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Espiritualidade

"Espelho meu - A leitura diária do Evangelho pode mudar a vida"

"Espelho meu - A leitura diária do Evangelho pode mudar a vida", de Gabriel Magalhães, é o novo volume da coleção "Poéticas do viver crente" que a Paulinas Editora lança a 18 de fevereiro nas livrarias.

José Tolentino Mendonça assinala que «Em "Espelho meu" há uma história de conversão. O autor relata-a em primeira pessoa: “Pertenço a uma geração que olhou para a Igreja e para a Fé como uma forma de menoridade, quase de idiotia intelectual. E este olhar dececionado projetava-se também sobre os Evangelhos…”».

«Mas quando se decide a abrir o Evangelho», o autor «expõe-se a um encontro que transforma completamente a sua vida», refere o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, acrescentando que a obra é «um testemunho pessoal e corajoso» que se apresenta ao leitor «como uma explosão de esperança».

Gabriel Magalhães, professor de Literatura Espanhola na Universidade da Beira Interior (Covilhã) e de Filologia Hispânica e Portuguesa na cidade espanhola de Salamanca, é um profundo conhecedor das duas culturas.

Em 2004, com o livro "É segredo", recebeu da Associação Portuguesa de Escritores o Prémio de Revelação na categoria de Ficção.

Além da docência tem publicado importante ensaística universitária e outros textos literários, como os romances "Não Tenhas Medo do Escuro" (2009) e "Planície de Espelhos" (2010).

Oferecemos seguidamente alguns excertos de "Espelho meu", estreia de Gabriel Magalhães no campo da espiritualidade.

 

Levar Jesus a sério

Uma das coisas mais curiosas que acontece aos cristãos é lerem os Evangelhos e relativizarem aquilo que foi por eles lido. Dizem: «Isto é simbólico: não se deve entender à letra.» Ou então afirmam: «Estas palavras do Senhor são exageradas. Exigem uma santidade radical de que eu não sou capaz. Estava bem arranjado se me comportasse deste modo!» E é como se o Novo Testamento se transformasse numa hipérbole moral, num exagero da virtude, que um ser humano normal e razoável não deverá pôr em prática.

Quando isto acontece, é terrível. Tornamo-nos uma coisa dupla: passamos a ser pessoas falsas, enganadoras. Lemos uma coisa, defendemos publicamente essa mesma coisa, mas depois fazemos outra, procedendo de um modo oposto àquele que se configura nas nossas convicções oficiais. Tornamo-nos, na verdade, uns grandes hipócritas. Procedemos assim por «realismo»: porque o mundo não se compadece com os «idealismos» evangélicos.

Contudo, quando começamos a avançar por este caminho «pragmático», «calculista», quase sempre descobrimos que não somos felizes, e que nunca mais encontraremos a paz. O tal nosso «realismo» só nos conduz a anos e anos de angústia, de inquietação, de tensa incerteza. De um modo geral, porém, mesmo que a sua infelicidade seja evidente, os homens não costumam voltar atrás na sua ponderação primeira, não confessam a si mesmos: «Se calhar, o caminho evangélico, que parecia tão disparatado, seria aquele que me daria a felicidade.»

Quanto a mim, hoje em dia eu sei que isso é assim: que devemos levar o Evangelho rigorosamente a sério; que devemos incorporar nos nossos comportamentos diários aquilo que dizem as palavras sagradas. Ao princípio, parecer-nos-á que nos estamos a atirar de uma ponte para um vazio incerto, mas, com o tempo, a nossa felicidade, a nossa serenidade, a nossa paz irá crescendo de um modo intenso: maravilhoso e irreversível. (...)

Por conseguinte, o que Jesus nos diz, ao dar-nos conselhos radicais, não é o que se costuma interpretar: «Sede palermas e sofrei, sofrei estupidamente.» Não é nada disso. É precisamente o contrário disso: «Sede felizes, tão felizes que possais chegar a um ponto em que, confundidos com o Espírito, nada vos importem as ofensas dos outros.» Deste modo, o Salvador tem razão: mais uma vez Ele tem razão.

E aqui duas últimas reflexões se impõem. Primeira: o ódio ou o ressentimento constituem sempre manifestações de falta de fé. Na verdade, nós só acreditamos que alguém nos pode fazer mal se pensarmos que Deus não nos ampara completamente. Se tivermos fé, se nos sentirmos intensamente ajudados por Deus, o mal que o outro nos procura fazer só desperta em nós piedade - e preocupação pela infelicidade que, na maldade desse nosso irmão, se revela.

Contudo, esta reação generosa e amante só é possível se sentirmos, se tivermos a certeza da presença efetiva do amor de Deus nos nossos dias. Se não tivermos essa certeza absoluta, já esse mal que nos é feito nos parece perigoso. E essa sensação de perigo tem como consequência o nascer do ódio e do ressentimento. Como não acreditamos mesmo em Deus e no seu poder de amor, acreditamos então no poder do mal, e no modo como esse poder pode ensombrar a nossa vida.

E é assim que o ódio nasce: como um  prolongamento, um eco no nosso interior do mal que nos é feito. Podemos até dizer que o ódio que sentimos pelo mal é uma das maiores vitórias do mal em nós. Preservar o nosso interior de qualquer reflexo do mal que nos fazem deve constituir sempre a primeira preocupação da nossa vida quando s enos deparam situações malignas.

Segunda reflexão: devemos, pois, levar Jesus a sério, mas tendo alguma paciência connosco. Nem sempre somos capazes da melhor atitude: por vezes, demoramos a instalar na nossa vida um determinado comportamento. Mas, no fundo, nós estamos vivos precisamente para fazermos esta aprendizagem. Nós estamos vivos simplesmente para aprendermos a viver - e, quando essa aprendizagem estiver concluída, teremos posto o pé na nossa eternidade. Viver é isso: corrigirmo-nos pouco a pouco até que, na nossa brevidade, se instale a nossa eternidade.

 

Gabriel Magalhães
In Espelho meu, ed. Paulinas
© SNPC | 05.02.13

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Capa

Espelho meu

Autor
Gabriel Magalhães

Editora
Paulinas

Ano
2013

Páginas
128

Preço
9,90 €

ISBN
978-989-673-286-8

 

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