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Esta é a hora da Igreja

Ao longo dos tempos modernos, designadamente nos últimos 150 anos, nós vivemos no "ghetto". Vivemos confinados num bairro da cidade terrestre, oprimidos e comprimidos de fora ou receosos de sair. Não raro até, encostados ao muro das lamentações suspirando, nostalgicamente, por uma impossível restauração da Cristandade nos moldes medievais.

Enquanto, ao lado, essa mesma cidade terrestre crescia. Crescia espantosamente em todos os sentidos, planificada e pro­pulsada por exércitos de sábios, de técnicos, de operários, governada por políticos, dirigida espiritualmente por filósofos, artistas e escritores. Na verdade, durante séculos, boa parte daqueles que tinham um nome na arte ou na ciência, na filosofia ou na ação estavam ou à margem da Igreja ou contra a Igreja. Se, paradoxalmente, acontecia e acontece eles defenderem valores trazidos pelo Evangelho ou pelo Evangelho afirmados com novo vigor - a justiça, a fraternidade humana, a elevação da mulher, a eminente dignidade da pessoa - isso pode ter uma dupla origem e uma dupla motivação: o não serem suficientemente praticados por nós e o terem entrado no tesoiro comum.

Saímos - ou começamos a sair - do "ghetto", mas a nossa posi­ção no mundo é ainda minoritária. Por isso e apesar disso, esta é a hora da Igreja. Uma dessas horas que soam, raras vezes, no quadrante da história. Soam quando um mundo acaba - aquilo que constitui verdadeiramente um mundo - e outro mundo começa. Soam quando os homens entram a cansar-se de brinquedos que durante muito tempo adoraram ou quando, esgotados, tocam o fundo da sua realidade finita. Quando os deuses partem e o verdadeiro Deus pode voltar.

Esta é a hora da, Igreja. Não a hora esplendorosa, de brilhantes resultados para já, não a hora em que todo um povo, em maravilhosa ação conjugada, ergue da terra a Catedral, como em Chartres, mas a hora em que, na visão lúcida, no compromisso profundamente pessoal com toda a realidade - divína e humana - na ação generosa mas tantas vezes apagada, sem resultados proporcionais e até sem nenhuns frutos visíveis, a hora em que se lançam as condições do fu­turo, a hora em que se preparam as terras para as searas que outros virão ceifar para os celeiros eternos.

Esta é a hora da Igreja. O mundo de hoje - uno e que tende ainda a unificar-se - precisa de um laço, de um vínculo para que a unidade conquistada subsista, para que a unificação se complete. E só a Igreja pode constituir esse laço, esse vínculo. Nenhuma outra força, nenhuma outra ideologia, nenhuma outra religião estão ou estarão à altura de tão primacial função - é lícito afirmá-lo sem qualquer espécie de partidarismo. Nem o marxismo, nem o budismo nem o islamismo. Uns porque são, logo à raiz, fatores de ódio e divisão, outros porque são demasiado antiquados, demasiado superficiais, demasiado despersonalizadores.

De facto, esta unidade ou se realizará no amor ou não passará, como tantas outras, de um vocábulo fértil em equívocos trágicos. A Igreja não pode ser para os homens, apesar da nossa indignidade, uma causa de universal deceção. Nestas condições, quem não vê que, aos cristãos deste começo da idade atómica, se lhes exige maior poder de acolhimento e desprendimento, maior recetividade ao Outro e maior doação ao Outro que noutras eras?

Esta é a hora da Igreja. Neste mundo em transformação, neste mundo em que as imagens e a realidade que as imagens reproduzem mudam com assombrosa rapidez, é necessário que exista um órgão vivo para assegurar a continuidade, para conservar aquilo que foi sempre - 0 eterno no homem - e o transmitir, integro aos, séculos sucessivos. E buscando, mesmo só à luz da pura observação, não se nos depara outro órgão melhor que a Igreja, a um tempo tão enraizadamente tradicional e tão profundamente atual, com tamanha força de conservação e tamanho poder de adaptação e assimilação.

Neste mundo, que cada vez mais se exterioriza, tem de haver um contrapeso de interioridade para o equilibrar. E os homens, impelidos por aquele instinto que os leva a precurarem subsistir no ser, cedo ou tarde terminarão por encontrar esse contrapeso saudável que a Igreja lhes oferece na sua experiência de ação e contemplação muitas vezes secular.

Esta é a hora da Igreja. O mundo de hoje, artificializado e tecnicizado, aspira a ter uma alma. Obscuramente embora, tateando na sombra, ele aspira a ter uma alma. Não serão indício disso as muitas conversões que se operam nos mais diversos setores? Vêm ou regressam, homens, do campo da filosofia e do campo da literatura; do universo da ciência e do universo do trabalho; do ateísmo prático e do paganismo. Vêm ou regressam à Mãe venerável e antiga tantos homens de valor, cansados dos limites materialistas ou pressentindo, desde cedo, que os caminhos de um mundo, proclamado, depois da morte de Deus, o reino do Homem, são obstáculos não caminhos.

