Abraçar o envelhecimento com o exemplo de João Paulo II
Há um tipo de sofrimento inevitável, a menos que morramos novos: o do envelhecimento. Independentemente do que possamos fazer para parecermos e sentirmo-nos jovens - cirurgias plásticas, dietas, exercício ou maquilhagem -, teremos sempre de encarar o declínio do nosso ser físico. Em algum ponto da vida teremos de enfrentar o facto de que não podemos fazer ou ser aos 70 ou 80 anos o que fizemos ou fomos aos 20 ou 30.
Apesar de alguns santos terem vivido longamente - Santo Afonso de Ligório chegou aos 90, por exemplo -, só há relativamente pouco tempo é que ultrapassar os 70 anos se tornou comum. Escreveu o salmista há milhares de anos:
«A duração da nossa vida poderá ser de setenta anos
e, para os mais fortes, de oitenta;
mas a maior parte deles é trabalho e miséria,
passam depressa e nós desaparecemos.» (Salmo 90,10)
Aprender a envelhecer e aceitar o consequentemente sofrimento que implica constitui uma lição que nos foi dada pelo Beato João Paulo II. Karol Wojtyla foi considerado novo para papa quando foi eleito, aos 58 anos. Nessa altura, ele ainda era muito ativo, passeava, esquiava e viajava por todo o mundo. Era vigoroso e saudável, soprando uma vida nova no Vaticano e na Igreja.
Durante os 26 anos do seu pontificado, porém, vimos como a doença de Parkinson reclamou o seu preço, e o homem cheio de vigor tornou-se fraco e incapacitado à frente dos nossos olhos. Por fim, quando o mundo sustinha a sua respiração coletiva, mostrou-nos como morrer, e ao fazê-lo, mostrou-nos o que a Igreja quer dizer com a expressão «boa morte».
Seja qual for a nossa idade, podemos aprender lições vitais sobre como concluir os capítulos finais das nossas vidas ao observar como João Paulo II se aproximou da velhice e da sua passagem final.
O nosso valor como pessoa humana
A primeira lição que o Beato João Paulo II nos ensina é que envelhecer não é um mal, apesar do que a nossa cultura secular nos poderá fazer crer. Envelhecer é simplesmente uma parte do processo biológico natural a que todas as criaturas vivas são submetidas. Como parte de uma caminhada inevitável, experimentaremos, sem dúvida, algum nível de sofrimento, mas ao aceitar o inevitável poderemos mitigar a dor e crescer em graça.
Dessa forma, a nossa autoestima e valor não estarão dependentes da nossa aparência ou capacidades, mas do nosso valor essencial enquanto pessoas humanas. Quando perspetivarmos a vida desta forma, não criaremos mais dor para nós mesmos ao tentar repelir o que não pode ser afastado para sempre. Como o próprio João Paulo II observou:
«O doente, o ancião, o deficiente e o moribundo ensinam-nos que a debilidade constitui uma parte criativa da vida humana, e que o sofrimento pode ser aceito sem perda alguma de dignidade. Sem a presença destas pessoas no meio de vós, podereis sentir a tentação de pensar que a saúde, a força e o poder são os únicos valores dignos de serem conseguidos na vida. Mas a sabedoria e o poder de Cristo são visíveis na debilidade dos que compartilham os Seus sofrimentos. Coloquemos os doentes e os deficientes no centro da nossa vida. Conservemos e reconheçamos com gratidão a dívida que lhes devemos.»
Uma segunda lição que podemos colher do exemplo do papa João Paulo é a importância de manter os nossos espíritos jovens mesmo quando os nossos corpos declinam. Demasiadas vezes as pessoas envelhecem mental e emocionalmente muito antes de chegar o fim do seu tempo na Terra.
Uma das razões pelas quais os jovens nem sempre gosta, de estar rodeados de idosos é porque os homens e mulheres mais velhos têm tendência para o queixume, para a crítica e para desacreditar. Tornam-se fechados no passado, em vez de serem comprometidos no presente. Ao terem esta atitude, criam dor e isolamento para eles próprios, o que Deus nunca quis. Na sua carta aos anciãos, em 1999, sublinhou:
«Todos conhecemos exemplos eloquentes de anciãos com uma surpreendente juventude e força de espírito. A quem deles se aproxima, suas palavras servem de estímulo e o exemplo de conforto. Possa a sociedade valorizar plenamente os anciãos, que (...) são estimados justamente como "bibliotecas vivas" de sabedoria, guardiões de um património inestimável de testemunhos humanos e espirituais.»
Através do seu próprio exemplo, João Paulo II mostrou-nos como se pode permanecer espiritualmente jovem mesmo quando se envelhece fisicamente. Para se ficar convencido da importância de continuar ativo e comprometido com o mundo sem olhar à idade, basta ver vídeos das Jornadas Mundiais da Juventude. Mesmo quando João Paulo II surgia diante das multidões como um homem velho e frágil, continuou a ser capaz de inspirar milhões de jovens nesses encontros ao apelar para procurarem um sentido mais profundo para a vida em Cristo e na sua Igreja.
