Meditação
As minhas ovelhas escutam a minha voz
As minhas ovelhas escutam a minha voz: Eu conheço-as e elas seguem-me. Dou-lhes a vida eterna, e nem elas hão-de perecer jamais, nem ninguém as arrancará da minha mão. O que o meu Pai me deu vale mais que tudo e ninguém o pode arrancar da mão do Pai. Eu e o Pai somos Um.» (João 10, 27-30 - Evangelho de 25.4.2010, 4.º Domingo da Páscoa)
O pequeno discurso da liturgia deste Domingo pertence a um conjunto fortemente polémico (Jo 10, 22-42), que inclui uma tentativa de apedrejamento (versículo 31) e uma de prisão (v. 39), a que Jesus escapa, retirando-se depois para a outra margem do rio Jordão (v. 40).
O centro deste debate é a identidade de Jesus: Se tu és o Cristo, diz-nos abertamente (v. 24). Como acontece com frequência, a resposta de Jesus é desconcertante: os judeus não podem crer nas obras que ele realiza porque não fazem parte das suas ovelhas (vv. 25-26). É a pertença ao rebanho que permite reconhecer que as obras de Jesus vêm do Pai.
Dou-lhes a vida eterna
Quem são então as ovelhas? Num primeiro momento elas são caracterizadas por quatro enunciados. Jesus é o sujeito da segunda (“Eu conheço-as” – v. 27) e da quarta (“Dou-lhes a vida eterna – v. 28). Estas proposições encontram-se em termos quase idênticos no seu discurso sobre o Bom Pastor (Jo 10, 1-28).
Conhecer as ovelhas é obviamente uma aptidão necessária para um pastor, que deve distinguir entre muitos animais aqueles que fazem parte do seu rebanho. Na linguagem de Jesus, é mais do que isso. O conhecimento implica uma relação pessoal profunda, feita de confiança e de amor. Por causa desta relação, Jesus quer dar às ovelhas a vida eterna, a comunhão perfeita no amor. Na linguagem do quarto evangelho, a vida eterna não começa apenas depois da morte; todos os que crêem, que reconhecem Jesus como o enviado do Pai, já entraram na vida eterna.

Elas seguem-me
Do lado das ovelhas encontramos também duas notas distintivas: escutar a voz do pastor e segui-lo (v. 27). Estes dois temas são também retomados do discurso do Bom Pastor. Ao alternar o sujeito entre as ovelhas e Jesus, a construção gramatical dos textos deste Domingo cria uma ligação diferente entre as ideias face à narrativa do Bom Pastor. O que é sublinhado em primeiro lugar é a escuta da voz.

A imagem surge naturalmente da vida do pastor; é preciso que o rebanho escute a voz do seu guardador. Mas a expressão “escutar a voz” tem uma longa história. No Antigo Testamento significa obedecer, ser fiel (cf. Deuteronómio 11, 13; 13, 5.19; 26, 14.17, etc.). Um texto particularmente interessante encontra-se no livro do Êxodo, no momento em que Deus dá a Moisés as suas instruções quanto à travessia do deserto e da conquista da Terra Prometida: “Eis que Eu envio um anjo diante de ti ... Mantém-te atento na sua presença e escuta a sua voz ... porque está nele a minha autoridade. Mas se escutares a sua voz e se fizeres tudo o que Eu falar, Eu serei inimigo dos teus inimigos” (23, 20-22). Escutar a voz de Jesus, o pastor, é reconhecer nele o enviado de Deus, aquele em quem reside o Nome divino. Os judeus que recusam escutá-lo colocam-se à margem da salvação; eles não podem acolher os sinais que o identificam como o Messias.

