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O valor da pessoa humana na cultura atual

São variadíssimos os acontecimentos a nível planetário ou mais próximos de nós que nos levam a colocar uma questão pertinente sobre o valor da vida humana no contexto de uma sociedade e de uma cultura secularizada, economicista e com um grau de progresso que vislumbraria uma outra forma de entender as relações entre pessoas e entre os povos.

A comunicação social traz ao nosso alcance diariamente guerras civis como na Siria, com tonalidades de discriminação religiosa como no Egito, violações e homicídios de membros da mesma família, assaltos violentos permanentes e de vária ordem, recorrendo mesmo à eliminação daquele a quem se pretende espoliar, corrupção que deteriora o bem comum e muitas outras situações.

Em cada verão somos acometidos com imagens desesperantes de quem pelo fogo sente a perda de todos os seus haveres e em muitas situações a morte daqueles que se dedicam a salvar vidas.

Acresce ainda, no inicio de cada ano escolar, o desespero de tantos professores que vendo-se sem local para lecionar sentem a sua dignidade ferida por falta de ocupação e o futuro, seu e da sua família, em risco por falta de meios de sobrevivência.

Poderíamos somar ainda outras situações que por serem já habituais começam a criar insensibilidade, como o desemprego galopante, a marginalidade de tantos jovens a quem é negado o futuro, a exploração dos sentimentos nobres dos mais novos para fins comerciais, a falta de acompanhamento das crianças e a exploração moral da mulher e o desrespeito pela natureza, o aborto, os divórcios e a degradação legislativa do matrimónio e da família.

Na cultura atual que exaltou a autonomia do homem e que viu nas suas capacidades pessoais a única resposta para um futuro promissor, exige-se avaliar as causas profundas de todas estas situações.

Quando se previa que o progresso fosse resposta a todas as esperanças humanas, eis tantas situações pessoais e sociais, a questionar os fundamentos, as orientações, os modelos e os critérios de vida em sociedade.

Bem afirmava o Concilio que «nos nossos dias, a humanidade, cheia de admiração ante as próprias descobertas e poder, debate, porém, muitas vezes, com angústia, as questões relativas à evolução atual do mundo, ao lugar e missão do homem no universo, ao significado do seu esforço individual e coletivo, enfim, ao último destino das criaturas e do homem» (Gaudium et spes (GS), 3).

Daí reconhecer-se que diante da complexidade das situações políticas, sociais, económicas e ideológicos, «muitos dos nossos contemporâneos são incapazes de discernir os valores verdadeiramente permanentes e de os harmonizar com os novamente descobertos. Daí que, agitados entre a esperança e a angústia, sentem-se oprimidos pela inquietação, quando se interrogam acerca da evolução atual dos acontecimentos. Mas esta desafia o homem, força-o até a uma resposta» (GS, 4).

Entre muitos outros intervenientes na sociedade, a Igreja, à luz do Evangelho, sente o dever de oferecer os princípios pelos quais se devem orientar as corretas relações pessoais e sociais, em qualquer domínio da vida sócio-cultural.

João Paulo II dirigindo-se aos membros da pontifícia academia das ciências sociais, em 2001, analisa os diversos fatores que interferem na vida de uma sociedade que se sente afetada pela economia de mercado, a qual impõe o seu modo de pensar e de agir, e com a sua escala de valores, influi no comportamento, e conclui que «a afirmação da prioridade da ética corresponde a uma exigência essencial da pessoa e da comunidade humana». Adverte, contudo, que numa sociedade global nem todas as formas de ética são dignas deste nome.

A ética, sublinha o Santo Padre, exige que «os sistemas se adaptem às exigências do homem e não que o homem seja sacrificado em nome do sistema». Daí, defender que as comissões de ética, hoje habituais em quase todos os setores, deveriam ser completamente independentes dos interesses financeiros, das ideologias e das conceções políticas partidárias.

Entre outros princípios, como o da prioridade ao bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade, a Igreja defende a atenção para o valor inalienável da pessoa humana e para o valor das culturas humanas. O primeiro é fonte de todos os direitos humanos e de todas as ordens sociais; a pessoa deve ser sempre um fim em si mesma e jamais um instrumento, um sujeito e não um objeto nem um produto de mercado. O segundo exige o respeito pela diversidade de culturas, que no âmbito da harmonia universal dos povos, são as chaves interpretativas da vida.

Como afirmava Paulo VI, a Igreja espera verdadeiramente que todos os elementos criativos da sociedade, fruto do autêntico progresso, colaborem para a promoção de todo o homem e do homem todo.

No contexto da cultura atual, o anúncio e o testemunho do Evangelho, traduzidos em critérios de atuação social e de fermentação cultural, são inquestionavelmente um dever de todos os discípulos de Jesus Cristo.

 

D. João Lavrador
Bispo auxiliar do Porto, membro da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais
In Voz Portucalense, 18.9.2013
18.09.13

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