Leitura
Humanizar a sociedade
Enquadrar a Doutrina Social da Igreja com o pensamento moderno e como resposta a problemas concretos é um dos objetivos do livro “Humanizar a sociedade – Responsabilidade de todos, contributo dos mais vulneráveis”, de Georgino Rocha, recentemente lançado pela Editorial Cáritas.
O autor vinca a «imprescindibilidade duma educação enquadrada em paradigmas diferentes e, dum modo particular, o elogio a um estilo de vida sóbrio e solidário», o que «exige rutura com alguns hábitos, mas emerge como concentração elucidativa duma sociedade nova».
Apresentamos um excerto do prefácio, assinado por D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga e presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, organismo responsável pelas instituições de ação de social da Igreja católica, onde a Cáritas Portuguesa se inclui.
Prefácio
D. Jorge Ortiga
A humanidade passou por variadíssimas situações de crise. Todas elas tiveram uma matriz peculiar. Hoje acentua-se, e com verdade, a dimensão económico-financeira. “Mais do que uma fonte de riqueza monetária, ela manifesta-se como uma parte de riqueza relacional. Como é evidente, a economia tem a ver com as necessidades, com os bens e com o dinheiro, mas a sua principal finalidade está para além deles. Serve, antes de mais, para pensar a convivência, revelando e suscitando o ‘interesse pelo outro’. Associada à convivência humana, a economia torna-se assim um lugar de aliança e não só de contrato, um lugar de confiança e não só de estratégia, num lugar de utopia e não só de técnica” (Elena Lasida, O Sentido do Outro, 2011, Paulinas, pág. 7).
Aliar o divino com o humano, o espiritual com o material, poderá ser a concretização da utopia dum mundo novo construído por homens e mulheres novas, nesta consciência e vivência de pertencer à família humana onde as relações são de fraternidade, gratuitidade e generosidade.
A Igreja, ao longo da história, foi concretizando o seu contributo para ultrapassar as crises, insistindo e dando prioridade ao comunitário. É curioso o testemunho dos Atos dos Apóstolos e o esforço constante em edificar comunidades alicerçadas no amor e abertas à generosidade e solidariedade.
Logo no séc. I, o sucessor de São Pedro, o papa Clemente I, escrevia aos cristãos de Corinto: “Sirva-nos de exemplo o nosso corpo. A cabeça de nada vale sem os pés, nem os pés sem a cabeça. Os membros do nosso corpo, ainda os mais insignificantes, são necessários e úteis ao corpo inteiro; mais ainda, cada um contribui, em perfeita subordinação, para salvar todo o corpo. Asseguremos, portanto, a salvação de todo o corpo que formamos em Cristo Jesus e cada um se submeta ao seu próximo segundo o dom de graça que lhe foi concedido. O forte proteja o fraco e o fraco respeite o forte; o rico seja generoso para com o pobre e o pobre louve a Deus por lhe ter proporcionado alguém que o auxilie na pobreza. O sábio manifeste a sua ciência não só pelas palavras mas por boas obras; o humilde não dê testemunho de si mesmo, mas deixe isso ao cuidado dos outros. O que é casto de corpo não se vanglorie, sabendo que é de Deus que lhe vem o dom da convivência”.
Esta ideia da humanidade como corpo, experiência da família e comunhão, basta para a tornar fonte geradora duma sociedade nova, porque mais humana. Se a ideia é imprescindível, a sua comunicação exige arte, engenho, competência e experiência. S. Clemente alertava para o encargo do sóbrio comunicar a sua ciência. O P.e Georgino Rocha já nos habituou nos seus variados estudos, assim como no ministério pastoral a esta capacidade de síntese e de convergência da reflexão com os desafios. A obra que temos entre mãos é a confirmação duma capacidade em conjugar a reflexão nos seus ensaios, apresentando propostas no domínio da sugestão e oferecendo testemunhos que sublinham não tratar-se duma teoria longínqua ou afastada do contexto. Nesta perspectiva, resulta um tratado inovador e motivador para o empenho e compromisso de todos.
