Corpo silente
É comum as biografias traduzirem as res gestae dos humanos, de atos quase heroicos, das palavras marcantes, das paixões que a memória maturada no final da vida procura legar para a posteridade. Mas uma biografia do silêncio? Do não dito, do não tocado, do impensado, do invisível, da não-correspondência, do incorpóreo, dos não-lugares, dos espaços impossíveis e inenarráveis?
Meditar silenciosamente é revelar-se a alguém e ser recebido noutro silêncio, em sinal de profunda comunhão corpórea. É um lugar de interlocução, de atividade e passividade, lugar para buscar e ser escutado. Este movimento que vai da dádiva ao acolhimento é escuta do profundo, de si e dos outros. A passividade do silêncio é ação pura. Aprender a silenciar-se, a sentir-se como alteridade, é respeitar a gestualidade e a transcendência do nosso corpo. Para Pablo d’Ors «o amor – como a arte ou a meditação – é pura e simplesmente confiança. E prática, evidentemente, porque também a confiança se exercita». Nesse sentido, o silêncio é um fenómeno erótico profundo. É a gestualidade pura dos amantes maturados na sua relação sacramental.
Silenciar o ímpeto dos nossos impulsos ou da vontade autorreferencial é uma aprendizagem que se dá no e com o corpo. Corpo, entenda-se, corporeidade onde se entrelaça o físico, o psíquico e o espiritual que nos abre para a relação humanizadora. O silêncio me ta físico não faz relação. Mas o silêncio existencial é condição para uma gramática do saber afetivo, da vida partilhável. Diante da folia de palavras e atos prostituídos, da insanidade de linguagens e pulsões pervertidas, o silêncio é condição para sentir a promessa que une os humanos num sentir comum. Nas sábias palavras do próprio escritor: «O homem começa à medida em que deixa de sonhar consigo mesmo; que começa a dar frutos quando deixa de construir castelos no ar; que não há nada que não entronque na realidade.»
Esta comunhão silente, esta presença a si da vastidão do mundo, é o útero que recebe a presença divina no humano. Karl Rahner, o teólogo do célebre poema oracional Tu és o silêncio, num dos seus escritos teológicos narrava assim o pathos do silêncio sinfónico: «Deus projeta criativamente a criatura sempre como a gramática de um possível dizer-de-si. E, mesmo quan do se calasse, não poderia projetá-la de outro modo. Porque mesmo este calar-se a si mesmo pressupõe sempre ouvidos que ouçam o silêncio de Deus.» O ato de crer, humano ou religioso, na sua fenomenologia é sempre um ato de escuta. A dificuldade é que dialogámos sem escutar e sem nos escutarmos! Antes de começarmos a falar, a ritualizar, a simbolizar, a agir ou a julgar, deveríamos silenciar tudo isso por um breve tempo e fazer a pergunta vital: «O que é ou quem é, verdadeiramente, o meu Deus, e quais são os meus ídolos?»
Biografia do silêncio. Breve ensaio sobre meditação, do escritor e teólogo espanhol Pablo d’Ors, é um ato si lente permeado de escutas e «atenções» várias. É um ensaio musical originalíssimo conduzido pela experiência da meditação. Há em todo o ensaio um pathos experiencial narrado, um respiro polifónico, um to que sem anulamento onde corpo e graça fazem o hu m ano sensível. A célebre frase wittgensteiniana – «sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar» –, nem sempre bem acolhi - da pelos filósofos de profissão, não encontra aqui total correspondência. O silêncio de Pablo d’Ors não é da ordem do não saber ou do simples calar diante do incognoscível provir. É da ordem do toque profundo do ato silencioso no coração humano. Da experiência incarnada desse toque: «Pensamos muito na vida, mas vivemo-la muito pouco.» O silêncio meditativo é já em si um agir, um pre-dis-por-se para. O silêncio é primeiro ato intencional da consciência. Mesmo estando em silêncio, o corpo vê, sente, ouve, toca, julga, sorri, alegra-se sem dizer palavra. O silêncio não é ausência de gestos ou de palavras. É na sua essência um modo de resistência à superficialidade das conversações globalizadas nos espaços saturados de mediação. Como escreve José Au gusto Mourão: «Uma mente silenciosa, liberta do ruído do pensamento, é uma finalidade e um importante passo no desenvolvimento espiritual» (in Os rostos do silêncio).
São tantos os lugares e os encontros feitos de silêncios inimagináveis e propensos à meditação. É preciso saber ir à raiz da coisa. O que haverá de mais importante na escritura? Talvez os sinais de pontuação! Na música? As pausas abreviadas ou prolongadas! Na pintura? Os pontos-luz sem palavra! No cinema? A imagem transfiguradora do pensar! Nas vielas urbanas? Os sinais intermitentes... Nas experiências religiosas? A meditação e a contemplação..., creio! A estes átimos eloquentes de silêncio propenso à meditação, nem sempre apreciados ou sentidos, reside em parte a qualidade da nossa existência quotidiana. As meditações de Pablo d’Ors fazem lembrar a poesia do silêncio que transcorre da pena singular do poeta sueco Tomas Tranströmer. Biografia do silêncio é uma «mística de olhos abertos», meditação meditada no e com o corpo, que transcende o zoé para ser biós, vida intensa, noite clareada, drama iluminado, dor refeita. Mais do que sobrevivência é necessário uma excedência de criatividade porque «o que realmente mata o homem é a rotina».
