Perspetivas
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosIgreja e CulturaPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosPerspetivasConcílio Vaticano II - 50 anosPapa FranciscoBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

Fé, cultura e sociedade (1): O princípio personalista

O horizonte temático sugerido pelo trinómio «moralidade, economia, sociedade secularizada» - ou, alargando o olhar, «fé, cultura, sociedade» - é evidentemente imenso e admite infinitos percursos de análise e múltiplos resultados de balanço e de síntese. Por isso é inegável que a nossa poderá ser apenas uma reflexão emblemática no interior da qual se abrem espaços em branco, passíveis de ulteriores e amplas considerações.

 

Uma premissa

Iniciamos com uma premissa. «Economia» é uma palavra grega que significa «a lei da casa» do mundo, na qual devem ser consideradas antes de tudo as pessoas antes de qualquer realidade financeira. Finança e economia não são, por isso, sinónimos. O elemento fundamental é reconhecer que a figura central que domina o horizonte é a pessoa humana. A finança é apenas um instrumento que deve estar ao serviço da economia, que é a regra da vida social de toda a humanidade.

Em momentos difíceis há a necessidade de recuperar alguns valores culturais e éticos fundadores. Enquanto homem de Igreja e exegeta bíblico, gostaria de partir da visão cristã profundamente inervada no interior da sociedade e da cultura, ao ponto de constituir uma presença imprescindível. Com efeito, como é sabido, a tese central do cristianismo permanece na incarnação: «O Verbo fez-se carne» (João 1, 14). Portanto, no cristianismo há um entrelaçamento entre fé e história, e, por isso, um contacto entre religião e vida política e social.

Assim, tratar deste tema penetra nos próprios fundamentos da experiência judaico-cristã, e portanto da Bíblia, que entre outras dimensões é também o «grande códice» da nossa cultura ocidental. Goethe considerava o cristianismo a «língua materna» da Europa, na medida em que representa uma espécie de "impressão" que todos nós temos por trás. Para alguns talvez possa ser um peso; para muitos, ao contrário, permanece uma herança preciosa.

Para desenvolver o tema de forma simplificada, confiar-nos-emos a quatro componentes ou princípios emblemáticos fundamentais, deixando entre parêntesis outros igualmente relevantes.

 

1. O princípio personalista

A primeira conceção radical que propomos poderia ser definida como o "princípio personalista". O conceito de pessoa, que para o seu nascimento teve também a contribuição de outras correntes de pensamento, adquire efetivamente no mundo judaico-cristão uma configuração particular através de um rosto que tem um duplo perfil, e que agora representaremos fazendo referência a dois textos bíblicos essenciais que são quase o início absoluto da antropologia cristã e da própria antropologia ocidental.

O primeiro texto provém de Génesis 1,27, e portanto das primeiras linhas da Bíblia: «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher».

Aparece aqui a primeira dimensão antropológica: "horizontal", isto é, a grandeza da natureza humana é situada na relação entre homem e mulher. Trata-se de uma relação fecunda que nos torna semelhantes ao Criador («imagem de Deus») porque, gerando, a humanidade, em certo sentido, continua a criação. Eis, então, um primeiro elemento fundamental: a relação, o ser em sociedade é estrutural para a pessoa. O homem não é uma mónada fechada em si mesma, mas é, por excelência, um "eu ad extra", uma realidade aberta. Só assim ele alcança a sua plena dignidade, tornando-se a «imagem de Deus». Esta relação é constituída por dois rostos diferentes e complementares do homem e da mulher que se encontram (relevante, a este respeito, é a reflexão de Lévinas).

Permanecendo no âmbito deste primeiro fundamental princípio personalista, passamos a outra dimensão que já não é horizontal, mas "vertical", que ilustramos continuando a recorrer a outra frase do Génesis: «O Senhor Deus formou o homem do pó da terra». Isto é típico de todas as cosmologias orientais e é uma maneira simbólica de definir a materialidade do homem. Mas acrescenta-se: «E insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo» (2, 7).

Para intuir o verdadeiro significado do texto é necessário voltar ao original hebraico: "nishmat hayyîm", locução que no Antigo Testamento ocorre 26 vezes e, curiosamente, é aplicada só a Deus e ao homem, nunca aos animais ("rûah", o espírito, a alma, a respiração vital para a Bíblia, está, por seu lado, presente também nos animais). Este categoria antropológica específica é explicada por um passo do livro bíblico dos Provérbios: no homem, a "nishmat hayyîm" é uma «lâmpada do Senhor, que penetra todos os recônditos do ser» (20, 27).

Como é fácil de imaginar, é mediante esta simbólica que se chega à representação da capacidade do homem de se conhecer, de ter uma consciência e até de entrar no inconsciente (o hebraico usa a imagem forte de «câmara escura do ventre»). Trata-se da representação da interioridade última, profunda, que a Bíblia noutros trechos descreve simbolicamente com "reni".

O que insufla, pois, Deus em nós? Uma qualidade que só ele tem e que nós partilhamos com ele e que podemos definir como "autoconsciência", mas também "consciência ética". Logo depois, com efeito, sempre na mesma página bíblica, o homem é apresentado, sozinho, debaixo da «árvore do conhecimento do bem e do mal», uma árvore evidentemente metafórica, metafísica, ética, enquanto representação da moral.

Temos, assim, identificada outra dimensão: o homem possui uma capacidade transcendente que o leva a estar unido "verticalmente" ao próprio Deus. É a capacidade de penetrar em si mesmo, de ter uma interioridade, uma intimidade, uma espiritualidade. A dúplice representação ético-religiosa da pessoa descrita até agora na relação com o próximo e com Deus poderá ser delineada com uma imagem muito sugestiva de Wittgenstein, que no prefácio ao "Tractatus logico-philosophicus", ilustra o objetivo do seu trabalho.

Ele afirma que a sua intenção era investigar os contornos de uma ilha, ou seja, o homem circunscrito e limitado. Mas o que descobriu no fim foram as fronteiras do oceano. A parábola é clara: se se caminha numa ilha e se se olha apenas para um lado, para terra, há o risco de a circunscrever, medi-la e defini-la. Mas se o olhar é mais vasto e completo e se dirige também para o outro lado, descobre que sobre esse confim batem igualmente as ondas do oceano. Na essência, como afirmam as religiões, na humanidade há um entretecimento entre a finitude limitada e qualquer coisa de transcendente, conforme depois se deseja defini-lo.

 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho da Cultura
Budapeste, Hungria, Átrio dos Gentios, 6.2.2014
In Pontifício Conselho da Cultura
Trad.: SNPC/rjm
06.02.14

Redes sociais, e-mail, imprimir

Foto

 

 

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Receba por e-mail as novidades do site da Pastoral da Cultura


Siga-nos no Facebook

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página