Metamorfose do diálogos
Tive um passado? Tenho um presente? Terei um futuro?
Somos chamados a uma disposição fundamental. A imaginar e a realizar o tempo e o espaço que habitamos. A sabedoria do tempo, a experiência acumulada de um capital de saber adquirido, pode ajudar-nos a olhar a realidade de um outro modo: novo e prudente. Há uma origem e um património cultural que nos precede e nos foi dado em herança. Com os seus tumultos históricos mas também com a sua riqueza imensurável. “Ser é conversação” escreve Santiago Zabala. Existe hoje uma simpatia mais maturada entre as linguagens (ciência-fé, razão-afeto, arte-espiritualidade). Abundam as respostas para aquilo que outrora eram somente perguntas. Porém, presentemente colocam-se essas e muitas outras!
Não nos faltará, todavia, um pouco daquela admiratio/contemplatio que outrora suscitava as grandes interrogações das origens? No fundo, encontramo-nos todos a tentar vislumbrar um novo horizonte que suscite o desejo de conhecer visceralmente: “o que é o homem para te lembrares dele, o filho do homem para com ele te preocupares?” (Sl 8,5). E “quem dizem os homens que eu sou?” (Mc 8); ou ainda pelo timbre de Álvaro Campos: “Tive um passado? Tenho um presente? Terei um futuro? Sem dúvida” (in "Poemas"), há aqui metafísica e oração quanto bastem! Em tem tudo isto prevalece uma intuição original sobre a bondade da procura e a gratuidade do tempo.
Primado dos rostos para ver a vastidão do mundo
A cultura amplamente entendida é o contexto histórico aonde se plasmam as nossas escolhas e onde exercemos a nossa liberdade. O proeminente filósofo francês Fabrice Hadjadj apela a uma “razão convivial que escolha o primado dos rostos sobre as ideias, do encontro sobre a persuasão (in Diálogo no Átrio dos gentios), de abertura ao eterno que se faz presente no evento da história e no rosto de cada pessoa. Uma razão alargada ao espaço da imaginação, da sensibilidade, para além do factual e da empiria pura. Esta inteligibilidade do real concreto encontra na fé e na razão o fundamento da verdade das coisas. Ela é sempre mais profunda do que a simples evidência daquilo que aparece aos nossos olhos. Na verdade, segundo uma bela expressa de Bento XVI, precisamos todos de “voltar a ver de novo a vastidão do mundo” (in Discurso no Reichstag, Berlim).
Crentes e não-crentes partem de pontos de vista diferentes mas o horizonte de valorização do humano-que-é-comum é um imperativo transversal. A “determinação do fim empenharia num trabalho comum de colaboração entre ciência e teologia” (Horkheimer, Nostalgia do totalmente Outro). Não é possível alcançar um horizonte de sentido separando academicamente saber-experiência, imanência-transcendência, fé-razão, como se fossem graus de conhecimento diametralmente opostos. Vigora na cultura contemporânea uma certa ideia de autorrealização que mina a confiança nas instituições e nas relações intra-humanas. Um self vazio que asfixia o florescimento de um “imaginário cultural partilhável” (Eduardo Lourenço). Talvez seja chegado o tempo de imaginar uma espiritualidade do quotidiano - «comum sensibilidade pela dimensão religiosa do viver» (Demetrio, A religiosidade dos incrédulos) – capaz de mobilizar as diversas sensibilidades na procura do sentido humano da vida.
Ampliar as reservas históricas de sentido
Não obstante o grau de maturidade já alcançado no diá-logo entre as diversas epistemologias do saber, precisamos de sair de uma mentalidade da contraposição. Fé-razão, teologia-cultura dão e recebem mutuamente, sem perderem a sua especificidade crítica e propositiva. Uma outra via capaz de desenhar novos significados de referencialidade e de sentido num quadro plural em defesa do humano e da criação. Um processo criativo, segundo o sociólogo Peter Berger, para o qual é necessário que haja “reservas históricas de sentido” (in Modernidade, Pluralismo e Crise de significação: O sentido do homem moderno) ampliadas pela interculturalidade e pelas autênticas experiências de liberdade humana.