Talvez a tarefa mais digna que um humano pode cumprir é a de deixar silêncio sobre esta terra. Quem vive o silêncio sapiencial vive já interiormente a parusia. O silêncio do corpo de Cristo, a suspensão dos atos e palavras precedentes, é o prólogo germinal que ajuda a entrar no evento da morte como o mais dramático silêncio pascal. Fazer essa experiência com Pablo d’Ors é abrir os olhos para a possibilidade outra da existência, sem encontrar respostas consoladoras, que resolvam com um simples sim ou não a complexidade do devir. Quem é incapaz de silenciar o ego e a vontade inconsciente de poder, a ânsia absoluta de saber, será incapaz de respirar e de comungar o hálito vital e de colher a beleza de tudo quanto vive e respira sobre a Terra. Diante da morte outra, do próximo afetivo, a matéria e a forma do silêncio são as palavras e os atos que nos precederam, que apenas o silêncio pode valorizar. Ou como poetizava Maria Gabriela Llansol: «Descodifiquemos a ausência porque é assim o silêncio descodificado da morte leve que leva à transparência da dor com que eu escrevia» (in Amigo e Amiga. Curso do silêncio).
A beleza e a força da «prostração existencial» de Pablo d’Ors está na autenticidade da proposta narrada em primeira pessoa. O escritor faz silêncio de si como lugar de aprendizagem partilhável. Desta biografia do silêncio emergem (des)pudoradamente as nossas próprias biografias. A experiência do silêncio diante da morte é um dos lugares inevitáveis da maturação da vida. A morte outra, ou o vislumbre da nossa, revela toda a nossa precariedade, a incerteza do conhecimento ambicionado e das explicações lógicas. A morte de outrem coloca-se como silêncio perturbador. Uma fragilidade afetiva que nos torna débeis. Nesta experiência-limite intersubjetiva, de afetação plena que invalida provas racionais, o silêncio da amizade cura e abre espaço para a esperança de uma vida de sentido. Aprender a cultivar o silêncio é o melhor que alguém nos pode transmitir. Em primeira pessoa Pablo d’Ors escreve: «Graças ao facto de me sentar, respirar e mais nada, comecei a aperceber-me de que a tendência egocêntrica podia ser erradicada, não apenas pela luta e pela renúncia (...) mas pelo ridículo e pela extenuação.»
O silêncio ou falta dele é talvez hoje uma das mais graves indigências do nosso tempo. O ruído nas praças públicas e financeiras subverteu a possibilidade estética e ética da escuta. A passiva tecnologização dos sentidos, de orifícios preenchidos pela alienação solitária da individualidade. Não é de todo descabido propor uma es(t)ética do silêncio nos diversos grupos comunitários de maturação do humano. «Tudo se joga na perceção», escreve o autor. É preciso aprender a percecionar a música do silêncio noturno de Cho pin, as sinfonias tumultuosas de Mahler, a sacralidade silente do Miserere de Arvo Pärt. É belo nos finais dos andamentos musicais, após a torrente avassaladora do ritmo e da força melódica, sentir o gesto do maestro que dá significado ao silêncio, qual final plácido de um andamento intenso (penso na Sinfonia n. 2 de Gustav Mahler, conhecida por Sinfonia da Ressurreição). O que permanece é a suspen são de tudo, nesse átimo prévio que dá vida ao próximo andamento. E nessa suspensão dá-se a possibilidade de pensar afetivo impossível de subtrair à memória o que fomos e o que somos em tensão futura. Projetar os sentidos é dar vida ao corpo como lugar de autotranscendência dos humanos. Só «é preciso parar, calar-se, ouvir e olhar».
Esta Biografia do silêncio é semelhante ao belo filme O grande silêncio, de Philip Gröning. Biografia do pathos comunitário e interior da Grande Chartreuse. O silêncio é experiência religiosa eloquente. É gestualidade não dita mas expressiva, que comunica o tempo, o espaço, o ritmo, os atos, o símbolo. No fundo, a vida destes monges cuja essência é viver no e do silêncio fraterno. Comunhão teândrica e cósmica de um mundo ecológico. Não um silêncio retórico, ou comprometedor, sem semântica, mas uma aprendizagem que envolve o outro que me é próximo. Aqui, o silêncio é uma extenuação do pensamento e das imagens mentais que nos assolam. É uma suspensão das conversações reduzidas a assuntos morais. O apelo de Pablo d’Ors é, portanto, de «revolver o lodo». Remexer o lodo é condição para descobrir «uma vida tão variada e exuberante». É possibilidade de se reinscrever de novo, como poetiza o grande escritor irlandês Seamus Heaney, no seu poema Digging (Cavando): «Entre polegar e indicador. Aconchega-se a caneta. Com ela hei de cavar.» O ato de escritura, de biografar o silêncio, envolve o corpo todo, a pessoa na sua totalidade amante-pensante. Ao meditar «quer-se estar onde se está, mas plenamente», e por isso, «medito para que a minha vida seja meditação; vivo para que a minha meditação seja vida».
