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A vocação do líder empresarial
A Paulus Editora vai apresentar a 17 de setembro, em Lisboa, o livro "A vocação do líder empresarial", documento publicado pelo Conselho Pontifício Justiça e Paz, sediado no Vaticano.
A sessão, que decorre às 18h30 no auditório do Montepio Geral (Rua do Ouro, 219 - 6.º), conta com intervenções de Ildefonso Camacho, diretor da Faculdade de Teologia de Granada e especialista em ensinamento social da Igreja.
O documento será comentado por António Pinto Leite, presidente da Associação Católica de Empresários e Gestores, e Fátima Almeida, da LOC-MTC (Liga Operária Católica-Movimento de Trabalhadores Católicos).
Apresentamos um sumário do texto, traduzido por Mário José Galvão de Almeida e Alfredo Bruto da Costa, presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.
A vocação do líder empresarial
Sumário executivo
Quando os negócios e as economias de mercado funcionam corretamente, e estão focados no serviço do bem comum, contribuem grandemente para o bem-estar material e até espiritual da sociedade.
Porém, a experiência recente também demonstrou o mal causado pelas falhas dos negócios e dos mercados.
A par dos seus benefícios, os desenvolvimentos que transformaram o nosso tempo – a globalização, as tecnologias de comunicação e a “financeirização” – criam problemas: desigualdade, deslocalização económica, sobrecarga informativa, instabilidade financeira e muitas outras pressões que interferem com o serviço do bem comum.
Todavia, os líderes empresariais que se guiam pelos princípios ético-sociais, vividos através de virtudes e iluminados para os cristãos pelo Evangelho, podem ser bem-sucedidos e contribuir para o bem comum.
Os obstáculos ao serviço do bem comum surgem sob diversas formas – corrupção, ausência do Estado de direito, tendências gananciosas, deficiente administração dos recursos – mas o mais significativo para um líder empresarial, a nível pessoal, é ter uma vida “dividida”.
A separação entre a fé e a prática diária dos negócios pode conduzir a desequilíbrios e a uma devoção deslocada ao sucesso mundano. O caminho alternativo, de uma “liderança de serviço” assente na fé, faculta aos líderes empresariais uma perspetiva mais ampla e ajuda-os a equilibrar os requisitos do mundo dos negócios com os dos princípios ético-sociais, iluminados para os cristãos pelo Evangelho. Isto realiza-se através de três patamares: ver, julgar e agir, embora seja claro que estes três aspetos se encontram profundamente interrelacionados.
Ver
Os desafios e as oportunidades no mundo dos negócios complicam-se por força de fatores positivos e negativos, incluindo quatro grandes “sinais dos tempos” com impacto nos negócios.
A Globalização trouxe eficiência e oportunidades extraordinárias e novas aos negócios, mas as desvantagens incluem maior desigualdade, deslocalizações económicas, homogeneidade cultural, e inabilidade dos governos para regular adequadamente os fluxos financeiros.
A Tecnologia das Comunicações possibilitou a conectividade, novas soluções e produtos, e custos mais baixos, mas a sua espantosa velocidade também origina excesso de informação e processos de decisão precipitados.
A "Financeirização" dos negócios à escala mundial tem intensificado tendências para mercantilizar as finalidades do trabalho e para sublinhar a maximização da riqueza e os ganhos de curto prazo à custa do trabalho pelo bem comum.
As Mudanças Culturais da nossa era conduziram a maior individualismo, mais roturas familiares e preocupações utilitaristas consigo próprio e com “o que é bom para mim”. Consequentemente, podemos ter mais bens privados, mas faltam-nos significativamente bens comuns. Os líderes empresariais concentram-se na maximização da riqueza, os empregados desenvolvem atitudes reivindicativas de direitos, e os consumidores exigem satisfação imediata ao preço mais baixo. Uma vez que os valores se tornaram relativos e os direitos mais importantes do que os deveres, a finalidade de servir o bem comum frequentemente se perde.
Julgar
As boas decisões de negócios são as que radicam em princípios fundamentais, tais como o respeito pela dignidade humana e o serviço do bem comum, e uma visão da empresa como uma comunidade de pessoas. Ao nível prático, os princípios deixam o líder empresarial centrado em:
a) produzir bens e serviços que satisfaçam necessidades humanas genuínas e sirvam o bem comum, responsabilizando-se, ao mesmo tempo, pelos custos sociais e ambientais de produção, das cadeias de oferta e de distribuição, e estando atento às oportunidades para servir os pobres;
b) organizar trabalho produtivo e com sentido, reconhecendo a dignidade dos empregados e o seu direito e dever de se desenvolverem no seu trabalho (“o trabalho é para o homem”, não “o homem para o trabalho”) e estruturar os locais de trabalho com subsidiariedade, que concebe, equipa e confia nos empregados para fazerem o seu melhor trabalho;
c) utilizar sabiamente os recursos para criar quer o lucro quer o bem-estar, para criar riqueza sustentável e distribuí-la justamente (um salário justo para os empregados, preços justos para os clientes e fornecedores, impostos justos para a comunidade, e rendimentos justos para os proprietários).
Agir
Os líderes empresariais podem pôr as suas aspirações em prática quando a sua vocação é motivada por muito mais do que o sucesso financeiro. Quando integram os dons da vida espiritual, as virtudes e os princípios ético-sociais na sua vida e no seu trabalho, podem ultrapassar a vida dividida, e receber a graça de promover o desenvolvimento integral de todos os interessados no negócio.
A Igreja apela aos líderes empresariais a que recebam – reconhecendo humildemente o que Deus fez por eles – e deem – entrando em comunhão com os outros para tornar o mundo um lugar melhor.
A sabedoria prática informa a sua perspetiva de negócio e fortalece o líder empresarial para responder aos desafios do mundo, não com medo ou cinismo, mas com as virtudes da fé, esperança e amor.
O presente documento visa encorajar e inspirar os líderes e outros interessados nos negócios a ver os desafios e as oportunidades no seu trabalho; a julgá-los à luz dos princípios ético-sociais, iluminados para os cristãos pelo Evangelho; e a agir como líderes que servem a Deus.
In A vocação do líder empresarial, ed. Paulus
29.07.13