Quando sublinhava a urgência de humanizar a sociedade, colocando-a diante dum humanismo de relação, poderia dar a entender tratar-se dum trabalho de alguns peritos e dotados de qualidades invulgares. O texto de S. Clemente desmonta esta tendência de deleguismo e expectativa para uma corresponsabilidade, onde o óbolo da viúva ocupa lugar de primordial importância. Não há sujeitos e destinatários. Todos devem ser sujeitos, dando vida a uma participação ativa ou a uma cidadania responsável com atitudes e comportamentos marcados pela presença na sociedade, pela vontade de conhecer e pela responsabilidade de denunciar as situações desumanizadores pessoais ou alheias.
Se todos são sujeitos, ninguém pode ser mero objeto que recebe sem nada dar numa aceitação dum assistencialismo que não dignifica ninguém. Os mais fragilizados ou os que pensam ser importantes nunca poderão colocar-se à margem da comunidade humana. Devem integrar-se e fazer ver, nunca por oportunismo ou aproveitamento egoísta, a situação em que se envolveram ou para a qual se viram empurrados, por culpa própria ou pela habilidade desrespeitadora dos direitos humanos. Todos têm um tesouro que a humanidade deve descobrir, para isso, esta necessita da sua manifestação para acordar da inércia ou para a incomodar pelos oportunismos de algumas que sabem explorar mesmo sem olhar aos meios. A obrigatoriedade é de todos e ninguém é incapaz.
O caminho de “humanizar a sociedade”, através da responsabilidade de todos, incluindo os mais vulneráveis, perpassa por todos os capítulos onde se procura situar a Doutrina Social da Igreja em consonância com o pensamento moderno e como resposta a problemas concretos. A temática abordada não pretende ser exaustiva mas elucidativa.
Sublinho quanto se refere à comunicação humana, à família com o papel de força renovadora da sociedade, a imprescindibilidade duma educação enquadrada em paradigmas diferentes e, dum modo particular, o elogio a um estilo de vida sóbrio e solidário. Este último assunto exige rutura com alguns hábitos, mas emerge como concentração elucidativa duma sociedade nova.
Fixando o olhar nas pessoas, merece uma referência que mostra o carinho e a ternura do autor por três categorias de pessoas: os ciganos, os presos e os idosos. A doutrina da Igreja é confirmada pela legislação civil e tudo é orientado para uma ação conjunta de libertação e integração na sociedade portuguesa. São exemplos que podem assegurar como houve preocupação de referir as situações periféricas e sair dos mundos habituais e suscitar maior diálogo para um caminho dum verdadeiro humanismo que afeta todas as categorias de pessoas.
Gostei de verificar a referência ao voluntariado e ao papel dos avós. Duas áreas que apresentaria como espaços concretos da responsabilidade que cada um deve assumir.
Concluindo, creio poder afirmar que o leitor não encontrará nas páginas deste trabalho uma leitura tranquilizante e de vazio passatempo. O conhecimento da realidade, através de testemunhos ou dados devidamente estudados, lançam desafios a que o leitor não deve ficar indiferente. No dever de humanizar a sociedade como tarefa de cada um, descortino o apelo para um ano ativo expresso na “bondade e ternura” desejadas pelo Papa Francisco. A renovação da Igreja passa por aqui e a sua credibilidade sai reforçada se a leitura gerar verdadeira responsabilidade, levando o discurso para o âmbito da análise dos comportamentos relacionais que, na verdade do testemunho de cada um, darão um certo rosto novo à sociedade portuguesa, obcecada pelos problemas importantes das finanças e das economias mas que não ousa acreditar na possibilidade e urgência dum novo modelo de sociedade.
A Igreja em Portugal, depois de uma longa caminhada sinodal elaborou uma pequena Nota Pastoral para “Promover a Renovação da Pastoral da Igreja em Portugal”. Aí os bispos portugueses, com muito afeto, afirmam quase como conclusão: “vela sempre, com afeto maternal, por todos os teus filhos e filhas, e nunca deixes que se transformem em meros funcionários, perdendo ardor e o primeiro amor”.
Que este livro seja mais um contributo!
In Humanizar a sociedade, ed. Cáritas
05.11.13

Porque devemos
chamar-nos cristãos
Autor
Georgino Rocha
Editora
Cáritas
Ano
2013
Páginas
315
Preço
18,00 €
ISBN
978-972-9008-17-7








