Cinema
Os filmes dos Óscares 2013
Na noite de entrega dos Óscares em Holywood nenhum filme se destacou pela quantidade de prémios obtidos.
As estatuetas douradas de melhor filme, argumento adaptado e montagem foram para "Argo", de Ben Affleck, narrativa que parte da invasão da embaixada dos EUA em Teerão por parte de militares iranianos em novembro de 1979.
Releia as críticas que Margarida Ataíde escreveu nos últimos meses sobre algumas das películas que mais distinções ganharam.
A vida de Pi
Melhor realizador (Ang Lee), fotografia, banda sonora e efeitos visuais
Piscine Molitor Patel nasce em Pondicherry, a "Côte d’Azur do leste indiano" com vista para a magnífica Baía de Bengala, no seio de uma família proprietária de um pequeno jardim zoológico.
Herdeiro das múltiplas influências culturais e religiosas da região, que vão do hinduísmo ao islamismo, passando inevitavelmente pelo cristianismo, Piscine cresce até à adolescência na cidade portuária que, além da árabe e portuguesa, sempre sob domínio Pallava, teve na francesa a mais evidente influência europeia.
É desta influência que deriva o seu nome, em homenagem ao complexo olímpico parisiense Piscine Molitor, e o seu primeiro momento de afirmação identitária, ao trocar a equívoca designação por uma constante matemática e um número transcendente: Pi.
Aprendendo as primeiras leis da vida com os animais do zoo, Pi desde cedo se interroga sobre a sua identidade religiosa, retirando de cada uma das influências aquilo que lhe parece fazer sentido. À revelia de um pai agnóstico auto proclama-se cristão.
Quando a viabilidade do zoo é ameaçada e a família decide partir para o Canadá, o barco em que seguem sofre uma violenta tempestade. Em pleno Oceano Pacífico, Pi vive a mais temível e extraordinária experiência humana, entregue a Deus e ao seu discernimento, num bote onde couberam ainda uma zebra, uma hiena, um orangotango... e Richard Parker, portentoso tigre de Bengala...

Desde o anúncio de adaptação de “A Vida de Pí”, do escritor canadiano Yann Martel, ao cinema, sob direção do oscarizado Ang Lee (“O Segredo de Brokeback Mountain”, “O Tigre e o Dragão”), paira no ar a interrogação sobre a sua capacidade de transpor ou reinterpretar a maior riqueza da obra literária: as interrogações e reflexões de um rapaz na passagem à idade adulta sobre o sentido da vida e da existência. Reflexões que surgem de forma mais evidente ou subliminar na relação fabulosa de Pi com os animais e inevitavelmente nos momentos de maior tragédia e espanto, ante a experiência do desespero ou da solidão. Na ausência e na magnânima presença de Deus.

A opção de Ang Lee é claramente pela magnificência de efeitos visuais, permanentemente acompanhados por uma banda sonora digna de entusiasmante aventura. Adaptação bem protagonizada por um jovem e empenhado ator, Suraj Sharma, num contexto em que tudo parece bater certo, mas que evita a todo o custo a introspeção...

Os Miseráveis
Melhor atriz secundária (Anne Hathaway), caracterização e mistura de som
Numa França em transição entre a primeira e a segunda república, Jean Valjean termina a sentença cumprida em 20 penosos anos. Ao libertá-lo, Javert, o cioso defensor da lei que garantiu o cumprimento da pena de Valjean por roubar um pão para uma criança faminta, promete vigiá-lo para sempre.
Recusado para trabalho, Valjean encontra finalmente num mosteiro e na caridade de um bispo, que o acolhe com incondicional misericórdia, a possibilidade de redenção.
Oito anos mais tarde, Valjean é um homem novo: abastado proprietário de uma fábrica de têxteis e presidente da câmara local, procura replicar a graça que lhe foi concedida a todos os que o rodeiam.

Porém, a inesperada visita de Javert, agora um prestável inspetor da polícia que não reconhece imediatamente o ex-prisioneiro, não lhe permite acudir à injustiça cometida a uma sua empregada: Fantine, mãe solteira de uma menina que entregou ao cuidado de terceiros é despedida em resultado da inveja e da intriga de colegas.

