Vemos, ouvimos e lemos
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosIgreja e CulturaPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosPerspetivasConcílio Vaticano II - 50 anosBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

Turismo, cultura, espiritualidade

Dormir em mosteiros (III): Carmelo de Bande

Dizem os filólogos que Bande significa lugar de passagem. Mas aqui apetece ficar, entre o pequeno bosque de choupos, os terrenos cultivados ou o pomar com uma enorme diversidade de árvores de fruto. E falar de apetite não é despropositado neste mosteiro: “Deus é a eternidade constante, mas a eternidade não é algo estático, é uma novidade que cumula todo o desejo”, explica a irmã Vera Maria, que foi madre superiora do Carmelo de Bande até 2011.

Cheira ainda a novo, o edifício - mesmo se leva já uma década neste lugar, uma aldeia do concelho de Paços de Ferreira. Antes, as monjas estavam no Porto, com o mosteiro entalado entre linhas férreas e o intenso tráfego da cidade. No resto do espaço, vê-se que foi obra dar ao sítio o aspeto que ele tem hoje. Plantar árvores, cultivar a horta, humanizar o lugar. Dar beleza aos caminhos, com um jardim de oliveiras e cerejeiras, noivas-da-floresta e árvores de folha caduca, ervas aromáticas e plantas medicinais, frutos silvestres e medronhos, morangos e framboesas. Talvez seja também por isso que, veremos adiante, sorriem muito, estas irmãs.

Pretendeu a arquitetura do edifício que ele mergulhasse as raízes na grande tradição monástica. O claustro liga lugares comuns e celas, a igreja é de linhas sóbrias. Mas há pormenores contemporâneos: a enfermaria em L, que comunica com o mosteiro num só lado, para permitir a visita de familiares e a humanização dos cuidados; as serpentinas geotérmicas que aquecem o chão da igreja; os painéis solares para aquecer as águas sanitárias.

Foto

A igreja, onde se centra a vida de oração da comunidade, é de linhas sóbrias. O coro das irmãs no centro, um coro alto à direita, o deambulatório por trás do presbitério (a zona onde está o altar). Um ícone de Jesus ressuscitado é iluminado por um foco de luz. Brilha como se a ressurreição tivesse acabado de acontecer há instantes.

Começa tudo com o toque dos sinos; são três, mas é o do meio que roda normalmente, corda puxada por uma das irmãs, um acorde perfeito em mi maior. Seja para fazer despontar a madrugada, para descansar do trabalho do dia, aquecer as manhãs frias ou aquietar o calor do final de tarde.

O pequeno órgão dá, depois, o tom. E as vozes, primeiro a solista, depois todas em uníssono, juntam-se à música, surgem de todos os cantos, preenchem o espaço vazio da igreja, como um surround de anjos. Canta-se, porque cantar é rezar duas vezes, diziam os antigos, canta-se um salmo: “Louvai o Senhor, porque Ele é bom,/ porque o seu amor é eterno! Só Ele faz grandes maravilhas,/ porque o seu amor é eterno!/ Fez os céus com sabedoria,/ porque o seu amor é eterno!/ Estendeu a terra sobre as águas,/ porque o seu amor é eterno!/ Criou os grandes luzeiros,/ porque o seu amor é eterno!/ O Sol para presidir ao dia,/ porque o seu amor é eterno!/ A Lua e as estrelas para presidirem à noite,/ porque o seu amor é eterno!”

Foto

O canto é terno, suave, vem de muitas noites dos tempos. Atravessa-se entre trinados e chilreios de melros ou pardais, um cão ao longe, um automóvel ou uma moto fortuitos. Quase nem agridem. Há uma tranquilidade que permanece, vozes e órgão ligam sons numa harmonia devolvida em eco pela acústica da igreja, a música nasce de todos os cantos. “Que Deus nos guarde e abençoe e sobre nós envie a paz.”

 

Oração aberta

Os vitrais coam a luz, que se deixa ver em espelho no mármore do chão. Junto de cada partitura está um ícone e este pormenor é importante: na igreja, há apenas uma imagem em escultura: a da Virgem do Carmelo. O resto das imagens fica guardado para o claustro. “Preferimos os ícones. O facto de não ser tridimensional torna-o mais imaterial”, explica a irmã Vera Maria. “O ícone é uma escrita, não uma pintura, é uma catequese, uma presença do que representa.”

Foto

A oração é aberta a quem nela quiser participar. A opção foi tomada há quase 20 anos, quando o carmelo ainda estava no Porto, por toda a comunidade - as decisões sobre a vida conjunta são tomadas por todas. No novo edifício de Bande, foi traduzida mesmo em termos de espaço: o coro das monjas está no meio da igreja e junto das pessoas. “Queremos ser uma única assembleia, com estilos de vida diferentes”, para partilhar “a escuta da palavra de Deus”, dizem.

O primeiro tempo de oração, as vigílias, é às 5h45 da manhã; as monjas fazem a seguir oração pessoal silenciosa, após o que se juntam às 7h15 para as laudes ou oração da manhã, antes do pequeno-almoço e da hora tércia (às 8h45). Às 12h15 rezam a hora sexta e às 14h, depois do almoço, a hora noa. Às 17h30, são as vésperas (oração da tarde) seguidas da eucaristia e, às 20h45, já depois de jantar, a oração da noite, ou completas. Em todos os tempos, há uma delicadeza no gesto de sentar ou levantar. Ou quando se deslocam, num passo quase de surdina, antes ou depois de rezar. Ou ainda quando, sozinhas, circulam pelo claustro ou pelos corredores.

