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Em frente a Jesus, com o centurião

Adorar significa estar presente, na quietude e na contemplação. Na adoração estamos presentes a Jesus, cujo sacrifício está sempre presente a nós. Permanecendo nele, somos assimilados sempre mais profundamente à sua autodoação. Olhando fixamente para Jesus, acolhemos o mistério que adoramos e nele somos transformados. Fazer a adoração eucarística é como estar aos pés da cruz de Jesus, testemunhando o seu sacrifício da vida e sendo renovados.

Além da Mãe e do discípulo amado que velaram com Jesus que morria, também o centurião romano que controlava o processo da crucificação pode ser um modelo de adoração. Provavelmente aquele oficial teve Jesus debaixo de olho desde a prisão até à morte. Vendo Jesus traído, preso, acusado, humilhado, despojado e brutalmente precado na cruz, concluiu surpreendentemente: «Verdadeiramente este homem era justo» (Lucas 23, 47); e: «Realmente este homem era Filho de Deus» (Mateus 27, 54; Marcos 15, 39).

Já endurecido pelas muitas crucificações que tinha supervisionado, deve ter visto alguma coisa de novo em Jesus. No termo de uma execução de rotina, floresceu uma profissão de fé em Jesus. Não foi apenas mais uma crucificação, mas a manifestação da inocência e do Filho de Deus. Aprendemos da “adoração” do centurião que o sacrifício da vida de Jesus não pode ser apreciado por aquilo que verdadeiramente é se não enfrenta o horror da cruz.

O Evangelho segundo Marcos diz que o centurião estava à frente de Jesus. Como qualquer chefe de guardas, vigiava atentamente o criminoso executado. Não fazia mais nada do que olhar Jesus. E a proximidade física não bastava: devia estar vigilante e atento, de modo a poder dar-se conta de cada detalhe. Aprendemos do centurião a estar diante de Jesus, a olhá-lo fixamente. A contemplá-lo. Ao início o centurião passou horas a olhar Jesus por dever, mas depois acabou por contemplá-lo na verdade.

O que viu o centurião? Podemos supor que viu o horror do sofrimento que precedeu a morte de Jesus. Ele foi testemunha ocular da dor, da humilhação e da solidão infligidas a Jesus, quando os amigos o traíram e abandonaram. Deve ter ficado surpreendido ao ver Judas dar um beijo aparentemente afetuoso que na realidade era um ato de traição. Provavelmente ficou espantado com a rapidez com que um grupo de discípulos abandonou rapidamente o seu mestre para salvar a pele.

Ouviu as mentiras fabricadas no Sinédrio e a capitulação de Pilatos à multidão, não obstante a falta de uma clara acusação contra Jesus. Viu gente a escarnecer de Jesus, cuspir nele, despojá-lo e crucificá-lo. Ouviu o grito de dor: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» (Marcos 15, 34). O centurião constatou uma incrível crueldade da parte dos amigos, das autoridades e até da longínqua divindade. A traição, a desumanidade e a brutalidade continuam até hoje nas muitas crucificações dos pobres e da criação. Não podemos não nos interrogar por que é que os amigos, as autoridades e Deus não intervêm.

Mas acredito também que em Jesus o centurião viu um amor extraordinário: amor pelo Deus que não lhe tirou aquele cálice de sofrimento, e amor por cada seu próximo. Para os seus inimigos pede o perdão do Pai (Lucas 23, 34). A um ladrão promete o paraíso (Lucas 23, 43). À mãe assegura uma nova família (João 19, 26-27). E ao Deus que o tinha abandonado, Jesus abandonou-se: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lucas 23, 46).

O centurião viu o amor florir no deserto da desumanidade. Entre a ebulição dos insultos e das mentiras, aquele homem, Jesus, pronunciava palavras de fidelidade e de verdade. De todo o lado a multidão gritava «não» a Jesus, mas o centurião ouviu de Jesus apenas «sim» ao Pai, «sim» ao próximo», «sim» à sua missão. Naquela horrível cruz de ódio e de violência, o centurião reconheceu o amor, um amor firme que se recusa a morrer, que é forte como o aço contra o mal, mas terno diante do amado. Jesus permaneceu fiel à sua missão. Assim a sua morte se transformou em vida.

Quando adoramos o Deus-Trindade em louvor do sacrifício de Jesus, somos chamados a chorar pelas vítimas da indiferença da humanidade pecadora e da impotência de Deus. Mas choramos também de gratidão pela experiência do amor puro que é derramado num mundo ferido. A cruz, emblema da culpa dos criminosos, confirmou a inocência de Jesus, o verdadeiro adorador de Deus.

O culto sacrificial que Ele celebrou foi o seu amor sem mancha pelo Pai e a profunda compaixão pelos pecadores. Jesus, que sobreviveu a esse horror com a esperança e venceu esse tão grande mal com a ternura e o amor, não era só inocente. Mostrou também que vinha do alto. O centurião acreditou que Jesus podia vir só de Deus, seu Pai.

 

Card. Luis Antonio Tagle
In Avvenire
Trad.: SNPC/rjm
18.04.14

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