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Natal de Jesus no natal do papa Francisco

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Natal de Jesus no natal do papa Francisco

No dia 17 de dezembro de 2014, em que o papa Francisco completa 78 anos, recordamos a homilia que proferiu na noite de Natal de 2010, na catedral de Buenos Aires, Argentina.

 

«Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria.» (Lucas 2, 1-7)


Chama a atenção, ao escutar esta passagem do Evangelho, a precisão com que o evangelista Lucas localiza o lugar do nascimento: o imperador Augusto, um censo, Quirino era o governador da Síria, cada um ia recensear-se à sua cidade de origem. Marca exatamente um momento da história; esse momento da história é o momento em que Deus irrompe na história.

Já o tinha feito antes de outras maneiras, com chamamentos como o de Abraão; com leis; com a libertação, como no Egito com Moisés, ou como na Babilónia através dos profetas. Fê-lo pela sua palavra, agora irrompe mediante a sua real Palavra, a Palavra que é Jesus Cristo, Jesus Cristo que é a Palavra de Deus.

Irrompe, e Ele que nos vinha acompanhando no nosso caminhar, introduziu-se pela primeira vez entre o nosso andar. E o que Ele tinha prometido antes pelos profetas torna-se agora realidade. Ele, o todo-poderoso, o Criador, o transcendente, transforma-se no Deus connosco.

E de aqui em diante este Deus será um Deus próximo, que não tens de ir buscar à órbita dos astros, mas que tens a teu lado. Essa foi a primeira vez que Cristo chegou e começou a caminhar connosco. Virá uma segunda vez, também histórica, não sabemos quando, mas Deus sabe.

Naquele momento, a humanidade não sabia quando aconteceria a primeira vinda. Virá uma segunda vez, vai aparecer uma segunda vez, já definitiva. Uma segunda vez definitiva para cada um de nós quando nos vier buscar e levar para junto dele. E uma segunda vez definitiva para toda a humanidade quando transformar a Terra na sua glória no seu eterno paraíso.

Veio uma primeira vez e vai chegar uma segunda vez, e entre estas duas vindas caminhamos nós, e Ele vem uma terceira vez: vem a cada ano, recordando-nos que veio e que virá.

A festa do Natal é uma sonora recordação da história, uma sonora recordação da revelação de Deus, que nos vem dizer que Ele está, como o diz de maneira tão bela o livro do Apocalipse: «Ele está à porta e chama». Ele está à porta do teu coração e está a chamar-te.

Deus está a chegar. O Natal recorda-nos que veio uma vez, que vai voltar, e convida-nos a que o recebamos todos os dias. Convida-nos a que todos os dias nos encontremos com Ele. Natal é a festa do encontro, do encontro da primeira vez, da esperança do encontro da última vez e do encontro diário. Do encontro com Jesus. Natal é encontrar Jesus.

Esta noite santa convida a que nos perguntemos como posso encontrar Jesus, se estou disposto a encontrar Jesus ou me deixo levar pela vida como se todos os dados já tivessem sido jogados. Não, Jesus está a sacudir o teu coração; Jesus diz-te o mesmo que disse o anjo aos pastores: nasceu-te um Redentor. Simplesmente pede que o oiças, ou melhor, pede que o procures. Hoje convida-nos a procurar.

E onde é que o vou procurar? O sinal que dá aos pastores é o de sempre. Como a eles, volta a dizer-te: procura-o num pesebre, num estábulo; o sinal é a mesma procura onde ninguém procura. Não procures entre as luzes das grandes cidades, não procures na aparência. Não procures nesses centros comerciais pagãos que se nos oferecem a cada esquina. Procura no insólito, no que te surpreende.

Procura como aqueles pastores, a quem mandaram procurar um menino recém-nascido deitado num pesebre. Procura aí. Remove as folhas secas e, debaixo, procura o rebento da vida. Na simplicidade, na pequenez. Sabeis que, atualmente, para entrar na gruta de Belém, no lugar onde Jesus nasceu, é preciso agachar-se, há que abaixar-se; para encontar Jesus é preciso fazer-se pequeno.

