Eusébio, «grandeza sem arrogância»: Jornal do Vaticano elogia "Pantera Negra"
«Grandeza sem arrogância» é o título de um artigo de meia página que o jornal do Vaticano, "L'Osservatore Romano", dedica esta quarta-feira ao futebolista português Eusébio, que morreu no último domingo depois de ter sido um «vencedor no desporto e na vida».
«Três dias de luto nacional foram promulgados em Portugal pela morte (no passado 5 de janeiro) de Eusébio da Silva Ferreira - só Eusébio para os apaixonados do futebol - considerado um dos maiores atletas de todos os tempos nesta disciplina», escreve Pierluigi Natalia a abrir o texto.
Nos anos 60, o futebol era uma questão sobretudo «sul-americana e europeia», enquanto que o Pantera Negra «era um africano» nascido em Moçambique, então «colónia portuguesa», recorda o autor.
«Em 1966, o ano do mundial em Inglaterra que o consagrou como melhor jogador do campeonato, entre a sua terra de origem e a sua pátria de eleição havia já a guerra civil», mas «nunca Eusébio aceitou instrumentalizar-se de uma ou outra parte». «Nunca ninguém, em Portugal ou em Moçambique, o considerou expressão do inimigo».
«Como muitos campeões - há poucos hoje, num futebol pensado sobretudo como "show business" - Eusébio foi homem de apenas duas camisolas, a do clube, o Benfica, e a nacional», realça o autor, referindo-se aos emblemas que o «afroportuguês» representou na maior parte da sua carreira.
O texto assinala que Eusébio foi «durante anos considerado a resposta europeia a Pelé, o futebolista brasileiro considerado por muitos o maior de todos os tempos, também ele de apenas duas camisolas, a do Santos e da seleção nacional».
«Não assinou, como Pelé, 1300 golos, mas vê-lo jogar - numa época em que a televisão começava a dar a conhecer em muitos países o futebol internacional - foi sempre um acontecimento, destaca Natalia.
O jornal da Santa Sé elogia a «progressão impressionante» de Eusébio, o tempo de corrida e o «controlo de bola, superior ao de muitos dos bem melhores treinados atletas de hoje».
No mundial de Inglaterra, ainda que o terceiro lugar final da seleção, «graças sobretudo aos seus golos, tenha sido o melhor resultado de sempre para Portugal», e apesar de ter sido o principal impulsionador do seu clube em vitórias nacionais e internacionais, «Eusébio nunca mostrou arrogância».
A ausência de um título mundial a nível de seleção nacional, como também aconteceu na carreira de jogadores famosos como o holandês Cruijff, o francês Platini, hoje presidente da UEFA, ou o alemão Beckenbauer, «nunca o pôs em liça nas discussões para estabelecer quem foi o maior de sempre».
Quando perguntavam a Eusébio quem era, para ele, o melhor jogador do mundo, continua o artigo, «não indicava nem Pelé nem Maradona, mas outro grande jogador, nascido num continente e tornado cidadão de outro, o argentino naturalizado espanhol Alfredo Di Stefano, que também nunca foi campeão do mundo».
«O futebol em Portugal recordou Eusébio com um minuto de silêncio em todos os campos. Fá-lo sempre em circunstâncias similares. Mas talvez o espírito do campeão tenha apreciado ainda mais o minuto ininterrupto de aplausos que lhe foi dedicado num outro estádio naquela Inglaterra que o deu a conhecer ao mundo».
Natalia refere-se ao "Old Trafford", casa do Manchester United, «que ao Benfica de Eusébio infligiu uma das derrotas mais dolorosas, na final da Taça dos Campeões de 1968, em "Wembley", o principal estádio de Londres».
«Desta vez, porém, não foi a homenagem a uma derrota no campo, mas o tributo - de afeto e de saudade - por um vencedor no desporto e na vida», realça o autor a terminar o artigo.

Rui Jorge Martins
© SNPC |
08.01.14

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