Jovem de espírito
Na minha vida, sou abençoada por ter amizade com duas mulheres que são minhas mentoras para aprender como envelhecer. Uma é viúva de um pastor protestante; a outra é mulher que um rico homem de negócios. As suas vidas não podiam ser mais diferentes em termos de bens, viagens e experiências. No entanto, à medida que se aproximam dos 80, mostraram-me que os segredos para envelhecer bem são continuar ativas, envolvidas com a vida e profundamente relacionadas.
A viúva começou a procurar as suas raízes judaicas, juntou-se a uma comunidade judaica messiânica e aconselha jovens casais. A mulher do homem de negócios começou a pintar, usando o seu talento recém-descoberto para levar beleza ao mundo e como forma de dilatar a sua filantropia.
O que ambas fazem, contudo, é abraçar o agora e viver plenamente no presente. Elas compreenderam o dom da vida e ensinam-me o poder e o valor da gratidão. Eu vejo verdadeiramente «as suas palavras e o seu exemplo como uma fonte de conforto», como o papa João Paulo II disse.
A terceira lição de João Paulo II sobre o sofrimento inerente ao envelhecimento é de que é aceitável reconhecer a dor. É doloroso aceitar que as nossas vidas estão a terminar. É doloroso compreender que não podemos fazer o que fazíamos. Pode ser triste reconhecer que há coisas que nunca vamos conseguir fazer. Admitir a dor pode ajudar-nos, e quando vamos para Deus, ele dar-nos-á o que precisamos para o suportar, como lembra o papa polaco na sua carta aos idosos:
«Quando Deus permite o nosso sofrimento por causa da enfermidade, da solidão ou por outras razões ligadas à idade avançada, dá-nos sempre a graça e a força para que nos unamos com mais amor ao sacrifício do seu Filho e participemos com mais intensidade no seu projecto salvífico. Podemos estar certos: Ele é Pai, um Pai rico de amor e de misericórdia!»
Envelhecer, e a própria vida, são bênçãos
Reconhecer que a terceira idade tem as suas bênçãos é outra lição que podemos aprender. A nossa cultura realça as glórias da juventude, mas como João Paulo II assinala:
«A velhice (...) à luz do ensinamento e no léxico próprio da Bíblia, apresenta-se como "tempo favorável" para levar a bom termo a aventura humana, e faz parte do desígnio divino a respeito de cada homem como tempo no qual tudo converge, para que ele possa compreender melhor o sentido da vida e alcançar a "sabedoria do coração". (...) Ela constitui a etapa definitiva da maturidade humana e é expressão da bênção divina.»
Quando era novo, João Paulo II escreveu muitas palavras inspiradoras, mas nas suas obras mais recentes, como a encíclica sobre a Eucaristia, "Ecclesia de Eucharistia", conseguiu usar toda a sabedoria e experiência que acumulou durante a vida. Isto mostra-nos como a sabedoria pode ser uma das bênçãos que chegam com a idade.
Finalmente, o legado de João Paulo II mostra-nos que, seja qual for a dor que possamos experimentar à medida que envelhecemos, a própria vida é sempre uma bênção. Se desistirmos e cairmos na depressão e na autocomiseração só porque chegámos a um determinado número de anos, criamos sofrimento desnecessário, pesos que não precisamos de carregar e angústias que Deus não presente. Como João Paulo II escreve aos seus irmãos e irmãs anciãos:
«Encorajo-vos a viverdes serenamente os anos que o Senhor estabeleceu para cada um (...) Apesar das limitações devidas à idade, conservo o gosto pela vida. Agradeço ao Senhor. É bonito poder gastar-se até ao fim pela causa do Reino de Deus!»
Viva... mesmo até ao fim!
Para pensar
1. O que é que mais temo no envelhecimento? Que bênçãos vejo em envelhecer?
2. Como é que me estou a preparar para uma velhice frutífera e produtiva?
3. Estou encerrado no passado ou faço um esforço para permanecer ligado ao presente? De que formas poderei ficar mais bem ligado?
4. Estou na disposição de pedir ajuda à medida que vou envelhecendo? Estou disposto a fazer mudanças na minha situação de vida se isso ajudar os meus filhos a cuidarem de mim? Se não, o que é que me está a impedir?
5. Estou grato pelo dom da vida? Porquê ou porque não?
6. Aprecio a vida apesar da dor ou sofrimento? Estou convencido de que Deus continua a amar-me?
7. Como é que respeito as pessoas idosas na minha família? Faço tudo o que posso para ter a certeza de que são tratadas com dignidade, seja qual for a sua idade?
8. Sinto que acumulei sabedoria a partir das minhas experiências de vida? Se sim, partilho-as de maneira encorajadora para aqueles que são mais novos do que eu?
9. Estou disposto a dar-me «até ao fim» por causa do reino de Deus?
Woodeene Koenig-Bricker
In Facing adversity with grace, ed. The Word Among Us Press
© SNPC (trad.) |
17.12.13
João Paulo II








