigrada, "A Gaiola Dourada" é uma típica e ligeira comédia de costumes, capaz de usar uma boa dose de clichés de forma suficientemente inteligente para hora e meia de boa disposição.

Ruben Alves, lusodescendente radicado em França, realizador e argumentista do filme, tinha já revelado um gosto particular pelo humor aquando da cocriação da sua curta, juntamente com Hugo Gélin, "À l'abri des regards indiscrets", desfile de caricaturas pelo ecrã de um multibanco.
Com esta sua primeira longa metragem, Ruben Alves amplifica a sua experiência e aptidão, com o declarado intuito de, descontraidamente, aprofundar a boa imagem que os franceses, na sua opinião e da sua vasta experiência, têm já dos portugueses, como a destes, residentes em Portugal, relativamente aos seus emigrantes.

Se é provável que no fim do filme nem todos os espetadores acusem uma ideia muito diferente da que já tinham sobre os visados, a verdade é que o filme resulta como simpática e devida homenagem a uma geração de portugueses que lutam além fronteiras, não apenas por uma vida melhor mas contra os estereótipos que no país de origem e de destino lhe são colados.
Homenagem que não esquece o seu sentido de dignidade e a fina sabedoria de vida que os faz lidar com a gestão dos sentimentos de pertença e não pertença a duas culturas e geografias a que não se acomodaram.

Um registo leve e divertido, numa proposta bem adequada à época do ano, servida por um elenco que aproveita bem as oportunidades de um argumento pouco elaborado.
Margarida Ataíde
Grupo de Cinema do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
In Agência Ecclesia | Com SNPC
01.08.13