Foto

Não fugiram do mundo nem de qualquer ausência nas suas vidas. “Estamos numa atitude de busca de Deus, na eternidade do tempo. Tínhamos cada uma a sua carreira, aceitámos este desafio não porque nos faltou alguma coisa, mas por um chamamento.” Por isso podemos encontrar no mosteiro uma grande diversidade de origens profissionais: astronomia e matemática aplicada, enfermagem, piano ou belas-artes, educação pré-escolar ou ciências da educação, ciências religiosas ou educação social, contabilidade ou operária fabril.

Dentro do mosteiro, esses trabalhos dão lugar a outros, que ocupam as irmãs nos tempos entre as diferentes orações do dia: além da agricultura na horta - uma das principais fontes de sustento do mosteiro —, também a produção de compotas e o fabrico e embalagem de hóstias ou ainda a encadernação, a pintura de ícones ou de iluminuras, a enfermagem ou a contabilidade, o restauro têxtil ou a rouparia. A seguir ao almoço, há quem se entretenha ainda com bordados ou pequeno artesanato, durante um tempo de convívio e conversa. Contam tudo isto sempre de sorriso aberto e riso transparente. E frequente. Não há um rosto contristado.

Foto

Numa das orações, as monjas cantam o salmo 138: “Senhor, tu conheces-me, sabes quando me sento e quando me levanto; vês-me quando caminho e quando descanso; estás atento a todos os meus passos.”

 

O espaço

A hospedaria é um bonito edifício em granito e alvenaria, situado ao fundo da quinta do carmelo, uns 200 metros a pé que se podem fazer através de um caminho que liga as duas casas. Com 13 quartos (cinco duplos, seis individuais e uma suite), dispõe ainda de duas camaratas com oito camas cada uma, um refeitório comum, um salão e um pequeno oratório.

Está aberta, dizem as irmãs, a crentes de qualquer religião e a não-crentes. Apenas se pede o respeito pelo silêncio e, quem quer, pode participar nas orações.

Foto

Em cada quarto, sóbrio, há casa de banho, cama, um armário para roupa, mesa de cabeceira e uma pequena mesa de leitura. Os pormenores não são de somenos: há sempre uma rosa ou uma outra flor numa jarra improvisada, além de um jarro com água e um copo.

Com radiador para os dias mais frios, cada quarto tem ainda uma folha com salmos da Bíblia e um Novo Testamento. Há pinturas da irmã Gabriela de Santa Maria a decorar as paredes e uma vista tranquilizante para as pérgulas e a fonte exterior.

No refeitório, domina uma mesa em U invertido e há o essencial para que cada um possa providenciar uma refeição, se for o caso: frigorífico e micro-ondas, além de uma salamandra e lenha para aquecer o lugar.

Foto

O espaço envolvente, transformado e trabalhado pelas monjas, inclui um pomar com figueiras, pereiras, pessegueiros, ameixeiras, diospireiros, aveleiras ou macieiras, um pequeno bosque de choupos e terrenos cultivados com batatas, abóboras, couves ou ervas aromáticas.

 

Como chegar

Do Porto ou de Braga, tomar a A3 e, depois, a A41 e a A42 em direção a Paços de Ferreira; aqui, tomar a direção da Carvalhosa; o mosteiro situa-se nesta localidade, na rua de Bande.

 

Preços

A hospedaria monástica do Carmelo de Bande não fixa preços de estadia. As despesas são comparticipadas com donativos.

 

O que fazer

O centro de vida do carmelo são os sete tempos diários de oração e os hóspedes que o queiram são convidados a participar nesses momentos, rezados na igreja.

Foto

Como a hospedaria “não é um hotel”, a comunidade pede que cada hóspede tome à sua responsabilidade pequenas tarefas como a limpeza do quarto, a lavagem da louça e a preparação da mesa.

Para além de poder passear, refletir, meditar pelos espaços da quinta e da hospedaria, o hóspede pode ainda ficar a conhecer, ali muito perto, a Citânia de Sanfins, uma das mais importantes de entre os povoados castrejos do noroeste peninsular, que chegou a ser uma importante metrópole da região - e de onde, além do mais, se pode ter uma vista panorâmica extraordinária, que inclui os vales do Vizela e do Sousa, o Atlântico e as serras envolventes. Aqui pode descobrir-se a centena e meia de habitações de cerca de 40 unidades familiares (uma das quais reconstruída, com a casa principal, o vestíbulo, uma casa de apoio, os anexos e o pátio).

 

Texto: António Marujo
Fotografia: Daniel Rocha
In Público (Fugas), 4.8.2012
09.09.12

Redes sociais, e-mail, imprimir

Foto

 

 

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Subscreva

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página

 

 

 

2012: Nuno Teotónio Pereira. Conheça os distinguidos das edições anteriores.
Leia a última edição do Observatório da Cultura e os números anteriores.