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Ler a Páscoa à luz do desapego e da confiança

«Eu sentir-me-ia mais perto de Jesus se ele tivesse sido fuzilado em vez de crucificado», disse um dia à escritora Marguerite Yourcenar um jovem oficial vindo da Guerra da Coreia. Por vezes é dificil encontrar o essencial por baixo dos traços do passado. O que Yourcenar lhe propõe é «extrair dos textos sagrados que se leem mas nem sempre se ouvem, na igreja, as partes que nos impressionariam se as encontrássemos em Dostoievski ou Tolstoi, ou em qualquer biografia ou reportagem sobre a vida de um grande homem ou de uma grande vitima». Ela é uma narradora: contar e recontar é o seu método de avizinhamento à verdade.

No conjunto de escritos póstumos do filósofo Paul Ricoeur, por exemplo, volta-se à mesma questão, mas propondo outro caminho: a definição de campos de sentido. Segundo ele, é no cruzar de palavras insolentemente simples que a Páscoa, o conteúdo mais desmedido da fé dos cristãos, se ilumina. E aposta nestas duas: desapego e confiança. A chave para entender Jesus passaria por elas.

Comecemos pelo desapego: é, como sabemos, uma forma de renúncia, mas não só. Desenha-se, é verdade, como um desmantelamento do interesse próprio, podendo levar esse processo de relativização e apagamento cada vez mais longe, até às consequências últimas. Mas o desapego é também transferência do nosso amor para o outro. Não basta, portanto, negar-se a si mesmo, sacrificar-se. Há uma dimensão positiva de generosidade, de dom, de vida entregue e partilhada que nos ajuda a perceber o desapego.

Neste sentido, Ricoeur aponta os limites de uma leitura puramente sacrificial da morte de Jesus, que leva quase a supor que a sua morte foi um preço necessário para satisfazer Deus. É verdade que os Evangelhos, refletindo sobre a morte de Cristo, dizem: «É preciso que o Filho do Homem sofra muito e seja rejeitado» (Marcos 8,31; Lucas 17,25). Há, porém, que evitar reduzir enunciados deste tipo a um equívoco fatalismo teológico. Se a morte de Jesus fazia parte do desígnio de Deus, ela não deixou, em momento algum, de ser um destino livremente aceite. Importa, por isso, repensar (ou, em qualquer dos casos, complementar) a tradição do sacrifício a partir da lógica do dom. Pois é o enfoque no dom que deve prevalecer. «Ninguém me rouba a vida, sou eu que a dou» - afirma Jesus. Sem isso, não perceberíamos a real dimensão do gesto que a cruz representa.

Mas mesmo este desapego só se completa na instauração de uma fundamental confiança Confiança em quê? Confiança na resposta de Deus, na certeza de que Deus se lembra de nós, e o seu cuidado pode sustentar e garantir a vida do justo no impossível extremo da morte. A ressurreição de Jesus não é apenas horizontal. Isto é, não passa simplesmente pela receção e transmissão posterior do seu testemunho por outros, a começar por aqueles que lhe eram mais próximos, os seus discípulos.

Jesus não permanece apenas vivo na fé dos que acreditaram e acreditam nele. A ressurreição de Cristo é antes de tudo um acontecimento vertical, ação insurrecta de um Deus que responde recapitulando tudo no hoje do seu amor. Por isso, é que o acontecimento pascal precisa primeiro de ser acreditado antes de ser confessado. Naquela manhã, as mulheres e os discípulos constatam primeiro a literalidade histórica de que o túmulo de Jesus está vazio. E é esse facto que abre o seu e o nosso coração.

 

P. José Tolentino Mendonça
In Expresso, 30.3.2013
31.03.13

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