Cavar a nossa interioridade, revelando-a, supõe uma vida intensa: sermos a totalidade das vivências que experienciámos ao longo do tempo que nos é dado a viver. Se assim não fosse, o que teríamos para cavar? O que seria objeto de meditação do silêncio? A abstração pura ou a retórica moral dos juízos universais a priori? Os traços do silêncio são traços de vidas intensas, por vezes de limite, pelo qual se tem acesso à «pátria da realidade» na sua nua concretude. A narração breve do frágil e extenuante exercício de meditar que Pablo d’Ors conta em primeira pessoa corresponde à experiência contemporânea de tantos homens e mulheres. «Tinha tido tantas experiências ao longo da minha vida que havia chegado a um ponto em que, sem medo de exagerar, posso dizer que não sabia quem eu era (...) Não penso que o homem seja feito para a quantidade, mas para a qualidade.» O en saísta não fica por meras enunciações de princípio. Pablo d’Ors desce ao profundo, narra o pathos que compõe a experiência universal da multiplicidade do nosso viver, tornando-a singular, se possível unificada e reconciliada. Também somos muito daquilo que recebemos. Somos uma polifonia de vozes. É belo o elogio ao seu mestre beneditino Elmar Salmann. O saber afetivo da meditação torna-se numa «iniciação à realidade» e, ao mesmo tempo, de reconhecimento da sua complexidade, irredutível ao estilo infantil que se divide entre gostar ou não gostar.
Narrar na primeira pessoa, com o horizonte de uma fenomenologia do corpo silente e ciente-de-si, é desnudar os raciocínios dedutivos e de pendor universalista de um certo academismo intelectual. Narrar o pathos da mais profunda interioridade, expor-se à ventura do tempo e à insipidez do espaço, é entrar no mundo do ligame e da relação generativa de vida. A pessoa aparece na nudez do silêncio. O pior que nos pode acontecer é sermos narradores em terceira pessoa, de neutralidade pura e idealística, acima de toda a conspurcação. As escrituras sacras judaico-cristãs são o espelho do drama da experiência religiosa de fé de tantos homens e mulheres em primeira pessoa. Aqui, entramos na distinção fundamental e do pensamento da diferença relativamente ao mythos grego que exalta o endeusamento do humano, fechando-o no indistinto devir. Esta diferença judaico-cristã que coloca no centro a redenção da miséria e da cinza humana; a salvação do «lodo» que obscurece a diafania possível da graça existente em cada pessoa.
O mais impressionante no pathos silente de Pablo d’Ors é o ponto de partida. Na fragilidade inerente ao sermos homens e mulheres está a possibilidade da cura. Tudo está no modo da nossa «iniciação à realidade». O escritor não sublima o ridículo e a debilidade numa meta história ou numa mística puritana resolvida na metaforização do corpo. Antes pelo contrário, faz uma fenomenologia do corpo aparente em que se mostra a precariedade e a riqueza das experiências vividas como verdade afetiva. Um saber em carne e osso das agruras que provoca o excesso de materialidade ou o défice de atos qualitativos do humano. Esta valorização do silêncio, a partir do que somos no momento em que somos, é invocação do grito de Job, ou o choro que inicia a pessoalidade. Vale a pena traduzir esse grito na iluminante observação de Maria Zambrano: «“Permitiste que nascesse na iniquidade” (...) é o grito de um ser que se sente a si mesmo, que sabe e reclama aquilo que se lhe deveria dar; é o lamento da larva que tem já consciência do seu ser di midiado» (in O humano e o divino).
Biografia do silêncio é um livro belo, intenso e original, meditado na Kenose, e mediado pelo corpo vital, silente e humano. A fraseologia é breve, como deve ser a meditação quando iniciamos temerosamente essa via. O estilo vivo faz do silêncio corpo-sujeito e não objeto da meditação. Não determina a meditação a seguir mas é sobre meditação de um rosto concreto. Há coisas que não esperávamos nunca encontrar no silêncio meditativo! Porém, há preciosidades e joias que só as encontraremos ali, aonde nos dispusermos a remover o «lodo» barulhento interior ou o mutismo das palavras contaminadas que coarta a nossa disponibilidade para a dádiva. O silêncio me ditado por Pablo d’Ors é esse corpo presente transfigurado pela afetividade crente, nutrida de um excesso de confiança. É o corpo dado em memória do Verbo que se faz carne, experiência vital da humanidade que nos é comum.
João Paulo Costa
In A biografia do silêncio, ed. Paulinas
17.02.14

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