Nós também somos de lá
De certeza que vos sucede o mesmo. Por vezes, mesmo num dia entrincheirado em rotinas parece que uma porta se entreabre. O que desencadeia esta experiência podem até ser coisas de nada, e normalmente são: uma palavra, os acordes de passagem de uma canção, as madeixas de uma nuvem. Coisas de nada como um silêncio, um olhar, uma voz que nos recorda outra voz. Coisas assim sobrepostas, detalhes insignificantes, quase só em apontamento. Não sabemos bem, mas de repente o tempo parece outro, os nossos passos desaceleram, a nossa geografia dilata-se, torna-se invisível e interior.
Num texto de Octavio Paz encontrei a justificação: é porque «nós também somos de lá». De facto, a vida não é apenas isto que estavelmente vemos, isto que é fruto da nossa organização metódica, e que o nosso conhecimento sedentariamente (e preguiçosamente) descreve. Donde é que nós somos? Somos de tempos e de lugares muito diversos. Nascemos anos ou séculos antes da nossa data de nascimento e projetamo-nos em distâncias que, porventura, nem estamos capazes de supor. Habitamos, é certo, na nossa morada fixa, no nosso número postal, mas vagueamos igualmente por territórios idos e desconhecidos. Somos de casa, mas também da praça, também dos baldios, também daquele penhasco onde nos sentamos a olhar o mar. Pertencemos a lugares onde, talvez, nunca chegaremos e a pátrias muito além da nossa. Há aquela frase de Novalis: «Todo o objeto amado é o centro de um paraíso». Basta essa frase para alterar toda a topografia.
Gostei muito da forma como o escultor Rui Chafes começou, há tempos, uma sua conferência na Faculdade de Letras, surpreendendo os ouvintes que lá estavam: «Nasci em 1266, numa pequena aldeia, que já não existe, na Francónia, na Baviera», disse ele. Na verdade, Chafes nasceu em Lisboa, no ano de 1966. Mas é só isso a verdade? Todos nós somos o resultado imprevisível de um caminho que outros começaram muito lá para trás e que outros continuarão depois de nós. As fronteiras são linhas aproximativas e móveis.
«Nós também somos de lá». Fico a pensar no mistério desta frase. A vida pede de nós essa atitude plástica de quem se sabe a caminho, essa disponibilidade para acolher o que não vemos das raízes e o que não sabemos dos ramos, essa sabedoria de quem percebe que está apenas entre. Realmente, não somos donos de nada nem de ninguém: somos cuidadores, guardadores, apascentamos… Por isso, como ensina um provérbio chinês, «se conservarmos no coração um ramo verde, um pássaro virá pousar nele». Ou como ditou Lao Tsé:
“O homem quando nasce é suave e flexível
O homem, quando morre, é rígido e duro.
No momento de nascer, todas as coisas,
incluindo as plantas, são tenras e suaves.
Elas só morrem quando se deixam tornar rígidas e secas.
Assim, o rígido e o inflexível são os companheiros da morte;
o suave e o flexível são os companheiros da vida”.

José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias (Madeira)
19.06.11







