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"Instituto de Antropologia": poesia de Jorge Reis-Sá

A Salvação do Mundo

Não existe num verso nada de útil à salvação do mundo.
O poema não tem mais do que uma casa, paredes caiadas
de branco, os azulejos a rebaterem o sol contra a sombra,
dizendo-lhe o seu lugar. O poema é meu pai em sofrimento

na cama do hospital, estas mãos inúteis que lhe afagam
a dor, circunstância de lugar, reduz à sombra o sol. Casa

essencial, a do poema, memória e salvação de um homem.
O mundo é útil de poesia. Todos os versos são possíveis.

 

Cemitério do Prado do Repouso [1]

Dois candeeiros, um aparador, o saco com as coisas
mais íntimas no banco da frente. Chamam-se os homens

das mudanças e pede-se, clemente, que mude com os móveis
a nossa vida. Por favor, senhor Joaquim, pode-me mudar esta
tristeza que me inunda? Mas o senhor Joaquim encolhe os

ombros, ajusta a madeira na carrinha para que não risque
e diz, meu caro, mudar essas coisas só se for num camião
tir e nós, aqui na Joaquim Ribeiro Unipessoal, não temos disso.

 

Vasco Gato, Duarte Belo e Eu

1.

A noite impõe as suas palavras. Resta-nos
apontá-las, copistas medievais mediando
as estrelas. Dia virá em que

Deus escreverá sem a ajuda de ninguém
a metáfora final e definitiva. Cumprir-se-ão
as profecias, ajoelhar-me-ei ateu.

Os caules interromperão tropismos, bordarão
na terra as letras que Ele imprimiu na sua pele.

2.

Deus caminha sobre o campo nas mãos
da ceifeira que tolhe o centeio. A face calejada
pelo uso, na pele o vento

contra a foice. Debulha o caule,
borda as plantas no interior da mão.
Por cada espiga que cai, mais uma
pequena porção de Si se encontra com a terra.

 

Pátio

Estive para ser entregue a Deus desde pequeno.
Não em sacrifício, como o frango que a minha avó
ainda mata nas traseiras da casa, golpe certeiro
no pescoço, o sangue a escorrer para a bacia
para que depois se junte ao arroz solto, à noite.
Estive para ser entregue a Deus com a batina
imaculada de um padre, entregue a Nosso Senhor
por oração e valência espiritual, há-de ser este
o menino, Manel, dizia a minha avó a meu pai,

cheia de esperança. Estive por ela, pelo meu pai,
que chegou a usar batina no seminário, e por mim,
tal o encanto das coisas sagradas. A minha avó

no pátio a olhar para a entrada da casa dizia, rapaz,
vamos à missa das dez e meia como se ao céu, e eu
aprendiz de feiticeiro a ajudar à missa como gente
grande, juntando as migalhas das hóstias com Deus

Nosso Senhor ao lado. Estive para ser entregue a Deus
e sentia ser esse o meu destino. Ainda hoje, quando
no fim do jantar limpo a banca - a louça na máquina,
a hóstia celebrada no pão nosso de cada dia -, dobro
silencioso o pano da cozinha como um paramento.

Recito: graças e louvores se dêem a todo o momento.
E ouço: ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento.

 

A Definição do Amor [1]

Dantes escrevia poemas de amor. Depois disseram-me
já toda a gente o fez, nada mais havia a escrever sobre
o amor, o amor já estava em demasiados poemas. Eu
aceitei o conselho e passei a escrever poemas de morte.
Escrevi muitos poemas sobre o meu pai, morto há anos.
Até ao dia em que percebi que a morte é sinónimo do
amor. E voltei a escrever o que nada mais havia a dizer.

 

Jorge Reis-Sá
In Instituto de Antropologia, ed. Glaciar
27.06.13

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