Insubstituível palavra
"Não há mãos
que me acariciem o rosto,
(dura é a missão
destas palavras
que não conhecem amores)
não sei o que seja a doçura
dos vossos abandonos:
coube-me ser
guardião
da vossa solidão:
sou
salvador
de horas perdidas" (D.M. Turoldo)
Sem o livro de Job, o Cântico, os Salmos, o Evangelho de Lucas, o livro do Génesis, a arte, a poesia e a literatura seriam bem diversas; seriam certamente menos belas e mais pobres de palavras. Na base da força da Bíblia – incluindo a força poética – está uma radical, incondicional, absoluta fidelidade à palavra, muito difícil de entender para os leitores do nosso tempo, mas também para nós decisiva.
No ciclo de Isaac a natureza e a força da palavra emergem de uma tensão entre o plano "subversivo" de Rebeca e a vontade de Isaac. A Aliança entre JHWH e Abraão continua com dois gémeos apresentados como rivais, em conflito já no ventre da mãe («dois gémeos lutavam um contra o outro no seu ventre», 25,22). Esaú «tornou-se caçador experimentado, gostava da vida do campo. Jacob, por seu lado, era uma pessoa tranquila e apreciava a vida no acampamento» (25,27).
Paralelamente é-nos revelada uma predileção cruzada dos pais pelos filhos: «Isaac gostava mais de Esaú», ao passo que a mãe «Rebeca gostava mais de Jacob» (25,28).
Sentindo que a morte se aproximava, Isaac pediu a Esaú para ir apanhar algumas peças de caça «para te dar a minha bênção antes de morrer» (27,4).
Rebeca «tinha estado a ouvir» a conversa e disse a Jacob: «Filho, ouve agora bem aquilo que te vou dizer... Vai ao rebanho e traz-me de lá dois cabritos bons, que eu vou preparar com eles um prato saboroso como o teu pai gosta … para que ele te dê a bênção a ti antes de morrer» (27,8-10).
E Jacob: «Repare que o meu irmão, Esaú, tem muito pelo no corpo e eu não. Se o meu pai me tocar … dá-me uma maldição em vez de uma bênção» (27,11-12).
E Rebeca: «Se ele te amaldiçoar, essa maldição será para mim» (27,13). Rebeca «foi então buscar as melhores roupas de Esaú… e vestiu-as a Jacob, seu filho mais novo. Com as peles dos cabritos cobriu as mãos e o pescoço de Jacob» (27,15-17).
E Jacob foi ter com o pai e disse: «Eu sou Esaú, o teu filho mais velho» (27,19).
Isaac toca o filho e diz: «A voz parece a de Jacob, mas as mãos são as de Esaú» (27,22). Mas depois de sentir o perfume das suas roupas («Ó meu filho, tu cheiras bem como um campo», 27,28), pronuncia a sua bênção: «Que Deus te conceda a chuva do céu e boas colheitas na terra, com abundância de trigo e de vinho…» (27,28-29).
Depois da bênção roubada, Esaú regressa da caça, e oferece ao pai as suas iguarias. E Isaac: «Quem és tu?». Ele respondeu: «Sou Esaú, o teu filho mais velho» (27,32). É aqui que surge a viragem.
Um leitor moderno, que não conhecesse a sequência da narrativa, nesta altura esperaria que a justiça de Isaac o fizesse chamar Jacob e revogar a bênção, transformando-a porventura em maldição. Mas nada disso acontece: «Isaac ficou terrivelmente preocupado e disse: O teu irmão veio antes e com astúcia conseguiu levar a bênção que te era devida"» (27,35). Isaac reconhece o engano, sofre pelo filho predileto, mas não retira a bênção: «Já lhe dei a bênção, portanto fica abençoado» (27,33).
Esaú «chorou em altos gritos» (27,38). E assim Esaú entra no povo invisível dos descartados mas não abandonados, na companhia de Ismael, Caim e seus muitos filhos.
Para entrar neste complexo episódio, precisamos de suspender o juízo "ético", renunciar a análises políticas (Esaú torna-se patriarca de povos rivais de Israel) ou psicológicas sobre as atitudes de Jacob e Rebeca, para nos concentrarmos sobretudo em Isaac e na lógica da Aliança e da palavra. Isaac é o filho-dom-redoado de Abraão, continuador da Aliança de seu pai e do arco-íris de Noé, herdeiro do Pacto com aquela Voz que tinha criado o mundo dizendo-o, pronunciando-o: a Palavra que chamara Abraão pelo nome, falara com ele e, depois, também com Isaac (26,2-6). Tinham dialogado com o Deus da Palavra criadora, tinham acreditado na força daquelas palavras. As palavras que tinham dito a promessa, que tinham sido eficazes; palavras ditas para sempre.