A imagem dos carneiros que seguem um chefe tem muitas vezes uma conotação negativa, como lembra a palavra “carneirada”. O termo pressupõe que os animais desta espécie são ingénuos e crédulos. É por isso que a comparação nascida desta representação está longe de ser lisonjeira. Mas o evangelho ignora totalmente esta percepção do comportamento animal. O verbo “seguir” realça a docilidade daquele que ouve a voz do seu pastor. Aliás, esse mesmo verbo caracteriza a relação do discípulo com o seu mestre. Ser ovelha no rebanho de Jesus equivale a ser discípulo (cf. Jo 1, 37.38.40.43; 12, 26, etc.).

Elas não perecerão jamais
Depois da descrição das suas ovelhas, Jesus acrescenta algumas considerações no estilo típico do quarto evangelho. “Nem elas hão-de perecer jamais” é a negativa da proposição anterior: “Dou-lhes a vida eterna”. Perecer é ser excluído da salvação (cf. Jo 3, 16; 17,12; 18,9). O enunciado seguinte restabelece a imagem do rebanho. No discurso sobre o Bom Pastor, Jesus emprega o verbo traduzido por “arrebatar” para caracterizar a acção do lobo que se apodera das ovelhas (Jo 10, 12). Enquanto as ovelhas forem fiéis à escuta da voz do seu pastor, estão em segurança porque ele protege-as de todos os perigos (cf. Sabedoria 3, 1).

O Pai e eu somos um
A partir do versículo 29 Jesus introduz o Pai, que já havia sido mencionado quando o Filho diz “As obras que Eu faço em nome de meu Pai, essas dão testemunho a meu favor” (v. 25). Ele acrescenta agora que as ovelhas são-lhe dadas pelo Pai, retomando o que já tinha dito sobre os discípulos: “Ninguém pode vir a mim, se isso não lhe for concedido pelo Pai” (Jo 6, 65). Fazer parte do rebanho de Jesus é um dom de Deus.
O discurso termina pela afirmação mais clara feita até então por Jesus sobre a sua identidade divina (v. 30). Os seus interlocutores compreendem bem esta afirmação e é por isso que o querem lapidar sob a acusação de ele se fazer Deus (v. 33). A frase de Jesus não significa que ele é o Pai mas que existe entre eles uma união de natureza tal que o que é afirmado sobre o Pai pode também sê-lo acerca do Filho. Quando as ovelhas escutam a voz de Jesus, é igualmente a voz de Deus e é Deus que as guarda através do seu enviado, o Filho.
Fr. Carlos (c. 1520) (det.). Museu Nacional de Arte Antiga
O Cordeiro ... será o seu pastor
Um Cordeiro que se torna pastor! Quando este Cordeiro entra em cena (Apocalipse 5, 6 – 2.ª leitura), o versículo anterior tinha apresentado o Leão da tribo de Judá. Através desta fusão de imagens, é sempre o Cristo morto e ressuscitado que está presente. Ele é tanto o leão que vence as forças do mal como o pastor que guia os fiéis até ao repouso do Reino; para ele convergem os olhares e os louvores (cf. v. 9). A sorte dos eleitos é descrita com base no Salmo 23 (22) e no regresso dos exilados à Terra Prometida (Isaías 49, 9-10). Realiza-se a promessa de Jesus: “Dou-lhes a vida eterna” (Jo 10, 28).

Voltamo-nos para os pagãos
Em Antioquia da Pisídia produz-se uma ruptura na vida de Paulo. Ele vai passar a orientar a sua acção para o mundo pagão, abrindo a Igreja a todas as nações (Actos dos Apóstolos, 13, 47). Ainda que esta opção vá confrontar-se com muitas resistências, é dado um passo decisivo. A fractura deve-se ao facto de os judeus repelirem a palavra de Deus e se julgarem “indignos da vida eterna” (v. 46). Na linguagem de João, dir-se-ia que eles não fazem parte do rebanho e por isso não podem compreender a voz do Pastor. Pelo contrário, aqueles que se tornaram crentes conhecem já os frutos da salvação: os “discípulos, estavam cheios de alegria e do Espírito Santo” (v. 52).
P. Jérôme Longtin
In Interbible
Trad.: rm
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25.04.10
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