Religiosidade dos super-heróis
Hulk é de verdade católico?
Bastará um rosário apertado numa mão para definir católica uma pessoa? É, seguramente, suficiente para qualificar o credo religioso de um super-herói de banda desenhada como Hulk, conforme o parecer qualificado do primeiro sítio americano especializado no tema (www.comicbookreligion.
com). Mas este não é o único indício do personagem em questão: Bruce Banner, o incrível homem verde, casou-se com a amada Betty Ross numa igreja e o rito foi oficiado por um sacerdote católico. E ainda outros sinais disseminados entre as centenas de tiras a ele dedicadas revelam inequivocamente a sua fé.
Mas Hulk não parece um caso isolado entre os super-heróis. No universo da banda desenhada da Marvel e da Dc Comics (as principais marcas deste género), são em número significativo, e não uma exceção, os personagens com poderes excecionais que declaram explicitamente o seu credo. Todavia, esta é uma descoberta relativamente recente. Se é verdade que já em 1938, nos alvores de Superman, aparecia um religioso ao lado de um condenado à morte, somente há alguns decénios a religião entrou explicitamente neste mundo dos heróis de papel (e de celuloide). Antes os autores, referindo-se ao mundo antigo, tinham delineado uma moderna mitologia para criar e enquadrar os seus personagens, nos quais se encontravam evidentes evocações da tradição grega. Uma mitologia que se transformou, com o passar do tempo, numa espécie de universo religioso que, aos poucos, foi reproduzindo o panorama da fé norte-americana.
A evolução foi de tal forma evidente que levou à publicação de alguns livros dedicados ao tema: Holy Superheroes, de Greg Garrett, em 2005 (com uma nova edição ampliada em 2008); The Gospel According to the World’s Greatest Superhero, de Stephen Skelton, e The Gospel According to Superheroes, de B. J. Oropeza, ambos de 2006. Neste mesmo ano a revista Newsweek dedicava um artigo ao tema da religião na banda desenhada dos super-heróis, testemunhando assim que do outro lado do oceano a questão não é considerada de pouca monta ou relegável para o campo das meras curiosidades. A confirmá-lo, posteriormente, está a uma notícia da Associated Press segundo a qual o número de bandas desenhadas com fundo cristão tinha crescido rapidamente nos últimos tempos, inclusivamente com não poucas referências às histórias e aos ensinamentos bíblicos.
Super-Homem
No fundo, o sexo dos anjos, neste caso dos potentes heróis das tiras, surge na América como sendo um tema menos interessante do que o do seu credo religioso. E a renovar este interesse por um tema por vezes considerado tabu, pense-se no último filme do Super-homem, O homem de aço, que reabriu o debate acerca da religiosidade do jornalista Clark Kent. Na película não apenas se confirma a sua fé cristã – metodista, para se ser exato – tal como é evidenciado diversas vezes nos livros, mas opera-se um ousado salto exegético, a tal ponto que levou a impressa norte-americana a falar inclusivamente de uma dimensão cristológica do personagem.
Exageros? Talvez, mas não demasiado, segundo o sentir do realizador, Snyder: «Em muitos diálogos – explicou – a referência à religião cristã é direta. Quando Jor-El, o pai kryptoniano, coloca o recém-nascido na pequena nave espacial para o enviar à Terra, a mãe Lara tem medo: «Será marginalizado. Matá-lo-ão». E o marido responde: «Será um Deus para eles». Também Kal (o nome de Clark Kent em Krypton, ndr) alimenta dúvidas, procura respostas: «Meu pai pensava que se o mundo tivesse descoberto quem eu era, ter-me-ia recusado. Estava convencido de que o mundo não estava pronto».
Homem Aranha
Mas analisemos este universo religioso dos super-heróis, personagens caracterizadas por uma dupla natureza, humana e divina, com poderes que parecem versões atualizadas daqueles atributos dos deuses da antiguidade, mas com características diversas: os primeiros eram viciados, mentirosos e inclinados a satisfazer as próprias vontades e paixões; os segundos aparecem mais propensos a combater contra as injustiças do mundo, a prepotência dos gananciosos, a intervir para restabelecer uma ordem momentaneamente perdida e a correr em auxílio do próximo. Qualquer um poderia arriscar uma qualquer semelhança com os santos, mas preferimos não entrar neste terreno minado e aventar improváveis semelhanças entre os milagres realizados por estes últimos (não pela sua vontade mas pela intercessão) e os poderes pessoais dos primeiros.
Antes do mais, é preciso partir de uma consideração: a maior parte dos super-heróis são cristãos protestantes, porque, ainda que com variantes, o protestantismo é uma das confissões mais difundidas nos Estados Unidos. Isto não obstante uma das duas casas editoras citadas, a Marvel, ter sido fundada em 1939 por um hebreu, Martin Goodman, e os autores da banda desenhada serem na maioria hebreus. Este facto, segundo alguns, não deveria espantar, porque esconderia a fantasia inconsciente de realizar através de um personagem de super-herói a vinda daquele messias aguardado.
