Paisagens
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosIgreja e CulturaPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosPerspetivasConcílio Vaticano II - 50 anosPapa FranciscoBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

«Nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá»: Comentário às leituras de Domingo

 

Referências bíblicas
33.º Domingo do Tempo Comum

Leitura da profecia de Malaquias 3, 19-20: «Nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação».

Salmo 97: Aclamai o Senhor, porque Ele vem.

Segunda carta de S. Paulo aos Tessalonicenses 3, 7-12: «Que trabalhem tranquilamente, para ganharem o pão que comem».

Evangelho segundo S. Lucas 21, 5-19: «Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».

 

Introdução

Entre este domingo e o primeiro do Advento (1 de dezembro), as passagens do Evangelho dizem respeito ao completamento da História. Mais do que a espera do Messias, que ecoa no Antigo Testamento, o verdadeiro começo da História é a vinda de Jesus entre a humanidade, e a sua consumação é o regresso de Cristo no "fim dos tempos".

Para o leitor contemporâneo, a finalização da História, "o Dia do Senhor", é lida de maneira desconcertante, dado que é apresentada segundo uma imagética apocalíptica que não é a nossa, mesmo se (e, talvez, também porque) os filmes de terror são hoje habituais.

Etimologicamente, o apocalipse não significa catástrofe, mas «revelação», «descoberta». É a revelação do Reino onde se encontra o trono do Cordeiro, rodeado da multidão inumerável daqueles que serviram Deus. Mas as imagens das descrições do profeta Daniel e do evangelista S. João, a quem é atribuído o Apocalipse, o último livro da Bíblia, desviaram o seu significado no pensamento popular.

 

O dia do Senhor

A primeira leitura é extraída do curtíssimo livro de Malaquias, o último na ordenação habitual do Antigo Testamento. Várias passagens foram retomadas quer por João Batista, quer pelo próprio Jesus. Foi redigido um pouco menos de 500 anos antes de Cristo.

O povo de Israel tinha regressado do seu exílio na Babilónia e o templo de Jerusalém tinha sido reconstruído. Devia ser motivo de alegria. Na verdade, não foi. A grande massa do povo não se converteu. Muitos sacerdotes eram indignos do seu ministério. Os fiéis interrogavam-se e eram tentados a perguntar, como os não crentes, «de que vale servir a Deus?» (Mal 3,14).

Deus responde pelo seu profeta, afirmando que prepara o dia onde, finalmente, tudo será claro: «Então vereis de novo a diferença entre o justo e o ímpio, entre quem serve a Deus e quem não o serve» (3, 18). A luz e o calor desse dia serão uma fornalha ardente para os arrogantes, que queimarão como palha (Mal 3, 19 e Lucas 3, 17).

Os que respeitam Deus serão, pelo contrário, curados pelos seus raios (Mal 3,20). João Batista recorre à imagem da palha (Lc 3,17), que se encontra igualmente em S. Paulo, para quem o fogo do julgamento provará o que vale a obra de cada pessoa (1 Coríntios 3, 13). A imagem que Malaquias emprega para o Dia do Senhor (um fogo que não «deixará raiz nem ramos») é também usada pelo Precursor (João Batista): «Toda a árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo» (Lc 3,9).

Do lado oposto, este Dia do Senhor verá levantar-se o sol de justiça, a sua luz e o seu calor favorável aqueles que aqueles que temem o nome do Senhor, que o adoram e o servem. Zacarias, pai de João Batista, na sua ação de graças saúda a visita do «sol nascente» que surge «das alturas» (Lc 1,78).

No início do Evangelho segundo S. João, refere-se essa luz que é o Verbo de Deus. Todas estas imagens não evocam a proximidade do fim dos tempos com um tom de catástrofe, como alguns o repetem ainda hoje. É o contrário.

Os cristãos não estão numa espera intemporal, como acontece ainda com os judeus. Não estão em fuga de uma eternidade que se anuncia na tragédia. Eles creem que o Eterno já veio no tempo, depois que o Verbo se fez carne (João 1, 14), e que voltará um dia na glória.

 

Uma espera vivida no quotidiano

É verdade que algumas leituras e cânticos do Ofício de Defuntos, que se reza a 2 de novembro, parecem aterradores. É dessa forma que se compreenderá este "Deus Irae", caso o entendimento não sair do chão humano das palavras; contudo, elas exprimem toda a profundidade da misericórdia divina.

«Tu perdoaste a Maria» porque ela muito amou. «Tu perdoaste ao bom ladrão» porque ele teve plena confiança em ti. É, aliás, significativo que a antiga liturgia do último adeus terminava pelo cântico de Zacarias, que saudava a aurora da salvação de Deus.

«Aclamai Deus, porque Ele vem», canta o Salmo. A nossa atitude não deve ser, por isso, revestida de medo diante do futuro que Deus nos abre, nem deve ficar pela passividade. S. Paulo é muito claro quando escreve aos Tessalonicenses, fanáticos da segunda vinda de Cristo: a proximidade do Reino de Deus não deve servir de pretexto à ociosidade, que é, segundo o adágio popular, mãe de todos os vícios.

Àqueles que vivem «sem fazerem trabalho algum, mas ocupados em futilidade», dá-lhes uma recomendação: «Que trabalhem tranquilamente, para ganharem o pão que comem» (2 Tes 3,12). Retomando o mesmo tema, S. Paulo dirá na sua carta aos Efésios: que «se esforce por trabalhar com as suas próprias mãos, fazendo o bem, para que tenha com que partilhar com quem passa necessidade» (Ef 4,28).

 

Nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá

«Nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá.» E, porém, depois do nosso nascimento, muitos se perderam. É mais uma prova de que não se pode entender estas expressões literalmente.

