

«Falta-me a fé e, portanto, nunca poderei ser um homem feliz, porque um homem feliz não pode ter o temor que a própria vida seja apenas um vaguear insensato para uma morte certa. Não herdei o bem escondido furor do cético, o gosto do deserto caro ao racionalista ou a ardente inocência do ateu. Não ouso, por isso, lançar pedras sobre a mulher que crê em coisas de que duvido.»
Tinha só 31 anos e estava já no topo do sucesso; todavia, a 4 de novembro de 1954, tirou a própria vida. Estamos a falar de um dos maiores escritores suecos, Stig Dagerman, que em Portugal pode ser lido, por exemplo, nas editoras Antígona, Cotovia e Relógio D'Água.
É exatamente de um dos seus livros, "A nossa necessidade de consolação", que extraímos esta extraordinária confissão que poderia ser subscrita também por não poucas pessoas sérias e sinceras nos nossos dias. A sua profunda amargura nasce precisamente da ausência de uma fé, e este vazio torna-se progressivamente como um buraco negro que te aspira e te faz desesperar.
O mistério da fé, que é ao mesmo tempo dom divino e procura humana, só deixa indiferentes as pessoas superficiais que se contentam com a exterioridade, procurando sepultar sob um manto de coisas e de prazeres o anseio íntimo do seu espírito.
Quem, ao contrário, como Dagerman, sabe quanto é decisivo encontrar um sentido transcendente para a vida não se isola num ceticismo irónico e frio nem se satisfaz com teorias ateias e, sobretudo, não condena a pessoa simples e serena que crê.
O testemunho de Dagerman vale também para nós, crentes: é necessário estar à procura, com a inquietude da pergunta, a expetativa de um encontro, sem se resignar ao deserto e ao «vaguear insensato».
P. (Card.) Gianfranco Ravasi