Reencontrando-a mais tarde, doente e moribunda, Valjean resgata-a da miséria da prostituição, já não a tempo de salvar a sua vida mas de prometer salvar a da filha, Cosette.

Os anos passam, Valjean cumpriu o prometido, mas enquanto o povo de França luta incessantemente pelos valores da liberdade, igualdade e fraternidade, também este ex-condenado procura iludir a obsessão persecutória de Javert, por amor a Cosette e pela misericórdia para com o seu ‘inimigo’.

‘Os Miseráveis’, obra do romancista, poeta e dramaturgo francês Vítor Hugo, notável fresco sobre a sociedade francesa da primeira metade do séc. XIX que reflete sobre a condição humana, conheceu inúmeras adaptações a música, teatro e cinema.

De todas, as mais notáveis foram, no primeiro caso, a produção musical de Alain e Claude-Michel Schönberg (1980) que se converteria primeiro num espetáculo estreado em Paris e, posteriormente, adaptada a versão inglesa pela equipa de Cameron MacKintosh sendo até hoje um dos musicais ‘obrigatórios’ do West End londrino.

No cinema, destaca-se a adaptação de Richard Boleslawski (1935), sucedendo-se agora a dirigida por Tom Hooper (‘O Discurso do Rei’), num musical de envergadura que conta com grandes meios de produção.

Nomeado para os Golden Globes na categoria de melhor musical/comédia, entre outras, e provavelmente um dos mais fortes candidatos aos Óscares, é particularmente reconhecida a qualidade das interpretações de Hugh Jackman (ator principal) e Anne Hathaway (atriz secundária), além das composições musicais originais de Alain Boublil, Herbert Kretzmer e Claude-Michel Schönberg.



Django libertado
Melhor ator secundário (Christoph Waltz) e argumento original
Passam três décadas desde que Quentin Tarantino encetou a sua carreira de realizador. E quem tenha visto "My Best Friend’s Birthday", primeira obra criada aos 19 anos, projetada para longa metragem que um acidente transformaria em curta, depressa se aperceberia, com todas as limitações de um iniciado, do seu olhar peculiar sobre as pessoas que somos, a forma de as expressar no cinema e de tirar partido das suas potencialidades. Uma pequena amostra, que Tarantino viria a designar como a sua "escola de cinema", do potencial talento de um realizador se tem firmado na história do cinema longe do academismo e estreitamente ligada a uma cultura popular, com registo muito próprio.
A partir de "Cães Danados" (1992) e "Pulp Fiction" (1994) já não se dissocia o nome de Tarantino da ironia crua, da violência desconcertante por ser simultânea e explicitamente inaudita e, no entanto, estranhamente cómica, o que a faz destacar-se da realidade – o que não é o mesmo que legitimá-la.

"Django Libertado", o filme que os amantes de Tarantino esperam ansiosamente ver esta semana nos ecrãs de cinema, poderia ser só uma homenagem ao western americano e ao ‘Django’ de Sergio Corbucci (1966), mas é evidentemente muito mais que isso: uma reinterpretação da questão da escravatura e de um Oeste Selvagem que, sem grandes pretensões intelectuais ou filosóficas, não deixa de desbravar vasto terreno sobre a condição humana, a liberdade interior, o valor da vida e, inerente a este, o do amor e da amizade como cumprimento, ou não, desse "estar ou ser vivo".

A história de Django é a de um escravo negro brutalmente separado da sua mulher que acaba resgatado por um caçador de prémios, Dr. Schulz, um americano de origem alemã, amante da literatura e das artes em geral. Unidos por objetivos comuns, sendo o de Django a libertação da mulher que ama, e o de Schulz um prémio avultado pelos corpos, vivos ou mortos, de um gang, os dois homens seguem rumo ao Mississípi. No caminho, ganham a amizade e o respeito mútuo, numa cumplicidade única que lhes poderá custar a vida...

Porventura um dos seus filmes mais lineares, Tarantino escusa aqui as deambulações (nunca inúteis) por diversos caminhos e personagens, centrando na cumplicidade destes dois homens questões suficientes para nos despertar a todos e, sobretudo, a uma sociedade americana de uma aparente dormência sobre temas que poderiam parecer letargicamente repousados nos antigos westerns. E no entanto continuam latentes: racismo, o reconhecimento da liberdade individual e coletiva, respeito pelo outro...

