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Nova revista "Cáritas" assinala primeiro aniversário
O número 4 da revista "Cáritas" assinala o primeiro aniversário do lançamento da segunda série, assumindo-se como um «fórum de diálogo e partilha da ação social em Portugal».
«Não sendo, pela sua periodicidade, um meio de atualidade», a publicação quadrimestral da Cáritas Portuguesa, vendida ao preço de 2 euros (assinatura anual a 5 euros), apresenta-se «como um instrumento para "ajudar a pensar"».
A edição abre com uma entrevista a João Lobo Antunes, uma das presenças na próxima Jornada Nacional da Pastoral da Cultura (Fátima, 30 de maio), para quem «um princípio ético não deve ter uma assinatura de direita ou de esquerda, ou mais conservador ou mais liberal».
Há pessoas para quem a revolta em relação à doença persiste, ou que a depressão é intratável. Há quem chegue a uma tranquilidade de aceitação, sobretudo da morte libertadora. Aí a fé é muito importante, as pessoas que têm fé numa vida para além desta enfrentam isto com outra tranquilidade», aponta.
Álvaro Laborinho Lúcio escreve sobre "Justiça e cidadania", vincando que «importa não cair no erro de reconduzir o valor da eficácia a uma visão meramente utilitarista da justiça e, muito menos, no de pretender induzi-lo apenas a interesses de natureza económica».

«Ultrapassado o tempo histórico e cultural que ancorava na fé, ou na crença, a confiança do povo na justiça, confiança essa alicerçada, de um lado, na sacralização formal da administração e, do outro, na ignorância sobre as coisas do direito e da justiça, é na passagem para o tempo da racionalidade e da livre opinião que, sendo escasso o conhecimento e débil a informação, se perde a confiança e se desacredita o sistema», sublinha.
"O tempo dos assassinos" é o título que José Manuel dos Santos dá à análise do ciclo de pinturas "Os desastres da guerra", reproduzidas na revista: «Se, da sua madrugada ao seu entardecer, atravessarmos a obra de Graça Morais, vemos que o sentimento sagrado do real é o seu santo e a sua senha».
As obras de Graça Morais «são o sinal de uma responsabilidade e de um dever. São feitas de alerta e de alarme. Mas, nesse alerta e nesse alarme, acende-se a possibilidade de que Kafka não tenha inteiramente razão quando afirma: “Existe esperança, esperança infinita, mas não para nós”. Porque, como diz Walter Benjamin, “ é àqueles que não têm esperança que a esperança deve ser dada”», conclui o autor.

O jornalista Jorge Wemans recorda "O caso da Capela do Rato", em texto que tem como subtítulo "Um fim de ano como não houve outro", referência à vigília pela paz realizada nos últimos dias de 1972, que terminou com detenções de dezenas de participantes na iniciativa.
«Nas conversas com uns e com outros, recordo que o objetivo que mais referia era o de abalarmos a consciência dos católicos através de uma ação pública em que demonstraríamos como era gritante o conflito entre a mensagem de Paulo VI para o dia Mundial da Paz e a situação de guerra em que o país vivia. Em Portugal não se podia rezar pela paz… tinha que se rezar pela vitória contra os terroristas!», recorda.
«O “Caso da Capela do Rato” abalou as consciências católicas, introduziu muitos grãos de areia nas relações Estado-Igreja, deu uma imensa esperança a todos que lutavam contra a ditadura e trouxe para o combate ao regime muitas pessoas. 16 meses depois era o 25 de abril…», assinala Jorge Wemans, um dos intervenientes que acabou por ser conduzido à prisão de Caxias.

Márcia Carvalho recorda as passagens mais importantes da sessão de apresentação do livro "Procissão dos Passos", do padre Abel Varzim, lançado pela Editorial Cáritas, obra de que o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura já apresentou um excerto.
Um homem, uma bicicleta e uma soma de boas vontades: o projeto "Re-food"é contado por Patrícia Reis,: o norte-americano Hunter Halder foi ao encontro de restaurantes e pastelarias para aproveitar o que eles não podem aproveitar, e assim fornecer alimentação a quem mais precisa.
Com vários voluntários, o centro operacional desta «alternativa ao desperdício» situa-se no anexo à igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa. A ideia é expandir a ideia para outras freguesias da capital.
O bispo das Forças Armadas e Segurança, D. Manuel Linda assinala o Dia Nacional da Cáritas, que ocorreu em março, com uma reflexão sobre o diálogo bíblico entre Jesus e a mulher samaritana em torno da sede, da água e do poço.

«A Cáritas não existe somente para actuar em situações de emergência. O centro da sua missão está no lembrar aos cristãos e mesmo aos homens e mulheres de boa vontade que a fé que professamos é inseparável daquele “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” que se tem de traduzir em gestos de solidariedade e de partilha», acentua o prelado.
«Para a criação de emprego não me dirijo às grandes empresas e às multinacionais. Não vale a pena perder latim com quem dita as regras férreas do mercado e com quem não conhece outra linguagem que não seja a do lucro. Mas apelo aos pequenos e médios investidores, particularmente se cristãos: sei das vossas dificuldades atuais. Não obstante, lembro que tendes responsabilidades sociais. E que, como se ouve por aí dizer, as grandes oportunidades surgem, muitas vezes, nos contextos difíceis. Sede ousados na generosidade», apela.
Márcia Carvalho explica a campanha global da Cáritas “Uma só família humana, alimento para todos", que em Portugal conta com o apoio da Conferência Episcopal Portuguesa.

O artigo lança sete sugestões para a mudança, como «lutar contra o desperdício de alimentos e organizar recolhas dos mesmos para entregar a quem menos tem, difundir técnicas de conservação dos alimentos», «comer com moderação, em quantidade e qualidade suficiente», «apoiar pequenos agricultores, privilegiando o consumindo de produtos nacionais» e «participar em ações de voluntariado e de dinamização de iniciativas pela erradicação da fome».
A última parte da revista inclui notícias sobre a atividades ligadas à Cáritas, nomeadamente a nível nacional e diocesano.
A publicação oferece «contribuições para uma leitura do real», que requerem «uma renovada atenção e uma inquieta solicitude», sublinha no editorial o assistente espiritual da instituição, padre José Manuel Pereira de Almeida.
Rui Jorge Martins
Imagens: Revista "Cáritas" (maio/2014)
© SNPC |
20.05.14

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