Espiritualidade
Aquele a quem rezamos
Jesus ensina aos seus discípulos a maneira como eles se devem dirigir a Deus, mostrando os sentimentos que Deus experimenta a respeito deles. O Deus que Jesus lhes apresenta é sobretudo o Pai e a conduta prática dos apóstolos deve derivar dele.
O Pai é bom: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam. (...) Então (...) sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é bom até para os ingratos e os maus” (Lucas 6, 27. 35).
Como o Altíssimo é bom para os maus, também nós devemos ser bons ao ponto de amar os nossos inimigos e orar por eles.
Através de imagens surpreendentes, Jesus procura fazer-nos compreender a bondade do Pai.
1) Melhor que o juíz importunado: “Em certa cidade, havia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. Naquela cidade vivia também uma viúva que ia ter com ele e lhe dizia: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário.’ Durante muito tempo, o juiz recusou-se a atendê-la; mas, um dia, disse consigo: ‘Embora eu não tema a Deus nem respeite os homens, contudo, já que esta viúva me incomoda, vou fazer-lhe justiça, para que me deixe de vez e não volte a importunar-me.’» E o Senhor continuou: «Reparai no que diz este juiz iníquo. E Deus não fará justiça aos seus eleitos, que a Ele clamam dia e noite, e há-de fazê-los esperar? Eu vos digo que lhes vai fazer justiça prontamente. Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?” (Lc 18, 2-8).
Se um juiz humano, iníquo, é capaz de fazer cumprir o Direito ao pedido de uma viúva obstinada e fatigante, quanto mais Deus, que é bom até para os maus, saberá fazer justiça aos seus eleitos?
Daqui a necessidade de “orar sempre, sem desfalecer” (18, 1). Seremos certamente atendidos, Deus acabará por responder aos nossos pedidos.
Os versículos 7 e 8 dão toda a amplitude escatológica a esta lição. “Os dias do Filho do Homem” (17, 20-36) acabarão certamente por chegar.
2) Melhor que o amigo importunado: “Se algum de vós tiver um amigo e for ter com ele a meio da noite e lhe disser: ‘Amigo, empresta-me três pães, pois um amigo meu chegou agora de viagem e não tenho nada para lhe oferecer’, e se ele lhe responder lá de dentro: ‘Não me incomodes, a porta está fechada, eu e os meus filhos estamos deitados; não posso levantar-me para tos dar’. Eu vos digo: embora não se levante para lhos dar por ser seu amigo, ao menos, levantar-se-á, devido à impertinência dele, e dar-lhe-á tudo quanto precisar” (Lc 11, 5-8).
Colocai-vos no lugar do amigo! Concluí antecipadamente que o que faríeis, Deus o fará do mesmo modo.
3) Melhor que um pai humano: “Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? Ou, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Pois se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem” (Lc 11, 11-13).
Em Mateus 7, Jesus conclui a mesma parábola anunciando que o “Pai que está no Céu dará coisas boas àqueles que lhas pedirem” (versículo 11). Lucas faz uma precisão: “o Pai do Céu dará o Espírito Santo”. O Espírito Santo é a melhor das “coisas boas” que a Igreja pode pedir. Oração e dom do Espírito estão intimamente ligados na Igreja depois da primeira comunidade apostólica.
4) O pai do filho pródigo (Lc 15, 11-32): Uma das imagens mais comoventes da bondade do Pai é a do pai do filho pródigo. O jovem, que voltou a si mesmo, decide regressar para o seu pai e dizer-lhe: “Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus jornaleiros”. Mas quanto ele se apresenta diante do pai, que acolhimento! “Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.” Ele não deixa sequer o filho terminar o seu pedido e interrompe-o, dizendo aos servos:
“Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado” (15, 22-23).
Eis o Pai a quem dirigimos as nossas orações, eis o acolhimento com que podemos contar, mesmo quando nos apresentamos diante dEle como pecadores.
In La prière: Entre combat et extase
Trad.: rm
© SNPC (trad.) |
26.04.10
Palma Giovane






