D. Manuel Clemente
O "meu" Concílio, 50 anos depois
Na primeira metade do século passado (nasci em 1948), o mundo era bem diferente do que é hoje, mesmo no Portugal do pós-guerra.
O tamanho da Terra era obviamente o mesmo, mas a sua apropriação física e mental por cada um era muito, muitíssimo, mais pequena. Lembro-me de ver numa revista a notícia da televisão na América e julgar que não era a sério… E o espaço infantil que era o meu não passava da casa de meus pais, do largo em frente e pouco mais. Mensalmente fazia-se ali um mercado, com naturais e forasteiros. Ouvia um programa infantil e radiofónico ao sábado à tarde. Mais notícias só as que chegavam pela boca de alguém.
Aos seis anos, o espaço alargou-se, com a escola e a catequese. Mas tudo muito circunscrito, ainda, na rotina habitual de uma terra de província, mesmo que sede de concelho. Na catequese, porém, fui vivendo e percebendo uma realidade maior, a Igreja, em Portugal e no mundo, os seus papas – Pio XII nos meus primeiros dez anos – os seus bispos, sacerdotes, missionários e consagrados… Pouco a pouco, e sem grande interferência nos meus horizontes mentais da altura. De vez em quando, muito de vez em quando, a passagem de algum bispo ou do próprio Cardeal-Patriarca pela paróquia aumentava-me a curiosidade e a pertença.
A eleição de João XXIII em 1958, a televisão e a dimensão internacional que tudo ganhou na viragem dos anos 50 para os 60, bem como, pessoalmente, a frequência do ensino secundário, da minha terra para Lisboa, tudo foi novo, rápido e alvoroçante.
Também a vida eclesial, na paróquia e em algum movimento, tudo facilitado pelo bom clima de proximidade e militância que realmente se vivia na minha terra, com a lucidez, a bondade e o estímulo do meu pároco de sempre, bem acompanhado por catequistas, membros da Ação Católica e da Conferência de São Vicente de Paulo, etc.
Fiquei mais atento ao que se passava “lá fora”, desde o pequeno grupo protestante que reparei existir, às grandes problemáticas que um mundo em rápidas transformações agora colocava. E as interrogações “adolescentes” tornavam-se mais fortes: – Quem somos nós, os católicos? Quem são os outros e como lhes (cor)responder?
Providencialmente, como disse, o ambiente familiar e paroquial era-me propício, para procurar respostas. E eis que – nos meus catorze anos – começa o Concílio do bom Papa João! As suas palavras – as palavras daquele rosto paternal e amigo –, a relação positiva que nos propunha com todos, fossem os “irmãos separados” ou os “homens de boa vontade”, tudo era oportuno, envolvente e libertador. Tratava-se, essencialmente, de um clima.
Depois veio Paulo VI, a continuação do Concílio e as decisões sucessivas da sua concretização na vida da Igreja. A televisão transmitia algumas celebrações romanas e habituei-me ao seu olhar, reflexivo e lúcido, bem como às suas palavras e mensagens. Na minha paróquia, a reforma litúrgica fez-se com naturalidade e bom senso.
Tudo parecia ir bem, como fundamentalmente foi, apesar de muitos e alguns graves “acidentes de percurso”, que melhor se chamariam incursões de fora no percurso eclesial autêntico. Aconteceu – naturalmente aconteceu – que a relação entre a Igreja e o mundo consentiu, em alguns casos e alguns tempos, fortíssimas inclusões do mundo na Igreja, que puderam pôr em causa a identidade desta, da sua ação, do seu sacerdócio, da sua tradição essencial.
Aconteceu realmente, dando ao pontificado de Paulo VI (1963-1978) uma nota dramática que por vezes lhe transparecia nos olhos e nas palavras, apesar de tudo serenas e geralmente esperançosas. Para mim, como para tantos outros, a aplicação do Concílio foi sobretudo – e continua a ser – um constante desafio de discernimento e identificação cristã e eclesial, para catolicamente servir o mundo.
Mesmo no curto testemunho que me pedem, o assunto é longo, de uma lonjura interior que reconheço e agradeço, mas dificilmente alcanço, tão diversas são as circunstâncias atuais daquelas de há meio século. Mas não tenho qualquer dúvida em reconhecer e afirmar que, em vinte séculos de história, o Concílio Vaticano II foi uma das mais evidentes comprovações das promessas – e exigências – de Cristo à Sua Igreja.
Refiro-me ao Concílio em que ainda estamos, em plena terceira fase do seu acontecer (da preparação e da realização, passámos à aplicação, ainda muito em curso).
D. Manuel Clemente
Bispo do Porto, vice-presidente da Comissão Episcopal Portuguesa
In Vaticano II, 50 anos, 50 olhares, ed. Paulus
22.06.12








