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Espiritualidade

Como orar?

1. Numa perseverança confiante

A partir do momento em que compreendemos os sentimentos paternais do Deus, a perseverança confiante na oração surge naturalmente.

“Pedi e ser-vos-á dado; procurai e achareis; batei e abrir-se-vos-á; porque todo aquele que pede, recebe; quem procura, encontra, e ao que bate, abrir-se-á” (Lucas 11, 9-10).

Pedi, procurai, batei... Pedi tudo, pedi o Espírito, procurai Deus, batei à porta do Reino: “Abre-nos, Senhor” (Lc 13, 25-27).

Batei à porta que é Cristo, Ele que é o caminho que conduz ao Pai; através das suas feridas, acedemos ao Pai, que é o primeiro a procurar-nos no seu Filho.

“Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo” (Apocalipse 3, 20).

Portanto, quando rezo, a minha oração é o eco da oração de Deus. Sendo assim, como pode Ele recusar, recusar-Se?

Mas é preciso que a minha oração seja, antes de tudo, humilde.

 

2. Com a humildade das mãos vazias: o fariseu e o publicano (Lc 18, 10-14)

O importante é que a confiança que devemos ter na oração não seja fundada sobre a nossa própria “justiça”, mas unicamente na bondade misericordiosa de Deus, que é um fundamento infinitamente mais sólido.

Leiamos a parábola no presente. O fariseu e o publicano são cada um de nós. O fariseu faz valer-se da sua fidelidade às prescrições da Lei, chega mesmo a dar graças a Deus por aquilo que é, e isso é bom. Mas não é verdadeiramente consequente com ele próprio. Em lugar de fazer subir a Deus a justiça que acredita descobrir nele, atribui-a a si próprio e daí tira um motivo de orgulho pessoal. Ele não é nem um mendigo nem um “servo inútil”, está cheio de si mesmo. A sua atitude de menosprezo para o seu irmão publicano é o fruto inevitável dessa atitude.

O publicano, por seu lado, contenta-se em pedir a Deus que o perdoe, dado que se sabe pecador. A sua atitude é simples. É um homem que cumpre os seus deveres religiosos, visto que sobe ao Templo para orar, tal como o fariseu. Contudo não apresenta as suas boas acções diante de Deus. Ele sabe simplesmente que é pecador mas que o Pai é bom; entrega-se à misericórdia de Deus. Esta disposição vale-lhe o perdão, enquanto que o fariseu permanece fechado na cegueira da sua própria “justiça”.

“Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 18, 14).

O humilde coloca a sua confiança só em Deus. Por trás desta simples parábola projectam-se as vertiginosas profundezas da doutrina sobre a fé que salva por si própria, antes de todo o mérito. A bondade, o amor gratuito do Pai são a nossa única segurança, a nossa única garantia.

“Que tens tu que não tenhas recebido?” (1 Coríntios 4, 7).

Que liberdade nesta pobreza radical!

Ser filhos, unicamente suspensos pela bondade infinita do Pai eterno.

 

3) Sem comércio

“Depois, entrando no templo, começou a expulsar os vendedores. E dizia-lhes: «Está escrito: A minha casa será casa de oração; mas vós fizestes dela um covil de ladrões»” (Lc 19, 45-46).

No Templo, só Deus deve ser adorado. A morada feita pela mão do homem do Antigo Testamento é substituída pelo Corpo de Cristo. Nós somos esse Corpo, o templo do Espírito. Só o Espírito sabe orar como deve ser, e ele grita em nós “Pai”. Ele é amor.

O nosso coração deve ser uma casa de oração, um lugar onde o Filho se volta para o Pai no amor. O silêncio deve estar presente e nós devemos fazer calar os gritos dos vendedores e os gritos de um comércio ainda mais subtil: o de uma atitude demasiado interesseira de cálculo e de procura de si. Acautelemo-nos dos ídolos!

“E imediatamente entrará no seu santuário o Senhor, que vós procurais” (Malaquias 3, 1).

 

4. Na vigilância

“Tende cuidado convosco: que os vossos corações não se tornem pesados com (...) as preocupações da vida, e que esse dia não caia sobre vós subitamente (...). Velai, pois, orando continuamente, a fim de terdes força para escapar a tudo o que vai acontecer e aparecerdes firmes diante do Filho do Homem” (Lc 21, 34-36)

No início da sua missão pública, Jesus é tentado pelo diabo durante quarenta dias no deserto (Lc 4, 2). Vencido, o tentador afasta-se (4, 13). Esta derrota é repetida em cada um dos exorcismos realizados por Jesus. Mas no plano de Deus, Satanás tem a sua hora, a hora da tentação decisiva, a hora da Paixão. É então que ele “entra em Judas, um dos doze” (Lc 22, 3) e consegur provocar a morte de Jesus.

Os discípulos vão também viver a partir daí um tempo de combate. Jesus predisse-o:

“Vão deitar-vos as mãos e perseguir-vos (...). Pela vossa constância é que sereis salvos” (Lc 21, 12.19).

ImagemMagnasco

O Evangelho evoca a tentação dos últimos tempos em terríveis termos apocalípticos: ódio, morte, angústia, falsos messias, caos cósmico.

“As forças celestes serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do Homem vir numa nuvem com grande poder e glória” (Lc 21, 26-27).

À Igreja nunca faltaram provações, e actualmente também não. Cristo não volta, não se mostra, continua invisível. Não responde nem às nossas orações nem ao nosso desejo. É então que se duvida, que se deixa de ter fé, que se desespera de Deus (Lc 18, 8). Quando as nossas orações parecem nada mudar, alguns são levados a adormecer, a viver na despreocupação, exactamente como na véspera do dilúvio e da destruição de Sodoma; come-se, bebe-se, compra-se, vende-se, planta-se, constrói-se (Lc 17, 28).

Mas a intervenção de Deus será repentina para o mundo e para cada um de nós. “Duas mulheres estarão juntas a moer: uma será tomada e a outra será deixada” (Lc 17, 35). Tudo o que há em nós não será senão palha levada pelo vento e não ficará senão a semente. Se é que vai restar alguma coisa! É a nossa própria fé que será peneirada até ao ponto de poder desaparecer.

ImagemGoya

O cristão, o solitário, que sente o peso da ausência de Deus, do longo silêncio do Senhor a quem no entanto quer falar, conseguirá verdadeiramente perseverar na fé?

Não seremos nós tentados a desesperar secretamente, quase inconscientemente, ao mesmo tempo que continuamos a habitar um corpo, racional mas sem alma?

Felizmente, Cristo orou por nós (Lc 22, 32). A sua oração faz nascer em nós uma fé que pede “para não entrar em tentação” (Lc 22, 40). Tal como o próprio Jesus suplicou e lutou na angústia no Monte das Oliveiras. Ele ensinou-nos a pedir no Pai Nosso: “Não nos deixeis cair em tentação”, e por trás da tentação, ao tentador.

 

In La prière: Entre combat et extase
Trad.: rm
© SNPC (trad.) | 28.04.10

ImagemMarco Basaiti (det.)



































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Bosch (det.)

 

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