Sim, a Igreja está destinada a ser a alma deste mundo sem alma. A Igreja está destinada, neste universo que, fabricando-se, se estandardiza a guardar aquilo que é mais original e mais pessoal: a imagem de Deus no homem.

Esta é a hora da Igreja. O mundo do trabalho que durante a era burguesa foi, tantas vezes, deixado por nós à sua sorte - sorte que Leão XIII apelidou de «injusta» - o mundo do trabalho que durante mais de um século acreditou em falsos mitos e adorou falsos ídolos, e que ainda hoje, mais experiente e mais consciente, começa a descrer daquilo que ontem aceitava, a demolir aquilo que dantes idolatrava, o mundo do trabalho pode ser assumido pela Igreja, existencialmente assumido pela Igreja, na justiça e no amor. Para tanto bastaria o exemplo do próprio Filho de Deus, que quis ser chamado também, com verdade, «filho do operário».

Mas há mais. A essa decisão valorosa nos incitam, desde há quase 70 anos, os Papas. Contudo, a nossa inércia, apesar da obra, já realizada, tem sido por vezes mais forte que esse duplo incitamento. É teoricamente, o velho preconceito greco-romano dos trabalhos servis, dos trabalhos mecânicos e manuais, próprios de escravos. É ainda, teoricamente, não sei que espécie de atávico idealismo platónico ou platonizante de separação da alma e do corpo, de fuga à inserção no mundo para o recriar. É, na prática, o imobilismo cómodo, o apego a situações fáceis, o ver só o que se quer ver. Na verdade, porém, não é bom proceder com as coisas como se elas não existissem na sua realidade dolorosa. Esta acaba sempre por vingar-se.

E pode uma sociedade ter o nome de cristã. Se nessa sociedade coexistem, lado a lado não raro, lucros fabulosos e salários de miséria, se nessa sociedade se ostentam espetáculos de luxo inútil em ambientes de extrema pobreza - e hoje é muito difícil guardar compartimentos estanques - o cristianismo real dessa sociedade, como tal sociedade, não existe.

Esta é a hora da Igreja. Vivemos no crepúsculo de um mundo des-sacralizado, profanizado, de um mundo em vias de liquidação e que, talvez por isso, se des-sacraliza ainda mais. Simultaneamente, sentimos anunciar-se a aurora. de um mundo outro, diferente. Ora neste tempo intervalar - tempo de crise no significado mais original de ação, discriminadora de valores -, as circunstâncias exigem um valor pessoal irrecusável: intensidade de vida sobrenatural vivida, cultura ampla e sólida, competência profissional, energia de decisão, iniciativa criadora. Só assim as trevas poderão ser iluminadas, só assim se poderá agir junto da frouxa vontade dos homens, só assim se poderá contribuir eficientemente para a modificação das estruturas.

O mundo de hoje não deixa de apresentar certas analogias com o mundo do Ocidente nos séculos V e VI. Então a Igreja e a Europa foram aqui salvos, graças à coragem e à intrépida lucidez de grandes bispos, graças à pobreza e ao zelo de monges heróicos - o sacerdócio e o laicado da época. Hoje será também - começou a sê-lo já - da audácia apostólica dos pastores e da sua visão real dos tempos, será da sinceridade cristã e da esperança humana e sobrenatural dos leigos que dependerão, em boa part, a sociedade e as suas estruturas de amanhã.

Nestas condições, ingentes tarefas e árduas dificuldades nos esperam. Não é pequena coisa cristianizar ou recristianizar todo um mundo. Haverá que afrontar perigos dos homens, perigosdas coisas, perigos, talvez, dos nossos próprios irmãos. Mas em todos eles, permanece o preceito divino de conservar a paz e a liberdade da alma, de aguentar na paciência. E, através duma existência, interior e exteriormente comprometida na mais densa dor dos homens e da miséria do mundo, nós veremos ou pressentiremos, a não ser que o Dia do Senhor esteja muito próximo, nós veremos ou pressentiremos erguer-se da terra, não as catedrais góticas mas o seu equivalente: veremos ou pressentiremos um povo de Deus muito mais vasto; veremos ou pressentiremos um homem mais humano, um homem que não terá vergonha de se olhar em face porque se verá à luz de Deus. À luz de Deus que o criou à Sua imagem e semelhança de Criador, à luz de Deus que o recriou pela morte e ressurreição do Seu próprio Filho, Jesus Cristo.

 

P. Manuel Antunes, SJ
In Brotéria, abril 1958
09.10.13

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