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A justiça, os últimos e o futuro do cristianismo

Recentemente tive a oportunidade de ler um artigo onde a autora se interrogava sobre a relação existente entre a fé a justiça. O título - que me parece muito sugestivo e oportuno «Desde a fé à justiça, desde a justiça à fé. O mundo lugar de encontro com Deus» (1) - é bem revelador do itinerário que nele se desenvolve. Ao lê-lo vieram-me imediatamente à mente umas palavras lidas já há bastante tempo, mas que continuam hoje bem atuais:

«O futuro da fé e do cristianismo está ligado ao compromisso dos cristãos e das instituições cristãs pela justiça. Porque esse compromisso é a prova da autenticidade da fé; porque é condição indispensável para o testemunho e, portanto, para a transmissão da fé - os bispos franceses chegaram a dizer que «a solidariedade com os pobres é uma das formas de dizer "Deus" hoje» -, e porque a experiência de Deus, que é o eixo da vida cristã, está inseparavelmente ligada à experiência efetiva do amor ao  próximo." (2)

Não é preciso fazer uma análise muito exaustiva da nossa realidade histórica para percebermos que o horror continua a escrever-se de mil maneiras, permanecendo situações de injustiça capazes de gerar um número crescente de excluídos, que, a partir das mais variadas perspetivas, acabam por ser olhados como “excedentes”.

Uma situação desta natureza, onde a dignidade humana é atingida, não pode deixar ninguém indiferente. Não devem restar dúvidas quanto ao facto de que a injustiça, com todas as suas consequências de desigualdades, dependências, pobreza, marginalização e exclusão, é, sem dúvida, um dos problemas maiores que temos de enfrentar.

E se isto é verdade para todos, é-o de uma maneira muito especial para aqueles que se assumem como cristãos, pois, como bem sabemos e foi assumido de uma maneira evidente na reflexão desenvolvida pelo Concílio Vaticano II, «não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração» (Gaudium et spes, 1).

Como falar de Deus e como acreditar nele, quando se vivem tais situações de injustiça, sem as denunciar, ou nada fazer contra elas? Não será o silêncio e a não ação uma maneira de cumplicidade? Não é possível sustentar o desconhecimento dessas realidades, pois elas estão bem à vista; tal como não é sustentável afirmar a impossibilidade da ação, quando a fé e a situação de tantos seres humanos estão a reclamar respostas concretas.

Ao interrogar-se acerca da relação existente entre a fé e a justiça a autora do artigo referido não tem medo em afirmar:

«Se tivesse que dizer se buscando a Deus encontrei a justiça, ou se buscando a justiça encontrei a Deus, não saberia responder. Seguramente estive inicialmente mais interessada pela justiça social, e a partir daí encontrei a Deus. Hoje dá igual: são inseparáveis.» (3)

E continua:

«A fé é o motor mais potente que encontrei para comprometer-me com o ser humano e os seus sofrimentos, já que não temos outro lugar para encontrar a Deus a não ser na realidade que vivemos. E a realidade lida a partir dos últimos.» (4)

Estes últimos, que são todos os excluídos vítimas da injustiça social, não deixam indiferente a Deus. O viver de Jesus Cristo disso é um testemunho inequívoco.

O compromisso pela justiça está, pois, a exigir dos cristãos uma intervenção humanizadora, com todas as suas implicações sociais e políticas, se quiserem continuar a ser, também a partir da fé, protagonistas da construção de um futuro diferente, porque a mesma fé diz que outro futuro é possível, e porque a própria credibilidade do cristianismo está com esse compromisso intimamente relacionada.

 

(1) Cristina Manzanedo Negueruela, Desde la fe a la justicia, desde la justicia a la fe. El mundo, lugar de encuentro con Dios, in Sal Terrae, Revista de Teología Pastoral, 102 (2014), pp. 21-31.
(2) Juan Martín Velasco, Metamorfosis de lo sagrado y futuro del cristianismo, Aqui y Ahora 37, Sal Terrae, Santander 1998, p. 42.
(3) Cristina Manzanedo, Desde la fe a la justicia, desde la justicia a la fe, p. 28.
(4) Ibidem.

 

Juan Ambrosio
Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
© SNPC | 24.03.14

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