Magnificamente interpretado por Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington e Samuel L. Jackson, magnificamente filmado e servido por uma banda sonora de um registo eclético muito pertinente, eis um tratado cinematográfico sobre "os vivos e os mortos" que somos e que a crueza de algumas sequências não pode confundir com mero horror nem espetacularidade.

Lincoln
Melhor ator (Daniel Day-Lewis), produção artística
Com mais de uma centena de títulos associados à sua carreira de produtor (51 dirigidos por si), Steven Spielberg tem dado um portentoso contributo à história do cinema com obras que se debruçam sobre as questões que consubstanciaram a evolução e o estado do mundo (sobretudo) no último século.
O cineasta norte-americano debruça-se sobre temas que vão da conquista do espaço ("Encontros Imediatos do 3º Grau", "E.T. – O Extraterrestre", "Guerra dos Mundos") aos conflitos mundiais ("O Império do Sol", "O Resgate do Soldado Ryan", "A Lista de Schindler", "Cavalo de Guerra"), passando pela era Jurássica (toda a série "Parque Jurássico") e outros períodos marcantes da Nistória, como as contendas no Médio Oriente refletidas nos Jogos Olímpicos ("Munique").
Independentemente do género, são bem patentes as questões que Spielberg levanta e os valores subjacentes que defende: o respeito pela vida, a tolerância ou respeito mútuo, para lá da diferença de espécie, raça ou credo; a relação humana com o desconhecido; a possibilidade de entendimento e cooperação nas circunstâncias mais adversas ou improváveis.

Depois de "A Cor Púrpura" e "Amistad", "Lincoln", mais que o olhar biográfico sobre um presidente dos Estados Unidos, é uma nova proposta de reflexão sobre a questão dos direitos humanos, especificamente centrado na abolição da escravatura – igualdade racial ou étnica.

Entre 1861 e 1865 a Guerra da Secessão nos Estados Unidos (precisamente pouco unidos, à época) opõe onze estados do Sul aristocrático e latifundiário, assentes na mão de obra escrava, a um Norte industrializado e ansiando pelo desenvolvimento do mercado interno, devidamente protegido.

Em 1865, com uma população exausta e um país dividido, o presidente Abraham Lincoln, republicano e manifesto opositor da escravatura, procura conciliar os esforços que do seu lado e do lado dos democratas se desenvolvem a favor da paz, com o desejo, longe de consensual, de abolir de vez a escravatura – fazendo aprovar a 13ª Emenda da Constituição.

Uma tarefa árdua a contrarrelógio que implica sobretudo um trabalho de bastidores político, mas que o filme pertinentemente abre à capacidade de auscultação de um líder nato: ouvindo a palavra que todos os envolvidos têm a dizer sobre a matéria – desde os soldados brancos e negros da frente de batalha, à família, passando por correlegionários e opositores políticos, negros livres ou ainda escravos.

Uma obra clara e bem gerida que pretere os efeitos emocionais e visuais da guerra em favor da discussão, atual, de interesses, fundamentos e garantias da igualdade dos seres humanos, não entre si, mas perante a lei. Sem esquecer o papel preponderante, e inevitavelmente solitário, de um líder.
Guia para um final feliz
Melhor atriz (Jennifer Lawrence)
A vida tranquila de Pat acabou no dia em que descobriu que a mulher o traía. O estado de infelicidade e depressão leva-o a interromper a carreira de professor e ao internamento numa clínica psiquiátrica.
Oito meses passados, instala-se em casa dos pais, ainda pouco convictos da sua total recuperação. No entanto, Pat, que continua a ser acompanhado por um especialista que lhe diagnostica bipolaridade e o sujeita a forte medicação, está plenamente convicto de que o exercício físico e uma atitude positiva para com a vida serão os melhores meios para enfrentar os seus problemas.
Ao conhecer Tiffany, uma mulher atraente que sofreu igualmente de depressão após a morte do marido e leva agora uma vida bastante desorganizada, a afinidade entre os dois, que começa pela entusiástica partilha de nomes de ansiolíticos e antidepressivos, torna-se cada vez mais abrangente e clara.