Então, guardar e ser fiel à Aliança deveria ser também guardar e ser fiel à palavra. Mas para guardar a palavra e não a fazer degenerar, o "preço" a pagar foi a sua irrevocabilidade: se a palavra cria dizendo, então cria sempre e para sempre, mesmo quando diz fazendo fé num filho que nos está a enganar. Isaac não pôde retirar a bênção porque aquelas suas palavras eram palavras criadoras, tinham operado, tinham modificado a realidade; de Jacob, o oportunista que não olha a meios, tinham feito um abençoado «e portanto abençoado ficará».
O Génesis – e toda a cultura bíblica – salvou toda a força da Palavra afirmando e salvando também a irreversibilidade das palavras, assumindo todas as suas dolorosas, por vezes dolorosíssimas consequências – veja-se o caso, estremo, do escandaloso episódio da filha de Jefté (Juízes 11,30-50). Mas foi graças a este guardar a palavra a todo o custo que um dia foi possível escrever: "A palavra fez-se carne" (Jo 1,14).
Poetas, escritores, jornalistas, todos os que amam e são amigos da palavra, do seu valor e da sua responsabilidade, devem estar gratos a Isaac e ao Humanismo bíblico por ele ter salvo a força criadora da palavra. A nossa cultura deixou que esta força – de ser para sempre – se perdesse. Inundam-nos palavras que já não dizem nada, que se multiplicam; como se a multiplicação de palavras escritas pudesse compensar a morte do poder criador da palavra pronunciada. E assim se enchem os contratos com palavras sem conta, escritas mas jamais pronunciadas, que refletem a desconfiança e a ineficácia das palavras que lhes deveriam dar fundamento.
Mas a força dos contratos escritos só lhes pode vir da força das palavras. Os contratos surgiram como evolução dos pactos que eram – e são ainda – palavras criadoras. Os contratos são papel sem vida, quando por detrás da palavra escrita já nada mais resta de criador e eficaz – quando as civilizações decidiram pôr por escrito pactos, contratos e Lei fizeram-no para dar mais força à palavra dita, não para a substituir.
Hoje podemos encontrar alguma coisa da antiga força das palavras nos (pouquíssimos) pactos que não se tornaram ainda apenas contratos. Durante o rito matrimonial, por exemplo, são as palavras dos esposos que criam a nova realidade da «única carne», palavras que depois são reforçadas e ratificadas pelas assinaturas dos esposos e das testemunhas. Se não existissem antes as palavras criadoras, as assinaturas no registo de casamento nada diriam ou di-lo-iam muito mal. O que faz a família é o dizer-se reciprocamente a promessa; é o encontro das vozes que a cria.
Quando pretendemos dizer alguma coisa importante a um familiar ou amigo – um sério pedido de perdão, por exemplo – não basta escrever uma carta, muito menos um email. É preciso falar, dizer «perdoa-me»; é preciso ouvir dizer «estás perdoado», não basta lê-lo. Todos nós sabemos isso e não deveríamos esquecê-lo.
Tal como antigamente, para fundar relacionamentos, famílias, amizades, empresas, precisamos hoje de aprender e reaprender a falar; precisamos de dizer e voltar a dizer uns aos outros os pactos, promessas, alianças e dizê-lo «em voz alta». Tudo isto vale também para as empresas e para os mercados; quando perdem o contacto com as palavras das pessoas, degeneram e deixam o território do humano. A força da palavra «amo-te» dita a uma pessoa (e a uma só) apenas se entende no interior de uma visão responsável – porque criadora e irreversível – da palavra e das palavras.
O nosso tempo atravessa uma profunda noite da palavra e das palavras e, por isso, corre o risco de morrer afogado num mar de tagarelice, de chat, de sms. Temos absoluta necessidade de nos reconciliarmos e de reencontrar a palavra e as palavras, a sua seriedade e responsabilidade. Para este novo encontro, uma grande e decisiva ajuda poderá vir-nos de escutar e frequentar os poetas. Eles são essenciais para a vida porque criam, fazem viver as palavras e defendem-nas da morte. São essenciais sobretudo nos tempos sem palavra – e por isso sem palavras – que vivemos. Após Leopardi, os «lugares» de Recanati e do mundo já não são os mesmos: as meninas são «donzeletas», as colinas são «ermos», e os pássaros «solitários». A sua poesia recriou-os e transformou-os para sempre.
Obrigado Pai Isaac e obrigado Esaú: vocês pagaram caro preço ao guardar para nós a palavra. Temos a responsabilidade de não malbaratar o dom que nos fizeram.
Luigino Bruni
In Avvenire
Tradução:
José Alberto BF. Revisão: P. António Bacelar
© SNPC |
27.05.14









