Nesta Quaresma, não deixemos que a habituação ao mal nos deixe indiferentes ao sofrimento
Uma das coisas mais desgastantes que nos pode acontecer é cair nas garras da habituação. Tanto ao bem como ao mal. Quando o marido ou a mulher se habituam ao carinho e à família, então deixa-se de valorizar, de dar graças e de cuidar delicadamente do que se tem. Quando nos acostumamos ao dom da fé, a vida cristã torna-se rotina, repetição, não dá sentido à vida, deixa de ser fermento. A habituação é um travão que aprisiona o coração.
Estamos em risco! Como sociedade, habituámo-nos pouco a pouco a ouvir e a ver, através dos meios de comunicação, a crónica negra de cada dia; e o que ainda é pior, também nos habituámos a tocá-la e a senti-la à nossa volta sem que nos produza nada ou, quanto muito, um comentário superficial e descomprometido.
As chagas estão na rua, no bairro, em nossa casa, e no entanto, como cegos e surdos convivemos com a violência que mata, destrói famílias e bairros, aviva guerras e conflitos em tantos lugares, e olhamos para isto como mais um filme. O sofrimento de tantos inocentes e pacíficos deixou de nos esbofetear, o desprezo pelos direitos das pessoas e dos povos, a pobreza e a miséria, o império da corrupção, da droga assassina, da prostituição obrigada e infantil passaram a ser moeda corrente, e pagamos sem pedir recibo, ainda que mais tarde ou mais cedo nos seja passada a fatura.
Todas estas realidades, e muitas mais, não são mudas, gritam-nos a cada um de nós e falam-nos da nossa limitação, da nossa fraqueza, do nosso pecado… apesar de nos termos habituado.
A habituação diz-nos sedutoramente que não faz sentido tratar de mudar algo, que não podemos fazer nada frente a esta situação, que foi sempre assim e, todavia, sobrevivemos. Através da habituação deixamos de resistir, permitindo que as coisas “sejam o que são”, ou que alguns decidiram que “sejam”.
A Quaresma, providencialmente, vem despertar-nos, sacode a nossa madorra, o nosso andar por inércia. As palavras de Joel são um claro convite: voltem para Deus. Porquê? Porque algo não está bem em nós mesmos, na sociedade ou na Igreja, e precisamos de mudar, fazer uma viragem, converter-nos. Sim, é possível algo novo, simplesmente porque o nosso Deus fiel continua a ser rico em bondade e misericórdia, e está sempre disposto a perdoar e a começar de novo.
Somos convidados e empreender um caminho quaresmal, um caminho que inclui a cruz e a renúncia, caminho de penitência real e não superficial, de um jejum de coração, e não esporádico - «Rasgai os vossos corações, e não as vossas vestes» (Joel 2, 13).
Um caminho no qual, desafiando a habituação, abramos bem os olhos e ouvidos, mas sobretudo o coração para nos deixarmos “descolocar” pelo que sucede à nossa volta. Quando olhamos com profundidade e não nos damos respostas prefabricadas, a vida dos nossos irmãos, com as suas angústias e esperanças, vai-nos “descolocando” e põe-nos num lugar diferente e não isento de riscos.
Mas só assim, quando o seu sofrimento nos toca e nos fere, e o sentimento de impotência se faça mais profunda e nos doa, encontraremos o nosso caminho real para a Páscoa: - «Aquele que não havia conhecido o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nos tornássemos, nele, justiça de Deus» (2 Coríntios 5, 21).
Treinar o coração para não mutilar a nossa capacidade de assombro e de dor; para que a realidade não nos seja indiferente, e possamos com gestos concretos experimentar que não «recebemos em vão a graça de Deus».
Rezemos uns pelos outros, para que o exercício do amor ao próximo nos faça crescer no amor a Deus, a quem procuramos desde o nosso coração, a quem adoramos e com quem queremos encontrar-nos.
Card. Jorge Mario Bergoglio (Papa Francisco)
Excertos da mensagem “Gesto quaresmal solidário”
Buenos Aires, 17.2.2010
© SNPC |
11.03.14
Card. Jorge Mario Bergoglio(Papa Francisco)
Foto: D.R.