Despoja-te de toda a pretensão. Despoja-te de toda a ilusão efémera e caminha para o essencial, para o que te promete vida, para o que te dá dignidade. Abaixa-te, não tenhas medo da humildade, não tenhas medo da mansidão.

Hoje dizem-nos que quanto mais empinado tiveres o nariz, mais importante és. Não. Hoje dizem-nos que quanto mais vaidoso te apresentas, mais força terás. Não, não é por aí. Hoje dizem-nos que quanto mais gritares, quanto mais lutares, quanto mais discórdia semeares, melhor será para ti. Não, não é assim. Abaixa-te, usa da mansidão. Reconhece a tua dignidade e a dos outros. Ama e deixa-te amar.

Esta é a noite das surpresas. Alguém me dirá: como podemos procurar surpresas nesta cidade? Anteontem à noite passou-se algo que me comoveu. Estavam no obelisco [ponto central de Buenos Aires] alguns jovens, organizados pelo arcebispado, a fazer um presépio vivo; na outra esquina do obelisco estava um Pai Natal que saudava e recebia cartas; naquele momento, chegou-se à pessoa que dirigia o presépio vivo e disse-lhe: deixa-me sentar aqui porque quero sentir o espírito do Natal. Baixou-se, deixou o seu disfarce e assumiu a realidade.

Não te cubras nem de soberba, nem de orgulho, nem de domínio. Não, isso não te leva a ganhar. Abaixa-te, sê manso, sê bondoso, revolve as folhas secas da vida e encontrarás o que ninguém compreendia, um menino deitado num pesebre e envolto em panos. Assim se encontra Jesus todos os dias.

Sei procurá-lo, sei abaixar-me para o encontrar, ou fico entontecido nas mil e uma propostas desta cidade pagã? Porque realmente esta é uma cidade pagã. E vós sabeis que não te cobram entrada para encontrar Jesus. Se queres, entra, simplesmente. Ele precisa da tua liberdade e que assumas a gratuidade da salvação. Porque não há outra explicação para este mistério do Natal senão a gratuidade com que Deus vem ao nosso encontro.

Anima-te, sai à procura; olha para a Mãe, simples, plena de mansidão, e pede-lhe que te leva pela mão a ir procurar o Menino, que não está na soberba nem no orgulho, mas na simplicidade de tudo o que seja amor, mansidão e bondade. Que assim seja.

 

Card. Jorge Mario Bergoglio (papa Francisco)
Buenos Aires, 24.12.2010
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 16.12.2014 | Atualizado em 22.04.2023

 

 
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E onde é que o vou procurar? O sinal que dá aos pastores é o de sempre. Como a eles, volta a dizer-te: procura-o num pesebre, num estábulo; o sinal é a mesma procura onde ninguém procura. Não procures entre as luzes das grandes cidades, não procures na aparência
Despoja-te de toda a pretensão. Despoja-te de toda a ilusão efémera e caminha para o essencial, para o que te promete vida, para o que te dá dignidade. Abaixa-te, não tenhas medo da humildade, não tenhas medo da mansidão
Hoje dizem-nos que quanto mais empinado tiveres o nariz, mais importante és. Não. Hoje dizem-nos que quanto mais vaidoso te apresentas, mais força terás. Não, não é por aí. Hoje dizem-nos que quanto mais gritares, quanto mais lutares, quanto mais discórdia semeares, melhor será para ti. Não, não é assim
Vós sabeis que não te cobram entrada para encontrar Jesus. Se queres, entra, simplesmente. Ele precisa da tua liberdade e que assumas a gratuidade da salvação. Porque não há outra explicação para este mistério do Natal senão a gratuidade com que Deus vem ao nosso encontro
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