Estilo de condomínio, sintoma de exaurimento
Uma via que suplante a intrepidez dos discursos opostos e apele à metáfora viva para entrar no mistério do mundo e da vida. “Grandes mistérios habitam o limiar do meu ser” clama a voz do poeta Fernando Pessoa. Uma cosmovisão que leve a sério o paradoxo da existência, na perceção de que os antagonismos extremos não produzem mais do que reduções antropológicas e cosmológicas, colocando em causa o equilíbrio de todo o ecossistema. Emil Cioran fala de “sintomas de exaurimento” (in A tentação de existir), de estados de sobrevivência no limite, do colapso de estruturas sociais e ambientais até agora estáveis.
O homem contemporâneo por si só não conseguirá resistir à voragem globalizada da economia do ter. Apelar a uma economia do ser, a uma casa (oikos) onde todos possam habitar dignamente, é abrir novos espaços comunitários de referencialidade intercultural. Construir comunidades de pensamento, de crença, de afeto e de vida fraterna, é lutar contra um certo estilo de vida de condomínio cultural, social e económico. Potenciar tecidos comunitários que coloquem a pessoa no centro das suas reflexões e práticas. Universalizar a arte, a imaginação, a fé, a ciência, a razão, o sentimento, é entrar no espaço da plausibilidade da proposta. Uma procura do sentido das coisas capaz de fazer maravilhar, admirar os outros, e não permanecer como um bem apenas para si mesmo.
Metáfora como propensão
Propor a metáfora como via de “propensão para o sentido” (Pedro Cabrita) e de educação dos sentidos afetivos – que é transversal a todos os discursos e modos de vida, à religião, à ciência, à arte, ao senso comum – é abrir um espaço para a compreensibilidade de mundivisões aparentemente distantes. A metáfora aproxima-as na medida em que não as reduz à liquidez do real nem anula a tensão entre identidade e diferença, mas potencia a diferenciação identitária. Ela conserva sempre a pluralidade interpretativa segundo um ethos veritativo (o humano-que-é-comum) e a profundidade de um saber cumulativo de experiências vividas responsavelmente. À metáfora caberá reescrever a realidade de um outro modo. A “linguagem poética muda o nosso modo de habitar o mundo. Da poesia recebemos um novo modo de ser no mundo, de nos orientar neste mundo” (Paul Ricoeur, A Criatividade na linguagem).
Há uma originalidade que nos precede e em certo sentido nos orienta! A palavra precede-nos e domina-nos. Não somos nós que dispomos dela mas é ela que dispõe de nós. Ela é inagarrável e por isso fundamental para o nosso existir. Uma filosofia, ciência ou religião que não coloque o sujeito humano no centro priva-se da sua essencialidade. O humano não vive em si e para si mesmo, no seu condomínio fechado. O desejo de infinito – de amar e ser amado, de conhecer e ser reconhecido, de perdoar e ser perdoado – coloca o ser diante da contemplação de uma alteridade que se faz presente, do Desconhecido, d’Aquele que é e faz crescer cada humano na sua singularidade.
Aquém das purezas, além das impurezas
Percorrer este caminho, sempre provisório e frágil, enraizado nessa origem que nos precede, faz-nos reconhecer a ‘incredulidade que habita o crente e a credulidade presente no não-crente’. A aceitar a precedência generativa e original é reinscrever com o poeta Carlos Drummond de Andrade a metáfora do Viver, perguntando sempre: Como viver o mundo em termos de esperança?//E que palavra é essa que a vida não alcança? (in 'As Impurezas do Branco'). O sentido e o significado dessa palavra é o que todos – crentes ou não-crentes, artistas ou cientistas, teólogos ou filósofos – procuramos como “ato de abandono ao mistério incompreensível na superação dos discursos pios” (K. Rahner) de apelo ao diálogo?
João Paulo Costa
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07.01.13
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