Reconstruir duas vidas amachucadas não será fácil, mas Pat não desiste das suas premissas positivas na forma como encara a vida e esta nova relação...
Construir de forma consistente uma obra que se debruce sobre um dos maiores e mais comuns problemas que afligem a nossa sociedade - a capacidade de lidar com a perda, a ausência e a frustração – está longe de ser uma tarefa fácil. Mas foi a que assumiu o realizador David O. Russell ao propor-se simultaneamente retratar, convidar à reflexão e divertir os espetadores com a adaptação ao cinema do romance “Silver Linings Playbook” de Matthew Quick (2008).

Num estilo ágil e mais descontraído do que profundo, “Guia para um Final Feliz”, cujo título adotado em português perverte pela fraca acuidade o original – transformando uma simples sugestão de otimismo para com o inesperado num pretenso ‘livro de instruções para uma felicidade garantida’ -, é uma simpática abordagem à forma como lidamos com os nossos problemas.

Do ímpeto de evasão à procura dos paliativos mais imediatos, do desmoronamento à reconstrução da relação a dois, da dúvida e do pessimismo à convicção e à esperança em melhores dias, tudo começando no princípio de que é de dentro de nós que parte a solução, eis um filme que de forma suave é capaz de tocar questões importantes que fazem parte do nosso dia-a-dia – questões nossas ou dos que nos rodeiam.

No início da ronda anual de premiações americanas, “Guia para um Final Feliz” consta já de uma longa lista de galardões, incluindo a nomeação aos Globos de Ouro nas categorias de Melhor Filme, Melhor Argumento e Melhor Ator e Atriz principais (Bradley Cooper e Jennifer Lawrence).
Amor
Melhor filme estrangeiro (realizado por Michael Haneke)
Três anos após conquistar uma vasta gama de prémios pelo seu “O Laço Branco”, profunda e perturbante meditação sobre a condição humana, Michael Haneke voltou a arrebatar a mente e o coração de júris, crítica e público com o seu mais recente filme: "Amor".
Georges e Anne Laurent, casal octogenário, vivem confortavelmente a sua reforma na cidade de Paris, na sequência de uma vida dedicada à música. O carinho que nutrem um pelo outro é notório. Um dia, são surpreendidos pela doença de Anne. Um grave problema de natureza vascular, evidenciado por um súbito estado de ausência, limitará, num brevíssimo espaço de tempo, a sua mobilidade. Primeiro confinada a uma cadeira de rodas e mais tarde a uma cama, o estado de Anne agrava-se de dia para dia.
Ao longo deste processo Georges não hesita em assumir, com recurso mínimo à ajuda de terceiros, os cuidados necessários a Anne, sejam de ordem física ou afetiva. Indiferente à sua própria debilidade física e relegando para segundo plano a dor provocada pela degradação humana da mulher da sua vida, é o amor que prevalece, a cada dia, ante a perspetiva de uma morte anunciada...

Com a questão da doença e da morte em solidão a afligir uma envelhecida Europa em tempos de crise e de dúvida, entre tantos outros problemas que apelam à reflexão e à ‘inflexão’ urgente de modelo social e afetivo, “Amor” é uma muito pertinente meditação sobre nós. Todos nós.

Magnificamente interpretado por Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, os dois atores que em tempos atraíram uma geração às salas de cinema pela sua sedutora vitalidade física e emocional, emprestam os mesmíssimos dons artísticos à encarnação de duas personagens no final das suas vidas.

Incómodo e imensamente belo, eis um filme que trata, de modo igualmente notável e delicado, a questão do amor e da morte, em intimíssima relação e definindo claramente o que na nossa natureza prevalece.

Mais uma meditação que Haneke séria e generosamente nos entrega, em que as soluções dificilmente podem ser consideradas ou debatidas sem se olhar aos caminhos que a umas ou outras conduzam...
Margarida Ataíde
Grupo de Cinema do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
In Agência Ecclesia / Com SNPC
© SNPC |
25.02.13









