Bispo do Porto recorda Carnaval de Torres Vedras como «mundo fugaz de alegria e cor»
«Um mundo fugaz de alegria e cor»: é com estas palavras que o bispo do Porto, D. Manuel Clemente, recorda o Carnaval de Torres Vedras, cidade onde nasceu há 64 anos.
«Muitos nos conhecíamos, mesmo mascarados, e por três dias éramos outros, para depois sermos os mesmos, porventura mais próximos», refere em depoimento redigido a pedido do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC).
O padre Alfredo Dionísio, que com outro sacerdote é responsável pela paróquia de S. Pedro e S. Tiago, onde D. Manuel Clemente nasceu, mantém a lembrança do prelado quando diz que os dias de Carnaval levam atualmente «muita alegria» à cidade.
«Vê-se que é um acontecimento com raízes profundas no tempo e na vivência da maior parte dos torrienses. É uma paixão sentida», afirmou em entrevista ao SNPC, acrescentando que «parece não haver idades nem classes».
Depois de sublinhar que «a máscara, mais do que para esconder, é para fazer rir e para aproximar», o pároco de 75 anos acentua que «as pessoas deixam cair as diferenças e alegram-se juntas».
«O aspeto humano é bonito», salienta, acrescentando que o Carnaval de Torres é «menos sensual do que o brasileiro» porque a opção «é mais pelo folguedo».
O padre Alfredo, há 19 anos pároco na cidade, diz que «o espírito carnavalesco tem-se mantido igual, embora seja agora mais sofisticado».

«Os temas são oportunos e, de alguma forma, expressam-se criativamente. Não se sente muito a crise porque, diz-se, "É um dia no ano, deixem-nos viver a nossa tradição". E as multidões são maiores», refere.
Na quinta-feira, conta, as crianças dos jardins de infância, mascaradas, desfilaram de mão dada, com as suas formadoras.
No dia seguinte foi a vez dos alunos das escolas do Ensino Básico ao 12.º Ano realizarem o cortejo pelo percurso do corso: «Este desfile é de tal maneira respeitado que está tudo fechado, como se fosse Domingo ou Entrudo».

«As lojas que vendem roupa com alguma qualidade transformaram-se, pura e simplesmente, em espaços de venda de adereços de carnaval. É uma cultura que começa de criança e se vai enraizando no íntimo das pessoas. Ser folião é como ser torriense e vice-versa», diz.
Nos primeiros tempos em Torres Vedras marcava reuniões para a semana do Carnaval e os dias que a antecedem. Depressa chegou a uma conclusão: «Nem pensar! Temos de fugir o mais possível de reuniões à noite».
Durante o Carnaval o centro da cidade é habitado por «música ambiente», silenciada aquando das missas. Ao domingo suprime-se a eucaristia da tarde, sendo esta é a única alteração ao horário habitual.

O sacerdote fala de «uma compreensão recíproca» entre a Igreja e a autarquia, mas lamenta que quem quer participar nas missas nos principais dias do Carnaval tenha de pagar a entrada no perímetro do desfile, a não ser que tenha uma pulseira de livre acesso à zona.
Enquanto que o corso congrega a maior parte da população, as festas que entram pela noite são frequentadas maioritariamente pelos jovens.
O ruído causado pela música, motivo de «suplício» sobretudo para as pessoas idosas, é um dos aspetos negativos do Carnaval apontados pelo padre Alfredo, que não raro recebe cartas de «desabafo» na redação do jornal "Badaladas", de que é administrador, juntamente com o padre Joaquim Costa, com quem partilha a responsabilidade pelas comunidades católicas da cidade.

D. Manuel Clemente deixou de ir ao Carnaval na cidade «porque, para as poucas famílias que resistem no centro histórico, se tornou impossível tanto barulho e incivilidade».
Na Quarta-feira de Cinzas o pároco cruza-se na rua com a ressaca carnavalesca, caracterizada por «bebedeiras» que, sublinha, nunca são agressivas.
Outro detalhe que incomoda o sacerdote é facto de o "Enterro do Carnaval", na Quarta-feira de Cinzas, «tropeçar na Quaresma», que começa precisamente nesse dia.

«Para os católicos, a quarta-feira de Cinzas era - e é! - o regresso à realidade. À realidade do que somos, como pobres criaturas carentes de redenção», frisa o bispo do Porto, vice-presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.
«A Páscoa traz-nos uma alegria que perdura, por não ser periférica como a do Carnaval. Mas pode-se ir de um à outra, se não se perder rumo nem tino», assinala D. Manuel Clemente.
Rui Jorge Martins
Fotografias: Carnaval de Torres Vedras / Jornal "Badaladas"
© SNPC |
09.02.13









