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Cardeal Jorge Bergoglio, hoje papa Francisco, ao clero de Buenos Aires na missa de Quinta-feira Santa

Excertos da homilia proferida há 10 anos (17.4.2003) pelo cardeal Jorge Mario Bergoglio, então arcebispo de Buenos Aires, aos padres reunidos na manhã de Quinta-feira Santa para a Missa Crismal, quando o clero se reúne na catedral junto do seu bispo como sinal de unidade e de compromisso com a opção sacerdotal.

«(...) Neste dia, como sacerdotes, queremos colocar nas mãos sacerdotais do Senhor, como uma oferta santa, a nossa própria fragilidade, a fragilidade do nosso povo, a fragilidade da humanidade inteira - os seus desalentos, as suas feridas, os seus lutos - para que oferecida por ele se converta em Eucaristia, o alimento que fortalece a nossa esperança e torna ativa na fé a nossa caridade. (...)

Que significa para nós, sacerdotes e povo sacerdotal, que Jesus é Sacerdote para sempre, mediador entre Deus e os homens? Significa esse tom humilde e alegre de quem não quer a glória para si mas que a sua glória é mediar para que o bem do seu povo seja para glória do Pai.

Significa que nós, que participamos desse sacerdócio, devemos ter a nossa satisfação em ser o mais humilde e humilhado servidor dessa mediação que se realiza em Jesus.

Significa que toda a Igreja deve ser tão humilde e pacífica, tão terna e unida que, como um só povo sacerdotal, possa ser lugar de mediação entre Deus e os homens que ainda não conhecem esta graça e experimentam as mais variadas mediações.

Por isso convido-vos, queridos irmãos no sacerdócio único de Jesus nosso Senhor, a que juntos peçamos esta graça, para cada um e para a Igreja inteira: que compreendamos a riqueza da esperança a que fomos chamados: ser mediadores com Jesus e em Jesus, entre Deus e os homens. Mediadores que oferecem, juntamente com a de todo o povo de Deus, a sua própria fragilidade. (...)

Que o nosso Pai do Céu sinta, como sente do seu Filho predileto, que através de nós pode chegar com a sua bênção e a sua palavra aos mais pequenos dos seus filhos.

Que as gentes sintam, como sentem de Jesus e da Virgem, que através de nós podem oferecer ao Senhor os seus sacrifícios quotidianos, que tecem a sua vida de trabalho e de família, manifestando a Deus que o querem, que necessitam dele e que o adoram e louvam de coração. Peço-vos que cuidemos do nosso sacerdócio cuidando desta oferenda.

Sabemos que a unidade se cuida cuidando das mediações. E a Esperança é mediadora por excelência quando está atenta aos pequenos detalhes nos quais se dá esse misterioso intercâmbio de fragilidade por misericórdia. Quando há bons mediadores, desses que cuidam dos detalhes, não se rompe a unidade. Jesus cuidava dos detalhes.

O "pequeno detalhe" que faltava uma ovelha.
O "pequeno detalhe" que o vinho estava a acabar.
O "pequeno detalhe" da viúva que ofereceu as suas duas moedas.
O "pequeno detalhe" daquele que não perdoou uma dívida pequena depois de ter sido perdoado numa dívida grande.
O "pequeno detalhe" de ter aceite suficiente nas lâmpadas para o caso de o noivo se demorar.
O "pequeno detalhe" de reparar quantos pães havia.
O "pequeno detalhe" de ter as brasas preparadas e um peixe na grelha enquanto esperava os discípulos de madrugada.
O "pequeno detalhe" de perguntar a Pedro, entre tantas coisas importantes que tinham acontecido, se de verdade o queria como amigo.
O "pequeno detalhe" de não ter querido curar as chagas.

Os modos sacerdotais que Jesus tem de cuidar são a esperança que congrega na unidade.

A esperança de que não falte ninguém. A esperança de que não se acabe a alegria, mas que seja superabundante e nova. A esperança de que Deus vê com supremo agrado os nossos gestos de amor mais escondidos. A esperança de que o perdão seja contagioso. A esperança de que cuidar a sua própria pequena luz contribui para o brilho da grande festa. A esperança de que o pão chegue a todos. A esperança de que Ele está sempre do outro lado.

A esperança de que, ao fim e ao cabo, o que mais importa a Deus é que sejamos seus amigos.

A esperança de que a muita dor não caia no esquecimento mas que, um a um, Deus beije as suas chagas ao chegar ao Céu e sejam elas a marca de uma Glória humilde e agradecida.»

 

In Arcebispado de Buenos Aires
© SNPC | 27.03.13

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