Cinema
"A vida invisível": Sobriedade e sensibilidade
A trabalhar há anos num ministério, o tempo como funcionário público parece ter absorvido a maior parte da vida de Hugo. Agora que António, o seu chefe de repartição, morreu, Hugo mergulha numa profunda revisitação do espaço, do tempo e das memórias da sua vida. Um caminho solitário que percorre pelos meandros da perda como um incógnito, em busca da sua própria presença e ausência, da pertença aos outros e às coisas…
Passam vinte anos desde que Vítor Gonçalves realizou “Uma rapariga no verão”, a história de Isabel e do seu incontido desejo de realização e de amor absoluto que crê poder encontrar para lá dos limites da terra onde nasceu, e por isso parte para a cidade, e para lá dos limites da sua personalidade, e por isso procura-o nos outros. Um filme singular, que Manoel de Oliveira elogiaria pela sua simplicidade, pelo acerto de uma realização sóbria e sensível.
D.R.
Sobriedade e sensibilidade repetem-se agora em “A vida invisível”, obra com muito de autobiográfico que exige do espetador uma experiência de vida, incluindo interior, capaz de o acompanhar e nela descobrir afinidade. O que não significa, necessariamente, ser um filme agradável. Consegue, no entanto, ser incrivelmente harmonioso, bem proporcionado para a profundidade e densidade do caminho interior que Hugo percorre.
D.R.
Magnificamente fotografada, “A vida invisível” bebe do mistério que Vítor Gonçalves afirma ser o da sua vida no cinema, num registo que gere a sombra e a luz, a cor e a sua quase ausência nos mistérios, nos segredos e nas revelações da existência de Hugo. Alguém, como tantos de nós por um momento na vida, que a sente longe do seu alcance, um quase ninguém, como se, objetivamente estando vivo, não fosse porém capaz de o sentir.
D.R.
Nomeado para o Prémio Marco Aurélio na oitava edição do Festival Internacional de Cinema de Roma, o filme marca o regresso do realizador aos ecrãs portugueses. Nascido em Angra do Heroísmo em 1951, Vítor Gonçalves formou-se em 1979 na então Escola de Cinema do Conservatório Nacional, onde foi aluno do cineasta António Reis, de quem deriva a personagem de António. Professor, é também produtor, função que exerceu no filme “Sangue”, de Pedro Costa, que por seu lado foi seu assistente de realização em “Uma rapariga no verão”.
Margarida Ataíde
Grupo de Cinema do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
In Agência Ecclesia | Com SNPC
07.06.14

D.R.








