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Cinema: "Estações da Cruz"

Imagem Cartaz (det.) | D.R.

Cinema: "Estações da Cruz"

Não é sem algum embaraço que assistimos a "Estações da Cruz". O redutor simplismo com que nos vamos colocando as questões da fé e da experiência dessa fé no concreto da vida é fortemente abalado pela, ela sim, simplicidade cortante deste filme. Por apenas 14 planos fixos, um por cada estação da Via Crucis, acompanhamos a trágica jornada espiritual de Maria.

Proveniente de uma minoritária comunidade que se organiza em volta da Fraternidade Sacerdotal de S. Paulo (ficção a partir da Fraternidade Sacerdotal S. Pio X, que teve bispos excomungados entre 1988 e 2009 e que, atualmente, não tem estatuto canónico na Igreja católica), Maria, 14 anos, vive enredada entre as contradições do legalismo com que a família e o padre Weber vivem e lhe transmitem a fé, as pulsões naturais de uma adolescência e a censura, quando não intolerância, de um mundo cada vez mais secularizado, sexualizado e adverso à gramática do religioso.

Na semana que antecede a Confirmação, e no seu percurso de preparação para este sacramento, Maria dá a sua vida em sacrifício pela cura do pequeno irmão autista. É esta a motivação com que Maria se propõe a um caminho de santidade. E aqui a perplexidade surge-nos, desde logo, pelo contexto rigorista em que Maria cresce.

Em "Estações da Cruz" a forma é inextricável das questões que levanta. A coincidência formal das 14 estações do caminho da Cruz, com os 14 longos planos fixos em que se desenvolve o filme, é essencial para a compreensão deste olhar cru sobre os mistérios da fé e da experiência religiosa. A austeridade formal e a secura da câmara relegam à palavra o privilégio na construção das relações que as personagens estabelecem entre si. E é pela palavra que Maria procura, inocentemente, dizer-se e dizer Deus. Sem questionarmos a autenticidade da fé de Maria – por ser o indizível a paradoxal forja da fé de cada mulher e homem – é questionável o rigor implacável com que lhe são transmitidos os fundamentos dessa fé.

"Estações da Cruz" recusa a provocação fútil ou sequer propõe um juízo na apresentação das personagens que, a nossos olhos, porventura corrompem e distorcem os fundamentos da fé católica. Antes, somos interpelados pelo mistério da fé. E é aqui o enigma do filme: uma fé que pode ser destrutiva e disruptiva se vivida pelo rigor da letra da lei; ou resgate do Homem e da sua humanidade interpelado pelo Deus do amor e misericórdia.

É do ventre da experiência religiosa que nascem as civilizações, apesar da original e trágica hipótese moderna de um mundo sem Deus. Quando o papa emérito Ratzinger nos diz que «existem tantos caminhos para Deus quantos os seres humanos», sabemos que a experiência religiosa é absolutamente diversa em cada um de nós. Radicalmente diferente. Na certeza de que a busca de Deus é provavelmente a mais radical experiência humana. E aquela que, desde os alvores da Humanidade, dá forma às civilizações.

A questão central em "Estações da Cruz" é o modo como a teia legalista sufoca a fé de Maria e, por extensão, a própria Maria. Por Paulo somos advertidos de que a «letra mata» – e se há alguém vive com radicalidade o Espírito do Ressuscitado é o Apóstolo –, e é a esta luz que a Cruz, aqui, vai perdendo o seu sentido, amarrada a uma rede asfixiante que destrói aquilo que, pela fé, deverá ser radicalmente livre: o coração de cada mulher, o coração de cada homem.

 

joão amaro correia
Publicado em 01.09.2015

 

Título: Estações da Cruz (DVD)
Realização: Dietrich Brüggemann
Ano: 2014
Duração: 107 m.

 

 
Imagem Cartaz | D.R.
A austeridade formal e a secura da câmara relegam à palavra o privilégio na construção das relações que as personagens estabelecem entre si. E é pela palavra que Maria procura, inocentemente, dizer-se e dizer Deus.
É aqui o enigma do filme: uma fé que pode ser destrutiva e disruptiva se vivida pelo rigor da letra da lei; ou resgate do Homem e da sua humanidade interpelado pelo Deus do amor e misericórdia
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