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Espiritualidade

Jesus, o orante (1)

S. Lucas é o evangelista que mais fala da oração e que escreve para nos ajudar a orar como Jesus orou.

 

O baptismo (3, 21-22)

“Todo o povo tinha sido baptizado; tendo Jesus sido baptizado também, e estando em oração, o Céu rasgou-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea, como uma pomba. E do Céu veio uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado».”

A inauguração da sua missão pública encontra Jesus em oração, voltado para o Pai, à espera. Ele acaba de participar no baptismo de penitência dado por João, convite à purificação e à humildade. É então que o Espírito desce sobre ele e do céu faz-se ouvir a voz do Pai: “Tu és o meu Filho muito amado; eu hoje te gerei”. Este versículo do Salmo 2 significa a entronização do Messias. O Pai manifesta assim a Jesus quem Ele é: a sua identidade fundamental de Filho e a sua missão de Messias junto do povo de Deus.

É na oração humilde que lhe é dada a luz sobre a sua identidade: Filho face ao seu Pai e sobre o que o Pai espera dEle; é na oração que Ele recebe a força do Espírito para realizar, na obediência ao Pai, o seu ser de Filho.

A aventura começou... Cheio do Espírito Santo, conduzido por este Espírito, será – imediatamente a seguir – tentado pelo diabo no deserto durante quarenta dias. “Se és Filho de Deus...”, é preciso aproveitar! Utiliza os teus poderes espirituais para satisfazer a tua fome, deslumbrar a multidão com actos maravilhosos, intimar o teu Pai a manifestar o seu amor por ti... Não!

- “Nem só de pão vive o homem.”
- “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.”
- “Não tentarás ao Senhor, teu Deus.” (4, 4.5.12)

 

A escolha: rei ou servidor

A tentação de um messianismo político, de um sucesso humano realizado com meios humanos estará presente durante toda a missão de Jesus. Ele vai ter de lutar para continuar fiel ao caminho humilde e escondido, infinitamente paradoxal e louco para a sabedoria humana, que lhe é traçado pela obediência ao plano do Pai.

Jesus vai manifestar-se como filho nesta fidelidade a uma não apropriação das riquezas espirituais e temporais colocadas à sua disposição. No fim da vida, será na pobreza total que o seu amor e a sua fé se vão exprimir. Mas consideremos em primeiro lugar o momento do seu “sucesso”.

No dia a seguir a uma jornada de pregação:

“A sua fama espalhava-se cada vez mais, juntando-se grandes multidões para o ouvirem e para que os curasse dos seus males. Mas Ele retirava-se para lugares solitários e aí se entregava à oração” (5, 15-16).

Jesus vai à Galileia, onde opera curas. A sua fama alargou-se a toda a região. Mas Jesus é habitado por uma aspiração profunda: retirar-se na solidão para rezar (4, 42). Rapidamente é encontrado pela multidão, mas ainda assim guarda o desejo da solidão, como sugere a ordem dada ao leproso curado: “Ordenou-lhe, então, que a ninguém o dissesse” (5, 14). O seu desejo realiza-se logo a seguir (5, 16). O contraste é marcante entre a solidão que Jesus procura para orar e a multidão ávida de encontrar junto dele palavra e cura e de o fazer rei em sentido totalmente político.

Um incidente, narrado por Marcos, é muito expressivo. Depois de ter alimentado cinco mil homens no deserto, “Jesus obrigou logo os seus discípulos a subirem para o barco e a irem à frente, para o outro lado, rumo a Betsaida, enquanto Ele próprio despedia a multidão. Depois de os ter despedido, foi orar para o monte” (6, 45-46).

O milagre da multiplicação dos pães assinala o momento em que o entusiasmo político suscitado pelos gestos de Jesus chega ao auge. Os discípulos também partilhavam deste entusiasmo, ao passo que Jesus o afasta. Para realizar esta difícil escolha da recusa, Jesus retira-se sozinho para a montanha e reza. Só a oração, através de um contacto íntimo e solitário com o Pai, lhe permite permanecer à altura da sua missão espiritual e de resistir ao fascínio do poder. Só Deus!

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In La prière: Entre combat et extase
Trad.: rm
© SNPC (trad.) | 02.05.10

ImagemJames Tissot
























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