Cinema
Daniel Sousa e "Feral": Animação portuguesa é candidata aos Óscares
Anunciada a lista de nomeados para os cobiçados Óscares, Portugal recebeu com enorme surpresa e orgulho a notícia de um candidato luso na categoria de curtas metragens de animação.
Um feito inédito conseguido pelo jovem realizador Daniel Sousa que, juntamente com o norte-americano Dan Golden, responsável pelo som, e o seu "Feral" (13 minutos), se juntam a uma já longa lista de realizadores portugueses merecedores do reconhecimento internacional pelo valor das suas obras.
Em três dezenas de filmes que tentaram a sua sorte desde 1980, aos quais se associam nomes como os de Manoel de Oliveira, Miguel Gomes, Pedro Costa, João Botelho, Marco Martins, João Canijo ou Teresa Villaverde, "Feral" é finalmente a obra que se eleva a um dos mais desejados ecrãs do panorama cinematográfico mundial. Certamente por combinar qualidade artística e temática com uma linguagem ágil e, pelo menos, universal.
O facto de se tratar dum formato menos sujeito à poderosa concorrência da indústria cinematográfica, caso das longas metragens de ficção, ajudará ao feito, tal como não é alheia a radicação de Daniel Sousa, há muito, nos Estados Unidos, com currículo reconhecido, que regista a passagem pelo Cartoon Network.
Cofundador da Handcrankedfilm, produtora independente, dedica grande parte da sua vida ao ensino e formação em instituições como a Uiversidade de Harvard, a Museum School, o Instituto de Artes de Boston e a Escola de Design de Rhode Island.
Os seus filmes, sempre curtas metragens e todos de animação, destacam-se pela renovação de uma gramática de busca, de sentido de existência e de relação, partindo de temas e contos clássicos para equacionar um ser-se humano no nosso tempo.
"Minotauro" (1998), reinterpreta o mito grego colocando-nos na perspetiva de um monstro perdido numa labiríntica solidão em que a ideia de si, entre sombras e espelhos, e a procura de um outro que lhe confira existência, se encontram e desencontram no imaginado e real.
Anos mais tarde, "O Moinho" (2007) é uma evocação de infância que combina técnicas de vídeo e impressão com pintura a acrílico para ilustrar um lugar de silêncio e recolhimento, numa passagem da vida mundana para a espiritual.
Finalmente, "Feral" (palavra inglesa que significa "selvagem), obra que passou pela última edição do Indielisboa, que corre mundo em projeções e que se espera chegue ao circuito comercial português, no seu devido formato em sala de cinema (independentemente de arrecadar o Óscar), é uma nova incursão à infância na história de um menino encontrado na floresta que tenta adaptar-se a uma civilização alheia, usando os mesmos recursos do seu ambiente.
Tirando o melhor partido da animação digital de ponta e combinando-a com outras tantas técnicas de expressão plástica, Daniel de Sousa é sem sombra de dúvida um criador a acompanhar, pelo uso inteligente da sua criatividade, pela amplitude do olhar sobre o mundo contemporâneo valorizando narrativas intemporais, e pela profundidade da sua reflexão.
Margarida Ataíde
Grupo de Cinema do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
In Agência Ecclesia | Com SNPC
24.01.14