Eis, assim, uma primeira lição do texto: este género de discurso não deve ser tomado à letra porque não foi redigido para predizer o futuro de maneira exata. Ele foi escrito para nos ajudar a ultrapassar as provações do presente. O núcleo da mensagem é: o que for que vos aconteça, não temais.

Há outra conclusão a tirar das palavras de Jesus: não vos apoieis em falsos valores. O templo é um bom exemplo: restaurado por Herodes, ampliado, embelezado, coberto de dourados, era magnífico; mas também faz parte deste mundo que passa...

É igualmente inútil procurar nas palavras de Jesus dados precisos sobre as datas ou as modalidades do Reino. Quer se trate da ressurreição da carne, na sua resposta aos saduceus, no domingo passado, quer se trate do fim dos tempos, este domingo, Ele não revela nada de exato. Ouso dizer que responde ao lado.

Pergunta-se-lhe: quando é que acontecerá? Qual será o sinal?». Jesus não responde a estas questões, bastante precisas, mas diz: «Tende cuidado, não vos deixeis enganar». Não é propriamente a resposta mais exata. É preciso acreditar que não é este género de precisão que precisamos para seguirmos a nossa vida de cristãos...

Aliás, Ele dirá que não lhe pertence conhecer essas coisas. Mas diz-nos claramente qual deve ser a nossa atitude: confiança a toda a prova, que não cede nem às catástrofes nem às perseguições. Estas, segundo Jesus, não tardarão: «Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu. Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome». E, a seguir: «Todos vos odiarão por causa do meu nome».

Lucas sabia do que escrevia: de Estêvão a Paulo, passando por Tiago e tantos outros... a perseguição por parte dos judeus, primeiro, e depois dos romanos.

Notemos que Jesus emprega duas vezes a expressão «por causa do meu nome», que se refere à divindade de Cristo. Na linguagem dos judeus, era frequente que ao falar de Deus se empregassem simplesmente estas duas palavras: «O Nome».

As palavras que se seguem, conhecemo-las bem: «Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer.». Isto não quer dizer que os cristãos perseguidos vão escapar aos seus perseguidores. «Causarão a morte a alguns», dirá Jesus, que logo depois acrescenta: «Nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá», o que significa que todo o nosso ser, corpo e alma, está nas mãos de Deus. Pela própria morte, é-nos assegurado que permanecemos viventes da vida de Deus. E, quaisquer que forem as perseguições, a Palavra de Deus seguirá o seu caminho, como diz S. Paulo.

Nas perseguições do mundo, só uma confiança tenaz nos evitará os enganos e o medo, independentemente dos acontecimentos. Jesus cita os tremores de terra, as epidemias, os acontecimentos aterradores, as guerras. E é a nossa própria segurança, a nossa tranquilidade, o facto de não nos deixarmos abalar, que servirá de testemunho. O mesmo evangelista, Lucas, narra nos Atos dos Apóstolos a alegria sentida por Pedro e João, perseguidos pelas autoridades judaicas: «Saíram da sala do Sinédrio cheios de alegria, por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do Nome de Jesus» (At 5,41).

É preciso reter na cabeça, e no coração, esta afirmação de Jesus: «Confiança! Eu venci o mundo!». S. Paulo disse-o à sua maneira, num texto que decerto conheceis: «Nem a morte nem a vida,nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso» (Romanos 8, 38-39).

 

Leituras do 33.º Domingo do Tempo Comum (Ano C)
Secretariado Nacional de Liturgia

 

1.ª Leitura

Há-de vir o dia do Senhor, ardente como uma fornalha; e serão como a palha todos os soberbos e malfeitores. O dia que há-de vir os abrasará – diz o Senhor do Universo – e não lhes deixará raiz nem ramos. Mas para vós que temeis o meu nome, nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação.

 

Salmo (Salmo 97 (98), 5-9)

Refrão: O Senhor virá governar com justiça.
Ou: O Senhor julgará o mundo com justiça.

Cantai ao Senhor ao som da cítara,
ao som da cítara e da lira;
ao som da tuba e da trombeta,
aclamai o Senhor, nosso Rei.

Ressoe o mar e tudo o que ele encerra,
a terra inteira e tudo o que nela habita;
aplaudam os rios
e as montanhas exultem de alegria.

Diante do Senhor que vem,
que vem para julgar a terra;
julgará o mundo com justiça
e os povos com equidade.

 

2.ª leitura (2 Tes 3, 7-12)

Irmãos: Vós sabeis como deveis imitar-nos, pois não vivemos entre vós na ociosidade, nem comemos de graça o pão de ninguém. Trabalhámos dia e noite, com esforço e fadiga, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não é que não tivéssemos esse direito, mas quisemos ser para vós exemplo a imitar. Quando ainda estávamos convosco, já vos dávamos esta ordem: quem não quer trabalhar, também não deve comer. Ouvimos dizer que alguns de vós vivem na ociosidade, sem fazerem trabalho algum, mas ocupados em futilidades. A esses ordenamos e recomendamos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que trabalhem tranquilamente, para ganharem o pão que comem.

 

Evangelho (Lc 21, 5-19)

Naquele tempo, comentavam alguns que o templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas. Jesus disse-lhes: «Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído». Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?». Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo’. Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim». Disse-lhes ainda: «Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu. Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome. Assim tereis ocasião de dar testemunho. Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa. Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós e todos vos odiarão por causa do meu nome; mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá. Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas».

 

Comentários: P. Jacques Fournier, Marie Noëlle Thabut
In Conferência dos Bispos de França
© SNPC (trad./adapt.) | 16.11.13

Redes sociais, e-mail, imprimir

Imagem

 

Ligações e contactos

 

Artigos relacionados

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Receba por e-mail as novidades do site da Pastoral da Cultura


Siga-nos no Facebook

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página