Catwoman
Contudo, importa dizer que não escasseiam personagens que declaram abertamente a sua fé hebreia, como Shadowcat, que veste um colar com a estrela de David. O mais famoso de todos é certamente a Coisa, o pétreo Ben Grimm do Quarteto fantástico, que numa tira de 2002 recita a oração da tradição hebraica: Shema Yisrael. E nessa mesma história, interrogado pelo criminoso de turno – «És de verdade hebreu?» – para eliminar equívocos responde: «Há problema com isso?»
Regressando aos super-heróis registados como cristãos, entre os protestantes figuram entre outros o Homem Aranha e o Capitão América. Acerca da religiosidade do primeiro, em 2006, foi o próprio redator chefe da Marvel – Joe Quesada – a eliminar qualquer dúvida: «Peter Parker é um cristão protestante convicto». Com efeito, não são poucos os momentos em que ele se dirige ao Omnipotente. Como quando, devastado pelos acontecimentos, abre a Bíblia e diz: «Ei Deus? É novamente o Peter…». E, numa outra circunstância, não hesita em pôr-lhe uma questão delicada: «Por que é que o mal afeta os bons»? Dando depois uma resposta só aparentemente superficial: «Não to posso dizer. Se não lá se ia a surpresa».
Nightcrawler
Se não é suficiente, pode-se sempre evocar aquela vez em que a tia May recitou o Pai-nosso para afastar o pérfido Goblin. Quanto a Steven «Steve» Rogers, no mundo Capitão América, ele encarna na perfeição os ideais mais elevados da América e não se poupa em declarações acerca do seu credo. Numa série bastante recente, admite explicitamente ir à igreja todos os Domingos para participar do serviço comunitário.
Entre os protestantes há ainda Ciclope dos X-Men, ainda que na equipa o mais piedoso seja Wolfsbane, presbiteriano escocês, um dos trinta e três personagens da Marvel definidos como estando entre os mais religiosos. Os próprios trinta e três, na saga Infinity crusade (1993), são raptados por uma deusa que depois os usa numa cruzada pessoal para libertar a galáxia de forças maléficas e restituir-lhe a paz.
Batman
Entre os episcopalianos figuram a Mulher Invisível e o Batman. Nas histórias deste último, com frequência aparece a cross bottony presente na bandeira do [estado de] Maryland, cujo governo era formado por anglicanos que conseguiram tomar o domínio desta colónia originalmente católica. Não faltam indícios para afiliar Bruce Wayne ao catolicismo, religião da sua mãe, mas os exegetas mais atentos não confirmam tal asserção.
Regressando, por assim dizer, aos católicos, no longo elenco não faltam surpresas. Selina Kyle ou Catwoman, por exemplo, será católica (ainda que não particularmente devota), podendo até valer-se de ter uma irmã freira. Mais segura parece a atribuição em O Vingador de Heather Hudson, como mostram o seu matrimónio e a posterior renovação dos votos matrimoniais, além de uma história em que é precisamente a fé a salvá-la na luta com Dargil. Nenhuma dúvida acerca de Nightcrawler dos X-Men, aparentemente o mais praticante e devoto de todos. Nas suas histórias a referência ao seu catolicismo é clara desde o início, e é confirmada também no recente filme X-Men 2. Num livro de 2007, ao partir para uma missão muito perigosa, confia que recordará todos os seus amigos nas suas orações e que não se esquecerá sequer dos inimigos que vai enfrentar.
Hulk
Apesar do nome, também Daredevil de Hell’s Kitchen é católico. Confessa-o ele próprio num diálogo com Peter Parker e declara-o também à sua mulher, a qual, logo após o casamento, o define como «um bom cristão». Além disso, no filme interpretado por Ben Affleck, Matt Murdock aparece como amigo de um sacerdote católico. Também aqui, como na banda desenhada, o confronto final com o mau de turno dá-se numa catedral católica. Mas, caso ainda houvessem dúvidas, é Frank Miller, um dos autores das tiras, a dar o imprimatur: «Imagino Daredevil como um católico porque somente um católico pode ser um advogado e um vigilante ao mesmo tempo».
E as outras religiões? Mais ou menos todas têm os seus super-heróis e outros personagens classificados como hindus, xintoístas, budistas, taoistas e também muçulmanos. A fileira destes últimos enriqueceu-se no passado mês de setembro, com um novo herói graças à Dc Comics. Trata-se de Simon Baz, árabe americano de origens libanesas, pertencente ao grupo da polícia espacial das Lanternas Verdes. A sua história inicia-se com ele ainda criança que assiste à queda das Torres Gémeas. Enquanto cresce torna-se um delinquente, mas depois algo transformará a sua vida. Não sabemos se o personagem ajudará a desfazer alguns estereótipos, mas a intuição parece interessante.
No final desta viagem, interessante e sumária, cabe perguntar se tudo isto tem valor. Seguramente também o mundo de hoje parece ter necessidade de heróis positivos, impávidos e justos, que na eterna luta entre o bem e o mal sabem sempre escolher de que parte estar. E se por detrás desta escolha estão, de forma mais ou menos explícita, motivações religiosas, tanto melhor, visto que não raramente a religião é usada para justificar injustiças e violências.
Gaettano Vallini
In L'Osservatore Romano, 5.7.2013
Tradução: Alexandre Palma
© SNPC (trad.) |
07.07.13

Hulk








